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  PRIMEIRA OLIMPÍADA
NESTA EDIÇÃO
ESPECIAL
A Olímpiada na Era Moderna
  Entrevista: Barão de Coubertin
  Spiridon Louis vence maratona
  O novo Estádio Panathinaiko
  Personagens da festa esportiva
  Infográfico: façanhas olímpicas
BRASIL
Tensão em Canudos, na Bahia
INTERNACIONAL
Nicolau, o novo czar da Rússia
GERAL
O raio X, um invento espantoso
  Um novo esporte: 'basket ball'
ARTES E ESPETÁCULOS
Estréia La Bohème, de Puccini
  'Máquina do Tempo', HG Wells
Índice
Especial
VEJA, Abril de 1896
Primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos toma Atenas
de assalto, coroa esforços dos organizadores, exibe extraordinárias proezas esportivas e renova a auto-estima dos helênicos
O renascimento da festa dos esportes: os gregos e seus convidados participam da cerimônia de abertura, no último dia 6


Há pouco mais de 15 séculos, no ano de 393, o imperador bizantino Teodósio I, o Grande, varria do mapa a maior competição atlética do planeta, os Jogos Olímpicos. Celebrados desde 776 a.C. às margens do rio Alfeu e dedicados aos deuses gregos, os Jogos, que congregavam cidadãos dos diversos estados do mundo helênico, entraram na temida lista de "cultos pagãos" e tiveram sua realização sumariamente proibida pelo soberano cristão. O infausto decreto foi apenas mais uma das estocadas forasteiras no destino livre da Grécia, berço da civilização e da cultura ocidental. Assolada por guerras, desvirtuada por invasores, molestada por celerados, a nação de Aristóteles, Sócrates e Platão só se desgarraria do jugo estrangeiro neste século, quando a Guerra de Independência de 1821 libertou a Grécia do Império Otomano. Com a liberdade, porém, veio o desafio de recuperar um país quebrado e desmoralizado pela milenar submissão – tarefa hercúlea, como os gregos vêm dolorosamente percebendo ao longo das últimas décadas.

A emocionante prova dos 100 metros rasos: disputa pacífica entre nações

Uma luz, contudo, fez-se notar na escuridão dessa caverna de incertezas neste mês de abril. O fogo que flamejava no altar de Héstia, na Olímpia da Antiguidade, voltou a se acender em uma procissão de tochas no centro de Atenas, celebrando o renascimento dos Jogos Olímpicos, agora internacionais, realizados entre os dias 6 e 15 (25 de março a 3 de abril, pelo calendário juliano adotado pelos gregos). O resgate do evento que reunia a flor da civilização helênica em seu ápice não poderia ter chegado em melhor hora para a nação de seus descendentes, ávida por um renascimento. Agora com as portas abertas para o mundo, a Grécia, superando as desconfianças e os problemas iniciais, logrou realizar um evento acolhedor e brilhante, celebrado por atletas e visitantes, dentro do mais ilibado espírito olímpico. Com isso, o país ganha não só uma injeção de auto-estima, como também um voto de credibilidade aos olhos da comunidade internacional presente aos Jogos.

Vikelas, do Comitê: em menos de 2 anos

Helênicos na bancarrota – Curiosamente, partiu de um estrangeiro, o Barão de Coubertin, a centelha que resultou na ressurreição dos Jogos. O desejo expressado pelo francês – eleito secretário-geral do recém-fundado Comitê Olímpico Internacional, no Congresso de Paris, em 1894 – era de que a primeira edição acontecesse em 1900. Mas o grego Demetrius Vikelas, presidente do comitê, sugeriu e bancou a realização dos Jogos em 1896– um prazo, portanto, inferior a dois anos. A idéia foi recebida de braços abertos pelos helênicos. Havia apenas um empecilho, mas de proporções monumentais: o governo da Grécia declarara estado de bancarrota em 1893. Como devedor de primeira grandeza dos países europeus, não poderia entregar um dracma sequer para o financiamento do evento, que já se avizinhava (o dracma, moeda local, vale pouco mais de dez centavos de dólar americano). Mas o rei Jorge, ciente de que a empreitada era de importância nacional, organizou, com auxílio de Vikelas, um comitê provisório para organização dos Jogos Olímpicos de Atenas. Era o primeiro obstáculo a ser superado pelos gregos.

Jorge, o monarca: 'Vida longa à Grécia!'

O colegiado era encabeçado pelo príncipe herdeiro Constantino, tendo como principais auxiliares seus irmãos, os príncipes Jorge e Nicolas. Usando a influência da família real e recorrendo ao sentimento de patriotismo helênico, o comitê lançou mão – com sucesso – das associações e dos cidadãos gregos espalhados pelo mundo para conseguir polpudas doações. Os organizadores também sugeriram ao governo que emitisse uma série especial de selos e medalhas comemorativas aos Jogos, com a verba revertida para o evento. Tudo isso, somado à mais do que generosa ajuda do magnata George Averoff – que representou quase metade do total arrecadado –, possibilitou às autoridades locais a construção da infra-estrutura para a acomodação das dez modalidades esportivas previstas no programa dos Jogos Olímpicos: atletismo, ciclismo, esgrima, ginástica, tiro, natação, tênis, levantamento de peso e remo (essa última modalidade, entretanto, acabou não sendo disputada devido ao mau tempo). Além da reforma total do estádio Panathinaiko, centro pulsante das competições, foram erguidos o Velódromo de Neo Phaliro, um estande de tiro em Kallitheia e quadras de tênis, entre outras instalações.

