Está chegando o dia de Nicolau Alexandrovich Romanov.
Depois de um longo período de luto pela morte do pai, Alexandre
III, o herdeiro do poderoso império finalmente será
coroado czar da Rússia no próximo dia 14 de maio,
em uma aguardada cerimônia marcada para a belíssima
Catedral da Assunção, dentro das muralhas do Kremlin,
em Moscou. Um mês inteiro de feéricas celebrações,
com farta distribuição de pão e boa dose
de circo, é a receita da nobreza russa para que o jovem
monarca, de apenas 28 anos, reverta os incômodos ventos
de impopularidade que sopram contra Nicolau desde que ele assumiu,
de fato, as funções de governante supremo do país,
no fim de 1894.
 |
| Novo czar: impopular e despreparado |
Milhares de russos já se dirigem a Moscou para tomar parte
nos festejos. A chegada de Nicolau II e da czarina Alexandra Fedorovna
ao Palácio Petrovsky, nos arredores de Moscou, está
marcada para o dia 6. Três dias depois acontece o desfile
imperial, que colorirá as ruas da cidade com milhares de
fardas dos diversos regimentos militares e acompanhará
o casal do Palácio ao Kremlin, a fortificação
erguida às margens do Rio Moscou para proteger a cidade
dos invasores. Nos dias 10 e 11, estão marcadas recepções
para embaixadores e solenidades para figuras proeminentes do império.
Quatro dias depois da coroação, o momento de glória
reservado para os súditos: o opíparo banquete popular
nos campos de Khodynka, em que serão montados bufês,
bares e teatros, além da famosa e geralmente generosa distribuição
de presentes pela ocasião. Apenas para esse evento são
aguardadas cerca de 500.000 pessoas.
 |
| O antecessor com a família: mão firme |
'Bon vivant' - Espera-se que a coroação
oficial e o clima festivo forneçam a Nicolau um apoio que
ainda não teve - muito por seus próprios atos, é
verdade. Ao chegar ao trono, em função da doença
e morte do pai, resistiu a entregar qualquer tipo de poder a representantes
eleitos pela população. Teve a chance de realizar
uma série de reformas constitucionais reivindicada pelos
trabalhadores e camponeses, mas, contrariando os conselheiros
da família imperial, decidiu manter a política de
Alexandre III. Além disso, repeliu rispidamente as delegações
que se encontravam no Palácio de Inverno de São
Petersburgo na esperança de terem seus desejos atendidos.
Com isso, deu continuidade ao autoritarismo vigente nos tempos
do czar Alexandre. Ao contrário do pai, todavia, Nicolau II parece não
ter mão firme o bastante para conduzir o gigantesco império
russo. A morte inesperada de seu genitor por falência renal,
há dois anos, precipitou a ascensão do primogênito.
De acordo com todos os conselheiros, o jovem estava completamente
despreparado para as funções. O próprio Nicolau,
que jamais se interessou pela política (bon vivant,
preferia a companhia das mulheres) sabia disso. É célebre
a frase que o herdeiro teria professado a um de seus primos quando
soube do passamento do pai, Alexandre III: "O que será
de mim e da Rússia?" A resposta, o mundo terá
a partir de agora.