
ESPECIAL
VEJA, Agosto de 1914
Assassinato do arquiduque detona guerra na
Europa –
Batalhas
entre Tríplice Aliança e Tríplice Entente tomam
continente
de
assalto – Conflito já surge como a Grande Guerra da
humanidade
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| A fúria dos canhões: artilharia belga em ação contra os alemães numa das primeiras batalhas desta nova guerra |
udo começou no fim do século passado, quando os
destemidos líderes das potências do Velho Continente
começaram a rodopiar seus malabares de fogo sobre um imenso
barril de pólvora chamado Europa. Na Alemanha, o kaiser Guilherme
II nutria uma ideia fixa: arrumar um lugar ao sol para as forças
tedescas na inflamável corrida colonialista. Na França,
o ardente desejo do comandante-em-chefe Joseph Joffre era vingar-se
dos germânicos pela subtração dos territórios
da Alsácia e Lorena. E na Rússia, o czar Nicolau II,
faminto por conquistas militares, tentava recuperar todo o prestígio
perdido na vergonhosa derrota para os japoneses em 1905. Esses sinais
já indicavam ao mundo que as labaredas estavam muito próximas.
Pois as manifestações pirofágicas dos mandachuvas
agora incitadas pela fagulha do assassinato do arquiduque
austríaco Francisco Ferdinando, em junho último
finalmente fizeram explodir, neste ano da graça de 1914,
o tão temido conflito bélico pan-europeu. Agora é
guerra, não resta dúvida. Falta saber por quanto tempo
(e por quantas partes do globo) essas chamas vão arder.
Amarrados por uma emaranhada rede de alianças, a maioria
absoluta das nações europeias já toma parte
nas hostilidades seja como agressora, seja como presa dos
pelotões armados. No escaldante teatro de operações,
digladiam-se a Tríplice Aliança, encabeçada
pela Alemanha e pelo império Austro-Húngaro, e a Tríplice
Entente, que reúne Grã-Bretanha, França e Rússia.
As primeiras manobras foram registradas pelos alemães, que,
em 2 de agosto um dia depois de sua declaração
de guerra à Rússia e um dia antes da declaração
de guerra à França , invadiram o pequeno ducado
de Luxemburgo. No dia 4, o exército da Alemanha marchou sobre
a Bélgica, país que, apesar de sua neutralidade, foi
atacado por estar no caminho germânico rumo à França.
Com isso, a Grã-Bretanha, que inicialmente pretendia se manter
distante da sentença dos canhões, declarou guerra
à Alemanha. O tabuleiro da guerra estava montado.
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| Avanço dos teutônicos: alemães enfrentarão britânicos, franceses e russos |
Desde então, apenas no front ocidental, já se contabilizam
14 grandes batalhas deflagradas. As mais concorridas são
as Batalhas das Fronteiras, que mobilizam mais de 1.250.000 soldados
franceses e 1.300.000 alemães na região oriental da
França e meridional da Bélgica. No front oriental,
também é ensurdecedor o gritar das armas. Em 17 de
agosto, 350.000 russos, divididos em dois exércitos, invadiram
o Leste da Prússia pelo sul e pelo norte. A agressão
inicial em Stalluponen foi repelida pelo exército alemão
que, contudo, capitulou em Gumbinnen, alguns dias mais tarde.
Mas os germânicos já registraram um triunfo avassalador
em Tannenberg, onde capturaram 95.000 soldados russos e mataram
outros 30.000 revés que levou o multiestrelado general
Alexander Samsonov, comandante do Segundo Exército da Rússia,
a cometer suicídio. Por seu altíssimo potencial incendiário,
o conflito já recebe dos analistas políticos e militares
a alcunha de "Grande Guerra", termo que outrora descrevera
as contendas napoleônicas, mas que agora parece talhado à
perfeição a esta fervorosa e intrincada carnificina.
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O estopim em Sarajevo Causa espanto pensar que um
crime isolado cometido de forma solitária por um jovem extremista
possa mergulhar o mundo todo numa guerra. Foi exatamente isso, porém,
que ocorreu nas últimas semanas. No último dia 28
de junho, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro,
foi alvejado à queima-roupa em Sarajevo por um estudante
sérvio, Gavrilo Princip, ligado à organização
nacionalista Mão Negra. Contudo, pela demora na reação
do império Austro-Húngaro, o atentado, que ceifou
também a esposa do nobre, Sofia, não parecia tomar
grandes dimensões, muito menos funcionar como a centelha
que seria capaz de inflamar a Europa. Passaram-se três longas
semanas até que o estafe do imperador Francisco José
encaminhasse à Sérvia um ultimato. Nessa mensagem,
além de acusar implicitamente o governo sérvio de
estar envolvido no crime, Viena elencava uma série de exigências
visando reforçar a soberania austro-húngara nos Bálcãs.
