
AS BATALHAS
VEJA, Agosto de 1914
Alemães conquistam Liège e
abrem caminho para invadir
a
França Exército
da Bélgica oferece surpreendente resistência
Inovações
da máquina de guerra alemã
são decisivas para o resultado
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| Forte, mas não infalível: base do Exército alemão em Vise, alguns quilômetros a noroeste de Liège, com prisioneiros belgas |
rimeiro combate significativo da Grande Guerra, a Batalha de Liège,
na Bélgica, terminou com sabor de vitória não
só para os vencedores, mas também para os vencidos.
A Alemanha logrou êxito em subjugar a cidade e suas fortificações,
um feito que já era esperado pela diferença abissal
de quantidade e qualidade entre os exércitos envolvidos.
Mas os belgas e, naturalmente, seus aliados franceses e britânicos
celebraram a brava e inesperada resistência dos homens
do general Gerard Leman, que renderam-se apenas depois de doze dias
de pugnas encarniçadas. A coragem e a tenacidade da armada
belga não apenas atrasaram a marcha germânica, permitindo
que as forças francesas e britânicas pudessem organizar
melhor suas defesas em Paris alvo da coluna alemã
, mas também forneceram importante componente moral
à Tríplice Entente, provando que o exército
alemão não é infalível.
Como descrito na cartilha do Plano Schlieffen, a Alemanha optou
por atacar a França pelo norte. No caminho entre as duas
potências, porém, está a neutra Bélgica,
que, sem fazer concessões, não cedeu passagem às
forças germânicas, conforme requisitado pelo Reichstag
no começo de agosto. Aos agressores, não havia, pois,
outra alternativa senão levantar a espada. O
primeiro obstáculo
foi Liège, situada no vale do rio Meuse,
conhecida por sua
vocação metalúrgica e defendida por um estratégico
anel de 12 fortificações em seu entorno. Construídos
nos anos 1880 pelo engenheiro militar belga Henri Brialmont, os
fortes semissubterrâneos, com uma cúpula retrátil
em forma de tartaruga, estão a um raio de 6 a 10 quilômetros
da cidade, separados cada um por cerca de 4 quilômetros
distância que permite, em caso de ataque a um deles, alcance
de artilharia de seus vizinhos imediatos.
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| Ofensiva até pelos céus: Zeppelin alemão foi uma das grandes surpresas no front |
Para conquistar Liège sem palpitações, a Alemanha
destacou uma força especial, batizada de Exército
do Meuse, composta por 60.000 homens, subordinados ao general Otto
Von Emmich. As forças disponíveis para a resistência
da Bélgica, liderada pelo general Leman, eram bem mais modestas,
com cerca de 36.000 homens. Dessa forma, na tarde de 4 de agosto,
os alemães partiram para o primeiro ataque com a confiança
de uma vitória suave. Entretanto, logo ficou claro que os
flamengos não negociariam facilmente a derrota. As investidas
germânicas pelo norte e pelo sul de Liège foram repelidas
pela artilharia belga, que, em 5 de agosto, obrigaram os assaltantes
a bater em retirada.
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Zeppelin e howitzer - Observadas as evidentes dificuldades
que os aguardariam, os germânicos, sem demora, decidiram mostrar
aos belgas e, por tabela, aos Aliados e ao resto do planeta
as últimas e irresistíveis novidades de sua
pujante máquina de guerra. O general Erich Ludendorff suspendeu
os ataques aos fortes e convocou uma ajuda dos céus que assombrou
o mundo: um Zeppelin sobrevoou Liège e lançou bombas
sobre a cidade, em um dos primeiros episódios de artilharia
aérea de que se tem notícia. O bombardeio fez o general
Leman ordenar a retirada de uma de suas divisões, enviando-a
para junto do restante do exército belga, em Bruxelas, e
dirigir suas tropas para dentro dos fortes, de onde continuaram
combatendo os invasores. Dessa forma, mesmo com a rendição
da cidade de Liège, em 7 de agosto, a conquista ainda não
estava selada: era necessário ainda subjugar os fortes para
permitir a passagem das fileiras alemãs vindouras.
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| Pérola mortal: pelotão germânico espalha o terror com seus howitzers Krupp |
Nos dias seguintes, os ataques foram infrutíferos: as fortificações
resistiam ao bombardeio incessante, e os valorosos soldados belgas
repeliam as avançadas da infantaria alemã apenas
o Forte Bachon foi capturado por terra, em 10 de agosto. Faltavam
nada menos que onze, tarefa inglória diante das circunstâncias
e do cronograma. Foi então que o exército teutônico
mais uma vez surpreendeu. Para derrubar os bastiões, trouxe
da Alemanha um reforço monstruoso, pérola de sua indústria
bélica, usada pela primeira vez em combate: um canhão
howitzer Krupp 420 mm, jamais visto pelo mundo militar. Até
agora, só se conheciam os howitzers ambulantes de 210 mm.
Morteiros austro-húngaros de 310 mm também ajudaram
a minar os alvos. Assim, o colossal poder da armada alemã
destruiu, um a um, os fortes, que finalmente capitulavam. Em 16
de agosto, o último deles, Forte Boncelles, depôs as
armas.
No calendário inicial, a tomada total de Liège estava
prevista para 10 de agosto, mas o estado-maior germânico garantiu
que a semana de atraso não afetou os planos de assalto à
França: de acordo com os militares, muitos batalhões
ainda estavam se mobilizando e não teriam condições
de chegar no prazo à Bélgica. Mesmo com essa negativa,
os dias ganhos em Liège estão sendo muito apreciados
pelas bandas aliadas, que aplaudem a bravura belga o presidente
francês, Raymond Poincaré, já condecorou a cidade
de Liège com a Legião de Honra, mais alto galardão
civil da república. O reconhecimento, aliás, veio
até do inimigo. Ao ser capturado pelas tropas alemãs
no dia 15 de agosto, inconsciente devido às explosões
que dizimaram o Forte Loncin, o general Leman foi levado até
o comandante Von Emmich. Quando o belga recuperou os sentidos e
se viu cativo, desembainhou a espada para entregá-la a seu
conquistador. Von Emmich, porém, reconhecendo o esforço
dos belgas, recusou-se a cumprir o ritual de vencedores e vencidos.
"Fique com ela, general. O senhor defendeu com nobreza e galhardia
seus fortes".
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