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  PRIMEIRA OLIMPÍADA
NESTA EDIÇÃO
ESPECIAL
A Olímpiada na Era Moderna
  Entrevista: Barão de Coubertin
  Spiridon Louis vence maratona
  O novo Estádio Panathinaiko
  Personagens da festa esportiva
  Infográfico: façanhas olímpicas
BRASIL
Tensão em Canudos, na Bahia
INTERNACIONAL
Nicolau, o novo czar da Rússia
GERAL
O raio X, um invento espantoso
  Um novo esporte: 'basket ball'
ARTES E ESPETÁCULOS
Estréia La Bohème, de Puccini
  'Máquina do Tempo', HG Wells
Índice
Especial: A MARATONA
VEJA, Abril de 1896
Com uma inesperada vitória na maratona, prova mais
aguardada dos Jogos Olímpicos, Spiridon Louis vira herói da Grécia
e transforma até os príncipes herdeiros em súditos
Gregos em júbilo: o bravo Spiridon Louis, um camponês de 23 anos, completa a prova diante da família real helênica

Depois de uma jornada de quase três horas entre Maratona e Atenas, na qual desbancou surpreendentemente os atletas favoritos, o grego Spiridon Louis, camponês da cidade de Amaroussion, adentrou o estádio Panathinaiko para completar o percurso de mais de 40 quilômetros na mais esperada prova dos novos Jogos Olímpicos de 1896. Quase 70.000 compatriotas alcançavam o êxtase ao presenciar o triunfo de Louis na recém-criada maratona, tradução esportiva da milenar façanha do soldado Feidípedes, que em 490 a.C. correu o mesmo caminho para anunciar, para igual júbilo de seus patrícios, a vitória ateniense contra os persas na batalha de Maratona. A semelhança entre o destino dos dois heróis gregos, porém, cessava nesse ponto: enquanto a tragédia granjeou Feidípedes, que caiu morto após pronunciar uma única e hoje célebre frase – "regozijem-se, atenienses, vencemos!" –, a glória enamorou-se de Spiridon Louis, alçado imediatamente ao panteão dos mais valentes helenos.

Proeza heróica: percurso em três horas

Logo após completar a prova, o atleta de 23 anos foi carregado nos ombros pelos dois príncipes herdeiros da Grécia, Constantino e Jorge – honra inédita a um plebeu –, que o levaram ao encontro do rei Jorge, em seu trono de mármore nas tribunas. Às congratulações do monarca somaram-se caixas de charutos, correntes, um relógio de ouro cravejado de pérolas e um vale para 365 refeições. Entusiasmado, um cidadão teve de ser dissuadido de assinar um cheque de dez mil francos endossado ao vitorioso – o que feriria gravemente o caráter amador dos Jogos. De qualquer forma, Louis acabaria por não aceitar nenhuma das ofertas dos aficionados, à exceção da medalha de prata concedida pelos organizadores e de dois presentes – uma taça, também de prata, de 25 centímetros, oferecida pelo filólogo francês Michel Bréal, idealizador da corrida, e um vaso adornado com a imagem de um corredor, presenteado pelo colecionador de antiguidades Ioannis Lambros.

Alto, magro e humilde, o herói da maratona olímpica e novo ídolo do povo grego preparou-se para a prova labutando, correndo ao lado dos cavalos que o acompanham em sua lida agrícola. Sua resistência e sua velocidade em longos trajetos foram notadas durante o serviço militar na infantaria, mas o grego jamais disputara qualquer tipo de competição esportiva. Mesmo assim, um de seus superiores no exército, o coronel Papadiamantopoulos, integrante do comitê organizador dos Jogos, persuadiu-o a inscrever-se na maratona. Na véspera da grande corrida, enquanto toda a Grécia sonhava com um de seus corredores recebendo a medalha, unindo o passado glorioso da Antiguidade ao dinamismo dos Jogos modernos, o camponês Louis rezava à luz de velas em um singelo celeiro, depois de ter comungado e confessado seus pecados. Suas preces – assim como as de toda a nação helênica – logo seriam atendidas.

