As corridas de carruagens e o pugilismo, atrações
esportivas dos jogos clássicos dos gregos, foram substituídos
pela competição de bicicletas e pela esgrima neste
evento moderno. Uma coisa, entretanto, não mudou: um dos
maiores palcos olímpicos está outra vez brilhando
– literalmente – no centro de Atenas. Encravado entre os morros
de Agra e Ardettos, o estádio Panathinaiko, com pelo menos
2.200 anos de história, ofusca olhares em sua resplandecente
construção de mármore branco. Renovado especialmente
para estes Jogos Olímpicos, o estádio, carinhosamente
apelidado pelos locais de Kallimarmaro – "o belo marmorizado"
–, impressionou a todos os atletas e visitantes, sem exceção,
desempenhando a ponte perfeita entre o passado e o presente, tão
desejada pelos membros do Comitê Olímpico. "O
estádio Panathinaiko nos coloca face a face com a grandeza
e o poder da sociedade antiga de Atenas. É uma magnitude
que vem não de um monumento construído por escravos
para glorificar um governante, mas de uma estrutura para abrigar
uma comunidade livre e poderosa, unida pela apreciação
pacífica da força e habilidade física",
disse, embasbacado, o estadunidense Charles Waldstein, que competiu
nas provas de tiro.
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| Ferradura alongada: lugar para receber mais de 50.000 espectadores |
Obra faraônica – Até o ano de 330 a.C., Atenas
não possuía uma praça esportiva à
altura de seus atletas. Ao assumir como governante, Licurgo, o
Orador, deu início à construção de
um estádio para abrigar os Jogos Panatenaicos, parte das
festividades da Panathenaea, maior celebração
de Atenas, em homenagem à deusa que empresta o nome à
cidade. Em forma de ferradura alongada, com uma pista de aproximadamente
200 metros, foi projetado com assentos de madeira especiais para
convidados e autoridades; para o restante da platéia, as
acomodações eram de terra chã. Erguer um
estádio para 50.000 pessoas, porém, acabou consumindo
mais verbas do que o imaginado, e a construção só
foi terminada graças à ajuda desinteressada de cidadãos
atenienses, como Eudemos. Aberto a todos que quisessem freqüentá-lo,
o Panathinaiko foi sede de diversas competições
de atletismo e ginástica, e manteve suas características
originais até as cercanias de 140 d.C. Herodes Atticus,
nomeado organizador dos Jogos Panatenaicos, decidiu agradecer
a confiança nele depositada pelos atenienses com a reforma
do estádio. Grandiloqüente, decidiu revesti-lo do
mármore branco do monte Pentélico. Era o mesmo material
usado nos grandes monumentos atenienses. Dito e feito: construiu
faraônicas arquibancadas de mármore para todos os
espectadores, além de templos, portais e outras obras artísticas.
Durante o violento jugo do Império Romano na Grécia,
o estádio passou a abrigar duelos de gladiadores e corridas
de bigas, além das lutas de animais – para desespero dos
humanistas atenienses. Também foi erguido um semicírculo
de arquibancadas para fechar a arena e dar a ela um formato ovalado,
comum a esse tipo de construção em Roma. Não
se sabe o destino do estádio a partir do obscuro período
da Idade Média, mas é certo que sua deterioração
foi acelerada, com a retirada gradativa do mármore para
ser reutilizado em outras construções ou mesmo para
ser transformado em cal. Restos de três fornos foram encontrados
nas cercanias do estádio, em escavações que
começaram em 1869 e duraram até 1878, a cargo do
arqueólogo alemão Ernst Ziller. Foram elas que tornaram
possível a reconstrução do Panathinaiko de
acordo com as plantas de Herodes. Com o estádio praticamente
desfigurado, era necessária uma vultosa soma para fazê-lo
brilhar de novo, com os mármores do Pentélico. No
orçamento dos novos Jogos, porém, a verba destinada
à reconstrução não era suficiente
nem sequer para o início das obras.
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| Averoff: caudaloso chafariz monetário |
O novo Herodes – O governo grego, então, decidiu
recorrer a seu mais caudaloso chafariz monetário: o magnata grego
Georgeos Averoff, que só nos últimos anos já
financiara a construção da Escola Politécnica,
do Colégio Militar, do Colégio para Moças
e do Reformatório Juvenil, entre outras. Radicado em Alexandria,
no Egito, o empresário mais uma vez não recusou
o chamado da pátria, e aceitou, honrado, financiar por
completo a reforma do Panathinaiko. Inicialmente, a promessa era
de que seriam necessários 585.000 dracmas (o equivalente
a pouco mais de 60.000 dólares americanos) para a reforma;
entretanto, como é de costume nessas ocasiões, a
empreitada avançou no bolso de Averoff, que ao final teve
de desembolsar nada menos do que 920.000 dracmas – um gasto quase
60% acima do previsto. O canteiro de obras no centro de Atenas
ajudou a despertar a curiosidade dos gregos para os Jogos. Sob
a batuta do arquiteto Anastasios Metaxas, que encarregou o londrino
Charles Perry da preparação da pista de atletismo
de cinza batida, um esquadrão de trabalhadores labutou
contra o relógio. Para alívio dos organizadores
e satisfação dos visitantes, deu tempo.
Os Jogos certamente perderiam a maior parte de seu brilho caso
o estádio Panathinaiko não fosse a sede principal
do evento. Apesar da beleza do Velódromo Neo Phaliron e
dos jardins do Zappeion, que receberam algumas modalidades, foi
o Kallimarmaro que encantou a todos os visitantes. Nele
disputaram-se as provas de atletismo, ginástica, luta e
levantamento de peso, além da espetacular chegada da maratona.
O financiador Averoff, pelo menos, foi constantemente lembrado
pelos gregos. Na véspera da abertura, inaugurou-se uma
estátua com sua imagem carregada de pompa e circunstância
na entrada principal do estádio, com a presença
de toda a família real. Em um de seus discursos de encerramento,
o rei Jorge foi ainda mais longe. "Eu e a nação
expressamos nosso agradecimento ao grande benfeitor deste país,
George Averoff, que se apresentou com generosidade e munificência,
e que se mostrou digno da comparação com Herodes
Atticus. Mais do que ninguém, ele colaborou para o sucesso
dos Jogos Olímpicos em Atenas." Poucas vezes uma pena
laudatória foi tão justa.