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  PRIMEIRA OLIMPÍADA
NESTA EDIÇÃO
ESPECIAL
A Olímpiada na Era Moderna
  Entrevista: Barão de Coubertin
  Spiridon Louis vence maratona
  O novo Estádio Panathinaiko
  Personagens da festa esportiva
  Infográfico: façanhas olímpicas
BRASIL
Tensão em Canudos, na Bahia
INTERNACIONAL
Nicolau, o novo czar da Rússia
GERAL
O raio X, um invento espantoso
  Um novo esporte: 'basket ball'
ARTES E ESPETÁCULOS
Estréia La Bohème, de Puccini
  'Máquina do Tempo', HG Wells
Índice
Especial: O ESTÁDIO
VEJA, Abril de 1896
Sede principal dos Jogos, o estádio Panathinaiko renasce
após séculos de ostracismo e encanta atletas e torcedores com seu
fulgor. Reforma foi bancada por magnata grego
Um palco com história milenar: a reforma do estupendo 'Kallimarmaro' custou o equivalente a 94.300 dólares

As corridas de carruagens e o pugilismo, atrações esportivas dos jogos clássicos dos gregos, foram substituídos pela competição de bicicletas e pela esgrima neste evento moderno. Uma coisa, entretanto, não mudou: um dos maiores palcos olímpicos está outra vez brilhando – literalmente – no centro de Atenas. Encravado entre os morros de Agra e Ardettos, o estádio Panathinaiko, com pelo menos 2.200 anos de história, ofusca olhares em sua resplandecente construção de mármore branco. Renovado especialmente para estes Jogos Olímpicos, o estádio, carinhosamente apelidado pelos locais de Kallimarmaro – "o belo marmorizado" –, impressionou a todos os atletas e visitantes, sem exceção, desempenhando a ponte perfeita entre o passado e o presente, tão desejada pelos membros do Comitê Olímpico. "O estádio Panathinaiko nos coloca face a face com a grandeza e o poder da sociedade antiga de Atenas. É uma magnitude que vem não de um monumento construído por escravos para glorificar um governante, mas de uma estrutura para abrigar uma comunidade livre e poderosa, unida pela apreciação pacífica da força e habilidade física", disse, embasbacado, o estadunidense Charles Waldstein, que competiu nas provas de tiro.

Ferradura alongada: lugar para receber mais de 50.000 espectadores

Obra faraônica – Até o ano de 330 a.C., Atenas não possuía uma praça esportiva à altura de seus atletas. Ao assumir como governante, Licurgo, o Orador, deu início à construção de um estádio para abrigar os Jogos Panatenaicos, parte das festividades da Panathenaea, maior celebração de Atenas, em homenagem à deusa que empresta o nome à cidade. Em forma de ferradura alongada, com uma pista de aproximadamente 200 metros, foi projetado com assentos de madeira especiais para convidados e autoridades; para o restante da platéia, as acomodações eram de terra chã. Erguer um estádio para 50.000 pessoas, porém, acabou consumindo mais verbas do que o imaginado, e a construção só foi terminada graças à ajuda desinteressada de cidadãos atenienses, como Eudemos. Aberto a todos que quisessem freqüentá-lo, o Panathinaiko foi sede de diversas competições de atletismo e ginástica, e manteve suas características originais até as cercanias de 140 d.C. Herodes Atticus, nomeado organizador dos Jogos Panatenaicos, decidiu agradecer a confiança nele depositada pelos atenienses com a reforma do estádio. Grandiloqüente, decidiu revesti-lo do mármore branco do monte Pentélico. Era o mesmo material usado nos grandes monumentos atenienses. Dito e feito: construiu faraônicas arquibancadas de mármore para todos os espectadores, além de templos, portais e outras obras artísticas.

Durante o violento jugo do Império Romano na Grécia, o estádio passou a abrigar duelos de gladiadores e corridas de bigas, além das lutas de animais – para desespero dos humanistas atenienses. Também foi erguido um semicírculo de arquibancadas para fechar a arena e dar a ela um formato ovalado, comum a esse tipo de construção em Roma. Não se sabe o destino do estádio a partir do obscuro período da Idade Média, mas é certo que sua deterioração foi acelerada, com a retirada gradativa do mármore para ser reutilizado em outras construções ou mesmo para ser transformado em cal. Restos de três fornos foram encontrados nas cercanias do estádio, em escavações que começaram em 1869 e duraram até 1878, a cargo do arqueólogo alemão Ernst Ziller. Foram elas que tornaram possível a reconstrução do Panathinaiko de acordo com as plantas de Herodes. Com o estádio praticamente desfigurado, era necessária uma vultosa soma para fazê-lo brilhar de novo, com os mármores do Pentélico. No orçamento dos novos Jogos, porém, a verba destinada à reconstrução não era suficiente nem sequer para o início das obras.

Averoff: caudaloso chafariz monetário

O novo Herodes – O governo grego, então, decidiu recorrer a seu mais caudaloso chafariz monetário: o magnata grego Georgeos Averoff, que só nos últimos anos já financiara a construção da Escola Politécnica, do Colégio Militar, do Colégio para Moças e do Reformatório Juvenil, entre outras. Radicado em Alexandria, no Egito, o empresário mais uma vez não recusou o chamado da pátria, e aceitou, honrado, financiar por completo a reforma do Panathinaiko. Inicialmente, a promessa era de que seriam necessários 585.000 dracmas (o equivalente a pouco mais de 60.000 dólares americanos) para a reforma; entretanto, como é de costume nessas ocasiões, a empreitada avançou no bolso de Averoff, que ao final teve de desembolsar nada menos do que 920.000 dracmas – um gasto quase 60% acima do previsto. O canteiro de obras no centro de Atenas ajudou a despertar a curiosidade dos gregos para os Jogos. Sob a batuta do arquiteto Anastasios Metaxas, que encarregou o londrino Charles Perry da preparação da pista de atletismo de cinza batida, um esquadrão de trabalhadores labutou contra o relógio. Para alívio dos organizadores e satisfação dos visitantes, deu tempo.

Os Jogos certamente perderiam a maior parte de seu brilho caso o estádio Panathinaiko não fosse a sede principal do evento. Apesar da beleza do Velódromo Neo Phaliron e dos jardins do Zappeion, que receberam algumas modalidades, foi o Kallimarmaro que encantou a todos os visitantes. Nele disputaram-se as provas de atletismo, ginástica, luta e levantamento de peso, além da espetacular chegada da maratona. O financiador Averoff, pelo menos, foi constantemente lembrado pelos gregos. Na véspera da abertura, inaugurou-se uma estátua com sua imagem carregada de pompa e circunstância na entrada principal do estádio, com a presença de toda a família real. Em um de seus discursos de encerramento, o rei Jorge foi ainda mais longe. "Eu e a nação expressamos nosso agradecimento ao grande benfeitor deste país, George Averoff, que se apresentou com generosidade e munificência, e que se mostrou digno da comparação com Herodes Atticus. Mais do que ninguém, ele colaborou para o sucesso dos Jogos Olímpicos em Atenas." Poucas vezes uma pena laudatória foi tão justa.

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