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  PRIMEIRA OLIMPÍADA
NESTA EDIÇÃO
ESPECIAL
A Olímpiada na Era Moderna
  Entrevista: Barão de Coubertin
  Spiridon Louis vence maratona
  O novo Estádio Panathinaiko
  Personagens da festa esportiva
  Infográfico: façanhas olímpicas
BRASIL
Tensão em Canudos, na Bahia
INTERNACIONAL
Nicolau, o novo czar da Rússia
GERAL
O raio X, um invento espantoso
  Um novo esporte: 'basket ball'
ARTES E ESPETÁCULOS
Estréia La Bohème, de Puccini
  'Máquina do Tempo', HG Wells
Índice
Especial: PERSONAGENS
VEJA, Abril de 1896
O primeiro arrancou suspiros das moças. O segundo foi
campeão quase por acaso. O último assombrou Atenas com sua valentia.
Eis alguns dos nomes que ficaram célebres nos Jogos

O escocês Elliot: presença airosa

Filho das relações incestuosas do rei Cíniras com a filha Mirra, o jovem Adônis, figura famosa da mitologia, sempre representou o ideal de beleza dos gregos - ao menos até o desembarque em Atenas do espadaúdo escocês Launceston Elliot. O atleta despertou uma admiração incomum dos helênicos - ou melhor, das helênicas - com seu corpo bem torneado e simétrico e seus cabelos e bigodes sobranceiros, atraindo para os eventos em que tomava parte um público bem superior ao do restante das provas. Sua beleza foi exaltada até pelos organizadores nas celebrações oficiais, e chegou a ofuscar seu bom desempenho nas provas do levantamento de peso. Praticante do esporte desde os 13 anos, o britânico nascido na Índia em 1874 competiu nas duas categorias da modalidade. Travou um ferrenho embate com o dinamarquês Viggo Jensen, no levantamento de peso com dois braços, que terminou empatado: cada um alçou 111,5 quilos. O príncipe grego Constantino, árbitro da competição, declarou a vitória ao dinamarquês, que teve mais facilidade para levantar os pesos do que o escocês. O desempate subjetivo gerou protestos da delegação da Grã-Bretanha, e uma nova chance foi dada aos competidores. Como nenhum conseguisse superar seu resultado anterior, a vitória ficou com Jensen. Elliot, muito britanicamente, cumprimentou o rival e foi à forra em seguida, no levantamento de peso com uma mão. Triunfou com facilidade ao içar 71 quilos. Elliot, o belo, ainda competiu nos 100 metros - ficou em terceiro em sua bateria e não chegou à final - e na luta, sendo derrotado na primeira rodada. Pouco importava: sua airosa presença já estava na memória dos gregos.

 

O estudante Boland: vitória contra o grego Kasdaglis na decisão da medalha

O irlandês John Pius Boland, estudante de Oxford Union, foi a Atenas literalmente a passeio. Fascinado pela cultura e pela mitologia helênicas, regozijou-se com a idéia do Barão de Coubertin de ressuscitar os Jogos Olímpicos e arrumou as malas para passar o feriado da Páscoa na Grécia. Entretanto, em uma das histórias mais inusitadas do festivo encontro internacional, o turista voltou para casa com nada menos do que duas medalhas de prata na bagagem. Explica-se: ao chegar à capital, Boland foi recepcionado por Thrasyvoalos Manaos, seu colega na universidade, que se engajara na organização do evento. Lá, descobriu que o amigo o inscrevera para o torneio de tênis. Sem o equipamento necessário à prática do esporte, o irlandês de 25 anos competiu com seus sapatos de salto e sola de couro e uma raquete emprestada. Ainda assim, derrotou o alemão Friedrich Traun na primeira rodada e os gregos Evangelos Rallis, Konstantinos Paspatis e Dionysios Kasdaglis na segunda rodada, semifinal e final, respectivamente. Boland ainda levaria para casa uma segunda medalha de prata, pela vitória no torneio de duplas - atuando ao lado do alemão Traun, venceu a dupla grega composta por Kasdaglis e Demetrios Petrokokkinos. Para um apaixonado pela Grécia, nada mal fazer história nela.

 

Baixinho sobre o cavalo: maior vencedor

O maior vencedor dos Jogos Olímpicos de 1896 tem características pouco afeitas a um atleta aos moldes clássicos gregos. Baixinho, atarracado e careca, o valente alemão Carl Schumann abocanhou nada menos do que três primeiros lugares no esporte que mais requer elasticidade de seus competidores - a ginástica - e surpreendeu o mundo ao triunfar também na luta, batendo adversários fisicamente mais avantajados. Atleta da conceituada associação germânica Berliner Turnerschaft, Schumann travou na ginástica um duelo particular com seu colega e compatriota Hermann Weingärtner. Cada um levou três pratas: duas por equipes, nas barras horizontais e paralelas, e uma individual - Weingärtner nas barras horizontais, Schumann no salto sobre o cavalo. Tudo levava a crer, contudo, que as duas medalhas de bronze de Weingärtner, pelos segundos lugares na argola e no cavalo, deixá-lo-ia com o melhor desempenho de todos os atletas dos Jogos. Além deles, apenas Alfred Flatow, também integrante do time tedesco da ginástica, conseguira três pratas. Mas o diminuto Schumann resolveu arriscar a sorte também na luta. Contra todos os prognósticos, alcançou o triunfo que o colocou em primeiro lugar na lista dos maiores vencedores. Seu adversário inicial foi o portentoso escocês Launceston Elliot, que levava ampla vantagem no tamanho. Mas o alemão, com um golpe relâmpago logo na saída, derrubou o gigante bretão e venceu a contenda. Na final, contra o grego Georgios Tsitas, a parada foi mais dura. Os lutadores batalharam por 40 minutos, até o cair da noite. A falta de iluminação fez com que os juízes interrompessem a luta e a recomeçassem só no dia seguinte, quando Schumann usou o fator surpresa e aniquilou o grego nos primeiros instantes do combate. Mais uma prova de que é o coração que faz o campeão.

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