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Tensão em Canudos, na Bahia
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Nicolau, o novo czar da Rússia
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O raio X, um invento espantoso
  Um novo esporte: 'basket ball'
ARTES E ESPETÁCULOS
Estréia La Bohème, de Puccini
  'Máquina do Tempo', HG Wells
Índice
Artes e Espetáculos
VEJA, abril de 1896

Em um surpreendente e inventivo novo romance, o escritor
britânico H.G. Wells coloca um cientista amador a bordo de uma
engenhoca fabulosa - e que lhe revela um futuro desolador

Máquina fantástica: ébano, latão, marfim e quartzo para viajar pelo tempo; à direita, a capa do novo romance científico

O assombroso progresso científico deste século não deixou como corolário apenas algumas das mais engenhosas invenções já concebidas pelo homem, como a eletricidade e o telégrafo. Auxiliada pela irrefreável imaginação de alguns escritores, a ciência também fincou raízes na literatura, com a criação de um gênero muito particular, que alguns vêm denominando romance científico - e cujo luminar é Júlio Verne, autor de Viagem ao Centro da Terra (1864), Da Terra à Lua (1865) e Vinte Mil Léguas Submarinas (1870). Um novo nome, porém, está causando espécie nesse círculo de letras: o do britânico H. G. Wells, de 29 anos. Seu mais novo lançamento, A Máquina do Tempo (William Heinemann and Company Limited publishers, Londres), apresenta o mais fabuloso aparelho já criado no planeta, que permite a um cientista amador londrino viajar ao passado e ao futuro com a mesma facilidade com que hoje se sobe em um bonde elétrico em uma metrópole qualquer.

O britânico Wells: pinceladas marxistas

Não é a primeira vez que viagens no tempo aparecem na literatura - o famoso Conto de Natal, de Charles Dickens, e Um Americano na Corte do Rei Artur, de Mark Twain, já exploraram o tema. Até agora, contudo, todas as incursões eram involuntárias ou fruto de forças sobrenaturais. A "máquina do tempo" de Wells é pioneira por colocar a expedição como resultado da vontade, da ciência e da razão humanas. Valendo-se da teoria de que o tempo é uma quarta dimensão, e que portanto pode ser explorado com os instrumentos adequados, o autor coloca o herói - chamado apenas "viajante do tempo" - em uma jornada de centenas de milhares de anos. O veículo que o catapulta para o futuro é uma máquina fantástica feita de ébano, latão, marfim e quartzo, operada por meio de duas alavancas. Seu funcionamento não é descrito em detalhes - mas o leitor é levado a crer, pela prosa hábil e direta do autor, que a engenhoca é sim verossímil. E isso é suficiente para que uma nova discussão possa ser trazida à baila.

Julio Verne: luminar de um novo gênero

Canibais subterrâneos - Um passeio na máquina e o personagem se vê no ano 802.701. O planeta Terra está completamente desfigurado, com a humanidade dividida em duas raças: os Eloi, seres diminutos e ociosos que vivem na superfície, e os Murdock, canibais subterrâneos. O viajante percebe que os primeiros são a evolução da aristocracia, e os segundos, a descendência da classe trabalhadora. É por meio do relato da infausta rotina de cada um dos grupos e de sua convivência nada harmoniosa que Wells despacha sua real mensagem, uma crítica social com pinceladas marxistas e evolucionistas. É mister noticiar que, na Escola Normal de Ciência, em Londres, o autor foi aluno de T. H. Huxley, notável discípulo do naturalista Charles Darwin. Filho de um jardineiro e de uma serviçal, o britânico, porém, não toma parte na pendenga de classes, nem apela para o maniqueísmo, como alguns poderiam esperar. Ao colocar o leitor como passageiro da máquina do tempo, Wells nos mostra que, nessa toada, urdiremos um mundo estéril e rasteiro, fútil e sem esperança. Então, só nos restará torcer para que excursões intertemporais já sejam uma realidade.

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