Entregue no dia 23 de julho, o documento foi respondido pela Sérvia
dois dias depois e, para surpresa geral, contestado em apenas
pequenas cláusulas. Em resumo, o governo sérvio, apesar
de negar qualquer participação no atentado, aceitava
as requisições e termos da carta. Mesmo assim, o império
Austro-Húngaro decidiu pela declaração de guerra,
no dia 28 de julho. E o efeito dominó não tardaria
a chegar às demais nações europeias.
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| A hora em que tudo mudou: Princip (à dir.) é preso depois de matar o arquiduque |
Respeitando um tratado de amizade com a Sérvia, a Rússia
logo anunciou a mobilização de seu gigantesco exército
para a defesa dos eslavos. Por outro lado, a Alemanha, que já
assinara um pacto com o império Austro-Húngaro, considerou
a decisão russa um ato de guerra contra seus aliados, e declarou
guerra à Rússia. Na verdade, o apoio do Reichstag
alemão já havia sido sacramentado antes mesmo que
o ultimato à Sérvia fosse enviado. Consultado pelo
governo de Francisco José, os germânicos garantiram
total suporte a Viena, qualquer que fosse o resultado da ação.
Dando continuidade à sequência, a França, comprometida
com Rússia também através de um tratado, conclamou
guerra contra a Alemanha e, por tabela, contra o império
Austro-Húngaro. Aqui, a cadeia poderia ter sido rompida:
aliada dos gauleses por um pouco consistente pacto verbal, a Grã-Bretanha
não se via obrigada a juntar-se à França na
contenda.
Desde os anos 1870, os insulares propalavam aos quatro ventos sua
política de "isolamento esplêndido", evitando
interferir na política continental europeia. Entretanto,
a marcha alemã na neutra Bélgica fez o primeiro-ministro
Herbert Asquith resgatar um acordo assinado há 75 anos
o Tratado de Londres, pelo qual os britânicos se comprometiam
a defender a Bélgica em caso de invasão , e
ingressar com as duas botas nas hostilidades. A entrada da Grã-Bretanha
surpreendeu a Alemanha e fortaleceu as hostes da Tríplice
Entente. As colônias Austrália, Canadá, Índia,
Nova Zelândia e União da África do Sul ofereceram
assistência militar e financeira aos aliados. Também
o Japão, ligado aos britânicos por um tratado militar
de 1902, declarou guerra aos germânicos, no dia 23 de agosto.
O conflito já tinha, de fato, uma escala mundial, com repercussões
sentidas muito além das fronteiras europeias.
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Sonhos e devaneios - Das grandes forças do continente,
apenas a Itália, ao menos por enquanto, opta pela posição
de neutralidade. Apesar de signatária do tratado da Tríplice
Aliança, junto com a Alemanha e com o império Austro-Húngaro,
em 1882, os peninsulares também têm em vigor um pacto
pouco conhecido com a França. Como o acordo da Tríplice
Aliança prevê auxílio militar apenas em caso
de guerras defensivas, a Itália, sorrateira, escusou-se da
confraria. Observadores e analistas estrangeiros acreditam, contudo,
que o real motivo da retirada italiana seja uma insatisfação
com a influência austro-húngara nos Bálcãs,
vista com preocupação pelos mandatários da
Bota. Nos Estados Unidos, o presidente Woodrow Wilson tornou pública
sua política de neutralidade e conclamou os cidadãos
americanos, independentemente de suas origens, a não tomarem
lado na guerra, de maneira a evitar conflitos internos no país.
Mesmo com a ausência dessas potências, certamente a
refrega cobrará como poucas outras o tributo de sangue de
seus soldados que, ironicamente, se veem engajados em um
prélio comprado de terceiros por seus superiores.
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| Franceses em xeque: reservistas partem para o front, mas poucos apostam neles |
À exceção do primeiro-ministro britânico,
para quem a pugna veio apenas para atrapalhar acordos comerciais,
nenhum dos líderes das nações envolvidas está
exatamente lamentando o conflito generalizado no Velho Continente.
Ao contrário: a Grande Guerra pode ajudar a solucionar conflitos
internos e potencializar os sonhos expansionistas e devaneios nacionalistas
de diversos soberanos. Alguns deles, inclusive, estão finalmente
levando a cabo manobras e estratégias que vêm sendo
cuidadosamente desenhadas há anos, desde que a Guerra Franco-Prussiana
(1870-1871) redefiniu as fronteiras do continente. É o caso
do Plano XVII, da França, idealizado por Ferdinand Foch depois
da humilhante derrota para a Prússia e abraçado com
afinco por Joseph Joffre no ano passado. Pontuada pela vingança,
a trama lança mão de quatro exércitos para
não só recuperar a Alsácia e Lorena, anexadas
pelos germânicos, como ainda invadir a Alemanha pelas florestas
de Ardennes. Ultraofensivas, as manobras se apoiam em uma suposta
verve combatente dos franceses. Nas primeiras semanas de combate,
entretanto, provou-se que os gauleses estão completamente
despreparados para a potencial invasão alemã via Bélgica.
Seu poder de ataque também já está em xeque.
No lado da Rússia, apesar da relutância inicial do
czar Nicolau II, a guerra contra o império Austro-Húngaro
torna-se uma oportunidade ideal para recuperar o mito do exército
"invencível", ferido pela aniquilação
imposta pelos japoneses na Batalha de Tsushima, em 1905. Moscou
espera também que a campanha ajude a desviar o foco dos problemas
sociais internos. Para isso, dois cenários foram esboçados
pelo estrategista Yuri Danilov: o Plano G, que prevê contragolpes
em caso de mobilização total das forças alemãs
contra os russos, e o Plano A, que dita o modus operandi
russo se a Alemanha concentrar primeiro seus ataques à França.
Nesse caso, a Rússia teria tempo para engendrar a invasão
via Prússia oriental até a Alemanha central. O acachapante
revés em Tannenberg diante dos alemães, contudo, pode
desacelerar o ritmo das forças do czar.
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Senhores das nações - Também está
evidente que, quando o império Austro-Húngaro declarou
guerra à Sérvia, buscava reforçar sua posição
na conturbada região dos Bálcãs, onde, apenas
neste início de década, três guerras já
foram travadas. O fervor nacionalista das pequenas nações
que buscam se unir, sob a tutela de Moscou, em uma espécie
de confederação pan-eslávica em nada agrada
os austro-húngaros, que, ao lado dos turcos-otomanos, foram
senhores dessas nações durante anos. A exemplo do
que se verificou na Rússia, dois planos foram elaborados:
o primeiro, o Plano B, que prevê só a guerra contra
a Sérvia nos Bálcãs, e o Plano R, rascunhado
para defender-se de um possível ataque russo. Nesse período
de aurora dos combates, porém, é a Alemanha quem mais
colhe frutos graças às corretíssimas
análises e estratégias do chamado Plano Schlieffen,
arquitetado pelo finado conde Alfred Von Schlieffen.
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| Chucrute explosivo: a afiada artilharia alemã dá as cartas neste início de contenda |
Em primeiro lugar, porque a guerra veio em uma hora exata para
o chanceler Bethmann Hollweg, que tem a inglória tarefa de
ser a ponte entre o Reichstag dominado por 110 deputados socialistas
e o teimoso e centralizador Guilherme II, ladeado por seu alto comando
militar de extrema direita. As contendas adiaram por tempo indeterminado
uma guerra civil que ele dava como certa. Para melhorar as coisas
para o kaiser, a Grande Guerra oferece uma alternativa expansionista
para a criação de um império germânico,
sonho de Guilherme e de muitos militares, incomodados com o fato
de estarem muito atrás das potências coloniais. Em
segundo lugar, porque o sucesso do Plano Schlieffen no teatro de
operações, agora tocado pelo general Helmuth Von Moltke,
vem sendo expedito.
O exército alemão preparou-se fortemente para uma
guerra em dois fronts, contra a França no leste e a Rússia
no oeste. O conde Von Schlieffen calculou que o exército
russo levaria ao menos seis semanas para se mobilizar, já
que seu contingente monstruoso de soldados é orientado por
paquidérmicas linhas de comunicação. Nesse
ínterim, os alemães empreenderiam força total
para nocautear a França em apenas algumas semanas; Paris
seria conquistada e as forças invasoras realocadas para o
front oriental. Quando os soldados alemães marcharam para
a guerra, no dia 1º, o kaiser se despediu prevendo que em quatro
meses tudo estará terminado. "Estarão todos de
volta antes que comecem a cair as folhas das árvores",
despediu-os Guilherme II. Ao que parece, tudo segue como o planejado.
Em poucos dias de guerra, a Alemanha registrou vitórias notáveis
contra franceses e russos. Ainda é muito cedo para cantar
vitória, mas o combustível dos alemães parece
estar longe de acabar.
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