Os concorrentes ficaram pelo caminho: um francês se espatifou no chão

Arrancada final – Precisamente às 14 horas do último dia 10, quinto dia de disputas, 17 competidores – treze gregos, um húngaro, um australiano, um francês e um americano – se fizeram presentes à ponte de Maratona para a largada da corrida. A organização espalhou soldados ao longo dos 40 quilômetros do trajeto; charretes com médicos, cronômetros e suprimentos acompanhariam os corredores durante todo o percurso. Um disparo da pistola do coronel Papadiamantopoulos deu o início à contenda, dominada inicialmente pelos estrangeiros. Até a metade da corrida, na cidade de Pikermi, o ponteiro era o francês Lermusiaux, à frente do americano Flack, do australiano Blake e do húngaro Kelner. Nesse ponto, os dois primeiros gregos na classificação, Lavrentis (campeão das preliminares olímpicas) e Kafetzis, abandonaram a prova, abrindo espaço para o vencedor dos jogos pan-helênicos, Kharilaos Vasilakos.

Em sua passagem por Pikermi, ainda na sexta posição, Spiridon Louis, que corria com uma túnica branca e sapatos emprestados de um vizinho, entornou um copo de vinho oferecido por um espectador e perguntou aos moradores quem estava à sua frente. Ao ser informado da distância que o separava dos líderes, não se abateu. "Não será problema. Eu os alcançarei, os ultrapassarei e ganharei deles." O trecho em aclive que se seguiu ajudou Louis a concretizar sua previsão. Blake foi o primeiro a abandonar. Depois foi a vez de Lermusiaux, que pagou o preço por seu início exageradamente lépido. No quilômetro 32, o francês, já tendo perdido a posição para Flack, espatifou-se no chão e teve de ser recolhido por uma das carruagens de apoio. Enquanto isso, Louis, que já ultrapassara Vasilakos e Kelner e era seguido por uma multidão de entusiastas, começava a encostar no líder. No quilômetro 34, o grego deu o bote e ultrapassou o americano, para frenesi dos espectadores.

Louros da glória: cerimônia de premiação

Por cerca de três quilômetros, Louis e Flack se mantiveram separados por uma distância de meros 20 passos. No quilômetro 37, na saída da cidade de Ambelokipi, a namorada do grego, Eleni, o esperava com alguns pedaços de laranja. De energia renovada, o líder apertou o passo e se desgarrou do adversário, que sucumbiu ao esforço e também precisou ser socorrido pelo carro médico. Um tiro anunciou a entrada de Louis no perímetro de Atenas, próximo à escola Rizarios; no estádio, porém, chegava a informação equivocada de que era Flack o primeiro. O desânimo já tomava conta dos gregos quando um diligente mensageiro, galopando seu corcel, entrou no estádio. Seguindo direto para a tribuna real, informou que a vitória seria do grego Spiridon Louis. A notícia logo se espalhou. Quando Louis entrou no estádio e completou a prova, com o tempo de 2 horas, 58 minutos e 50 segundos, a apoteose já estava preparada. A chegada de Vasilakos, sete minutos depois, e de Belokas, que vinha em seguida, deu aos helenos o segundo e terceiro lugares, para completar a festa. (Belokas, contudo, foi desclassificado pouco mais tarde, ao se descobrir que percorreu parte do trajeto em uma carruagem. O húngaro Kelner herdou assim o terceiro posto.)

Desejos realizados – O triunfo de Louis, com as intermináveis celebrações do povo grego, eclipsou por completo todas as outras modalidades. No dia 15 de abril, na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos, o vencedor da maratona foi a grande atração, comandando o desfile dos atletas pelo estádio Panathinaiko, como era o costume na Antiguidade. O público homenageou Louis com uma chuva de flores; em retribuição, o atleta acenava e agitava sem parar sua pequena bandeira da Grécia. Além da taça e da medalha, o campeão tomaria para si um terceiro presente – este não retornável, por vir diretamente do rei Jorge, que prometeu providenciar ao corredor qualquer coisa que este desejasse. A resposta foi imediata: um cavalo e uma charrete para facilitar o transporte de água em sua labuta. Humilde, como um verdadeiro herói.

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