Veja na História Vídeo Áudio
  PRIMEIRA OLIMPÍADA
NESTA EDIÇÃO
ESPECIAL
A Olímpiada na Era Moderna
  Entrevista: Barão de Coubertin
  Spiridon Louis vence maratona
  O novo Estádio Panathinaiko
  Personagens da festa esportiva
  Infográfico: façanhas olímpicas
BRASIL
Tensão em Canudos, na Bahia
INTERNACIONAL
Nicolau, o novo czar da Rússia
GERAL
O raio X, um invento espantoso
  Um novo esporte: 'basket ball'
ARTES E ESPETÁCULOS
Estréia La Bohème, de Puccini
  'Máquina do Tempo', HG Wells
Índice
Artes e Espetáculos
VEJA, Abril de 1896
La Bohème, a tumultuada e esperada ópera do italiano
Giacomo Puccini, estréia no Teatro Regio de Turim com uma calorosa
recepção do público – e um terrível vaticínio da crítica
Toques dramáticos: cena do terceiro ato da aguardada montagem, no Teatro Regio de Turim; à direita, o mercurial Puccini

Traição, mentiras, vaidade, intrigas, loucura. Todos os ingredientes que consagram o gênero estão em La Bohème, nova ópera de Giacomo Puccini, que estreou em fevereiro último no Teatro Regio de Turim. No entanto, não são apenas Rodolfo, Mimì, Musetta e Marcello – os protagonistas da trama, que se passa nos subúrbios da Paris da década de 1830 – os responsáveis pelo veneno que tempera o musical. Também a trama e os homens por trás de La Bohème trataram de conferir toques dramáticos à montagem, uma das mais aguardadas e controversas deste século. Dentre os envolvidos no espetáculo, ninguém escapou do fogo cruzado: compositores, libretistas e editores digladiam-se em uma rede de mexericos que vem agitando o círculo intelectual italiano desde 1893, quando Puccini e seu então amigo compositor Ruggiero Leoncavallo viram-se disputando a adaptação para os palcos do romance Scenes de la vie de Bohème, do francês Henry Murger.

Controvérsia: cartaz do novo espetáculo

Na versão de Puccini, que naquele ano estreara seu retumbante sucesso Manon Lescaut em Turim, os dois se encontraram por acaso em um café em Milão e descobriram, também fortuitamente, que trabalhavam na mesma obra. Leoncavallo, que alcançara sucesso internacional em 1892 com sua ópera I Pagliacci e havia ajudado o colega na confecção do libreto de Manon Lescaut, garante que foi ele quem apresentou a idéia da adaptação a Puccini, sugerindo uma empreitada a quatro mãos. O compositor, porém, a teria rejeitado por considerar a obra "inadequada" para uma ópera – os boêmios parisienses retratados no livro do poeta gaulês seriam por demais realistas. Leoncavallo foi a público e acusou Puccini de mentiroso. Este teria se apropriado de sua idéia e a repassado a seus libretistas. O autor de Manon Lescaut respondeu dizendo que, se soubesse que o amigo estava debruçado sobre a obra, não teria iniciado o trabalho; entretanto, não iria abandonar o trabalho que já fizera. Puccini então lançou um desafio a Leoncavallo: também ele deveria continuar sua versão, pois uma história poderia ser interpretada de diversas formas artísticas. Cabotino, garantiu que, no julgamento final do público, seria ele a levar vantagem.

A um passo de desistir: Giacosa e o colega Illica sofreram com o 'pedante' compositor

Inimigos íntimos – Dessa forma, a confecção de duas óperas La Bohème passou a correr em paralelo na Itália. Puccini escolheu como parceiros no trabalho os poetas Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, que ficariam responsáveis pelo texto da ópera. Mas também a dupla de libretistas sofreu com o ego imensurável do compositor. Giacosa, especialmente, esteve a um passo de deixar a tarefa – só foi demovido da idéia pelo editor Tito Ricordi, que prometeu interceder junto ao tempestuoso músico. Giacosa declarou que Puccini era "exaustivamente pedante" e que faltava a ele "estímulo e calor interior". Illica, por sua vez, também se mostrava incomodado com a inconstância do astro. "Puccini está intoxicado com o sucesso de Manon Lescaut, e usa isso como desculpa para se furtar de trabalhar na nova ópera", disparou. A resposta não tardou. "Como posso musicar versos tão longos e arrastados, que deveriam não ser condensados, mas sim reescritos?", provocou Puccini. Mesmo o editor Ricordi chegou a duvidar do comprometimento do compositor, e alfinetou o artista. "Ele queria tanto esse assunto, discutiu com Leoncavallo... E agora treme em suas calças diante das dificuldades?"

Diante de todos esses percalços, a ópera andou a passos de tartaruga. As viagens de Puccini para supervisionar montagens de Manon Lescaut e sua interferência ininterrupta no trabalho dos libretistas retardou a finalização do texto, entregue apenas em agosto de 1894. Novas revisões foram feitas pelo compositor enquanto a música era criada, para desespero de Illica e Giacosa; o ponto final foi dado apenas em dezembro do ano passado. Curiosamente, mesmo com as diabruras do jovem compositor de 37 anos, sua La Bohème ficou pronta antes da versão de Leoncavallo – que afirma não ter previsão de estréia para sua montagem.

Mexericos: o ex-amigo Leoncavallo

Desvio de conduta – Dividida em quatro atos, a ópera que estreou em Turim sob a regência do jovem maestro Arturo Toscanini traz a história de um grupo de intelectuais pobretões às voltas com dificuldades financeiras. Nesse cenário, emerge um romance entre o poeta Rodolfo (interpretado pelo tenor Evan Gorga) e a costureira Mimì (a soprano Cesira Ferrani). Embora seja um tremendo sucesso de público em Turim, a montagem não vem recebendo elogios similares da crítica. O crítico Carlo Bersezio, do jornal La Stampa, carregou nas tintas contra La Bohème, simplesmente vaticinando a peça ao ostracismo. "Puccini não pode ser perdoado por compor sua música apressadamente e com pouco esforço. Mesmo que deixe uma boa impressão para a platéia, não deixará traços na memória de nosso teatro lírico. É bom que o compositor retorne ao verdadeiro caminho da arte, convencendo-se de que este espetáculo foi apenas um breve desvio". Leoncavallo deve estar esfregando as mãos.

Versão para impressão Texto anterior
Próximo texto
Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados