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  PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
NESTA EDIÇÃO
Começo da nova Grande Guerra
  Alianças que levaram ao conflito
  As primeiras batalhas na Bélgica
  Os líderes com laços de família
  Fim de uma era de prosperidade
  Como foi o atentado em Sarajevo
  O relato de um soldado alemão
  Bertrand Russell critica a guerra
VÍDEOS
 
Índice

ENSAIO: Bertrand Russell
VEJA, Agosto de 1914
Filósofo britânico condena a entrada de seu país na
guerra – Para Bertrand Russell, multidões dos países beligerantes parecem
sedentas de sangue – Governo do país é alvo de duras críticas
A febre da guerra: pupilos da prestigiosa Eton College britânica se exercitam com cartolas - e rifles nos ombros

o contrário da vasta maioria dos meus compatriotas, mesmo neste momento, em nome da humanidade e da civilização, eu protesto contra nossa parcela na destruição da Alemanha. Há um mês, a Europa era uma comunidade pacífica de nações; se um inglês matasse um alemão, ele era enforcado. Agora, se um inglês mata um alemão, ou se um alemão mata um inglês, ele é um patriota, que honrou seu país.

Nós vasculhamos os jornais com olhos famintos por notícias de massacres, e nos saciamos quando lemos que jovens obedientes, cegamente obedientes à palavra de comando, são eliminados aos milhares pelas metralhadoras em Liège. Aqueles que viram as multidões de Londres durante as noites que antecederam a declaração de guerra viram uma população inteira, antes pacata e humana, empurradas em questão de dias na ladeira íngreme do barbarismo primitivo, extravasando, de súbito, os instintos de ódio e sede por sangue contra os quais toda a trama da sociedade foi tecida.

"Nós vasculhamos
os jornais com olhos famintos por notícias
de massacres"

"Patriotas" em todos os países celebram esta orgia brutal como a nobre determinação de vingar seus direitos; a razão e a piedade são varridas por uma grande avalanche de ódio; abstrações da maldade – dos alemães sobre nós e os franceses; dos russos sobre os alemães – escondem o simples fato de que os inimigos são homens, homens como nós, nem melhores nem piores – homens que amam suas casas e a luz do sol, e todos os simples prazeres da vida comum; homens agora enlouquecidos pelo terror da imagem de suas mulheres, irmãs e filhas expostas, com nossa ajuda, à piedade dos conquistadores cossacos. E toda essa loucura e fúria e morte flamejante de nossa civilização e nossas esperanças foi provocada porque os políticos, quase todos estúpidos e todos sem imaginação ou coração, escolheram que ela ocorresse ao invés de sofrerem um mínimo arranhão ao orgulho do país.

É impossível não concluir que o governo da Grã-Bretanha fracassou em seu compromisso com a nação ao não revelar seus antigos acordos com a França e, de última hora, revelar esses acordos e usá-los como base para um apelo à honra. Impossível não concluir que o governo fracassou em seu compromisso com a Europa, ao não declarar a posição logo no começo da crise, e que fracassou em seu compromisso com a humanidade ao não informar a Alemanha das condições que garantiriam sua não-participação numa guerra que, qualquer que seja seu desfecho, provocará indizível sofrimento e a perda de muitos milhares de nossos mais nobres e corajosos cidadãos.

Bertrand Russell, de 42 anos, é filósofo, historiador e matemático. Professor da Trinity College, integrante da Royal Society, é autor de oito livros, incluindo Princípios da Matemática.

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