Connoly: o primeiro campeão olímpico

Espírito olímpico – "Vida longa à nação. Vida longa à Grécia!" O rei Jorge declarou abertos os Jogos Olímpicos no dia 6 de abril – no calendário juliano, 25 de março, data em que se comemorava o 75º aniversário da independência da Grécia –, em uma concorrida cerimônia no Panathinaiko. Diversas filarmônicas marcaram presença, e reuniram-se para executar o Hino Olímpico, de autoria dos gregos Palamas e Samaras, que evocava o espírito imortal da Antiguidade. Bem ensaiado, o público formou um coro de 70.000 vozes, em um espetáculo tocante. Em seguida, já se iniciaram as provas de atletismo – as três baterias eliminatórias dos 100 metros, classificatórias para a final do dia seguinte, constituíram o primeiro programa. Na seqüência, foi a vez do salto triplo, com dez competidores, em que se coroou o primeiro campeão olímpico: o americano James Connolly, com um pulo de nada menos que 2,70 metros. A bandeira dos Estados Unidos foi colocada no centro da arena pelos homens da Marinha Real e aplaudida com entusiasmo pelos gregos, em uma generosa demonstração de reconhecimento e admiração pelo desempenho do vencedor, cuja rota até Atenas incluiu uma viagem transatlântica em um navio de carga.

A prova de natação, no Mar Mediterrâneo: uma contenda muito equilibrada

Esse cavalheirismo, aliás, foi uma constante no comportamento dos anfitriões, em todas as modalidades. Aproximadamente 240 atletas, de 14 diferentes nacionalidades, participaram dos Jogos Olímpicos. Mas os helênicos, apesar de torcerem apaixonadamente pelos heróis nacionais, congratulavam a todos como se fossem patrícios – o que despertou até a curiosidade de alguns competidores estrangeiros. "Eu não teria conseguido cumprimentar meu oponente se ele tivesse me superado em minha casa, como fez um atleta grego comigo", declarou um desportista americano. "Mas foi uma coisa muito bonita de se fazer." Durante todos os dias do evento, a população de Atenas se juntou aos estrangeiros nas ruas da cidade em fraternais demonstrações de integração. Todavia, a maior festa dos oito dias de disputa aconteceu durante a chegada da maratona, em que milhares de gregos viveram uma catarse coletiva com a vitória de Spiridon Louis (leia reportagem nesta edição). Houve boas disputas também no atletismo (dominado pelos desportistas dos Estados Unidos), na ginástica (modalidade em que os alemães foram soberanos), na esgrima e na natação, em que as nações estiveram mais equilibradas.

Spiridon na premiação: triunfo helênico

Fora do programa – Toda a premiação dos campeões ocorreu no último dia dos Jogos Olímpicos, em cerimônia presidida também pelo rei Jorge, com diversos convidados internacionais. Cada vencedor recebia, pelo seu feito, uma medalha de prata, um diploma e uma coroa de ramos de oliveira; ao segundo lugar era oferecida uma medalha de bronze. Depois da entrega dos lauréis, o atleta mais festejado do dia, o grego Spiridon Louis, deixou seu posto para dar uma volta no estádio – seguido nesse desfile improvisado por todos os outros atletas. Passado e presente voltavam a se unir depois de um hiato de 1.500 anos, enchendo de orgulho os gregos. O Barão de Coubertin celebrava. "Alcançamos nestes Jogos uma grande inovação, que foi a cooperação entre os povos e os esportes. É um enorme passo à frente, que lança as bases para um novo futuro."

O próximo encontro, de acordo com o plano quadrienal do Comitê Olímpico Internacional, acontecerá em Paris, em 1900. Mas o sucesso dos Jogos de Atenas pode trazer uma pequena dor de cabeça a Coubertin, que assumirá como presidente do comitê organizador do evento em solo gaulês. Em seu discurso de encerramento, o rei Jorge, empolgado com o efeito contagiante do evento sobre o moral da população, lançou uma frase que certamente não estava no programa dos homens do Comitê Olímpico. "Que a Grécia esteja destinada a ser o ponto de encontro pacífico de todas as nacionalidades, e que Atenas se torne a sede permanente dos Jogos Olímpicos." A sorte está lançada.




Para o Barão de Coubertin, idealizador da retomada dos Jogos Olímpicos, o importante não é vencer, mas simplesmente competir. Os atletas que triunfaram nas competições de Atenas, contudo, voltaram para casa com algo mais que a satisfação de conquistar uma vitória: foram presenteados com belíssimas medalhas. Os primeiros colocados ganharam medalhas de prata. Os que ficaram em segundo lugar receberam medalhas de bronze. No quadro ao lado, os países que somaram mais medalhas.
  País Prata Bronze
1 Estados Unidos 11 7
2 Grécia 10 17
3 Alemanha 6 5
4 França 5 4
5 Grã-Bretanha 2 3
6 Hungria 2 1
7 Áustria 2 1
8 Austrália 2 0
9 Dinamarca 1 2
10 Suiça 1 2
11 Países mistos 1 1
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