
AS ALIANÇAS
VEJA, Agosto de 1914
Complexa rede de coligações leva potências
à guerra –
Alemão
Bismarck levou à corrida por alianças na Europa
– Comprometida
com os dois lados, Itália permanece alheia às batalhas
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| A Europa de 1914 é o campo de batalha: alemães e austro-húngaros espremidos entre os aliados França e Rússia |
uitos ainda se perguntam: por que um evento aparentemente isolado
como o assassinato do herdeiro do trono austríaco por um
estudante nacionalista sérvio levou potências como
a França, a Alemanha, a Rússia e a Grã-Bretanha
a mobilizarem milhões de soldados e se engajarem em um conflito
de proporções titânicas? Bismarck explica. Pode-se
creditar ao antigo primeiro-ministro da Prússia e chanceler
do Império Germânico (além da atual configuração
territorial da Europa, definida depois da Guerra Franco-Prussiana)
os pactos e tratados assinados por quase todas as nações
do Velho Continente para resguardar suas fronteiras.
A ideia era proteger-se de qualquer ameaça externa, fosse
ela a volúpia expansionista de alguns ou a sede de vingança
de outros. De qualquer forma, foram esses conchavos que acabaram
atraindo, por força dos acordos, mais e mais países
para a guerra. Depois de alcançar a tão sonhada união
dos estados germânicos e trucidar a França na última
grande batalha do século passado, Otto von Bismarck sabia
que apenas conseguiria manter a estabilidade da Alemanha caso selasse
coligações que protegessem seu país de invasores.
Como era quase certo que a França se voltaria contra os
germânicos na primeira oportunidade, especialmente para recuperar
a Alsácia e Lorena, Bismarck esquematizou, em 1873, a Liga
dos Três Impérios, com os russos e os austro-húngaros.
Cinco anos depois, a Rússia desistiu do acordo; Alemanha
e Império Austro-Húngaro seguiram adiante e fecharam
a Aliança Dupla, em 1879. A entrada da Itália no grupo,
em 1881, criou a Tríplice Aliança. Entretanto, a mesma
Itália também assinara um pacto por baixo dos panos
com a França, comprometendo-se a ficar neutra em caso de
ataque alemão ao território gaulês que
veio a acontecer justamente agora, o que explica a não mobilização
italiana na Tríplice Aliança da qual é signatária.
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| Bismarck: os primeiros fios da trama |
Parceiros cordiais - Além desse acordo, em 1891 os
franceses também cerraram fileiras com os russos, que haviam
acabado de se desobrigar de compromissos com os alemães após
a não-renovação de um tratado firmado entre
os dois cinco anos antes. Em 1892, a Convenção Militar
Franco-Russa oficializou o compromisso. A aliança com a Grã-Bretanha,
por sua vez, veio quase uma década depois, em 1904, com a
Entente Cordial, na qual, além de acertar velhas pendências
coloniais, gauleses e britânicos comprometiam-se a operar
em conjunto no campo diplomático (a colaboração
militar só foi corroborada há dois anos, em 1912,
pela Convenção Naval Anglo-Francesa). Assim, quando
a Rússia, três anos mais tarde, assinou a Entente Anglo-Russa,
todos os três países estavam interligados e comprometidos
por acordos mútuos. Estava formada, então, a Tríplice
Entente.
Tal configuração deixou todas as potências
amarradas entre si. Mas, ironicamente, o que as trouxe para a guerra
foram alianças menores, coadjuvantes. Um remoto tratado de
cooperação e defesa ligava a Rússia à
Sérvia. Como já é notório, foi justamente
a declaração de ataque austro-húngaro aos sérvios,
em retaliação ao assassinato do arquiduque Francisco
Ferdinando, que fez Moscou se mobilizar. Por sua vez, a ameaça
de intervenção russa contra os austro-húngaros
carregou a Alemanha para a batalha, com suas declarações
de guerra contra a Rússia e a França. Por último,
faltava a Grã-Bretanha, que oficialmente apenas tomou parte
nas hostilidades quando a Bélgica com quem assinara
em 1839 um obscuro tratado pelo qual comprometia-se a defender a
neutralidade do país flamengo foi invadida pela Alemanha.
Obviamente, o maior interesse dos britânicos é auxiliar
a França e impedir o avanço germânico pelo continente.
Quem viver, verá.
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