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Entrevista: Pierre
de Coubertin
VEJA, abril de 1896
O secretário-geral do Comitê Olímpico Internacional
explica os motivos que o levaram a reviver os antigos Jogos gregos
e ataca a envolvimento do dinheiro com a prática esportiva
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| Coubertin: 'As paixões mais nobres' |
Nascido em 1863 no seio de uma família da aristocracia parisiense,
Pierre de Frédy tinha desenhada para si uma carreira militar.
Mas o jovem humanista acreditava que o poder da educação
era maior do que o das armas. Recusando o destino que lhe fora traçado,
tomou para si a missão de uma reforma pedagógica na
França. Apaixonado pelo esporte – então visto em seu
país como um inimigo mortal da intelectualidade –, o Barão
de Coubertin, como se tornou conhecido, visitou a Inglaterra, os
Estados Unidos e o Canadá para conhecer sistemas educacionais
que aliassem os exercícios físicos aos intelectuais.
Convencido de seu sucesso, dedicou-se, em seu retorno à França,
a fundar associações desportivas escolares e à
sua organização em nível nacional. As fronteiras
gaulesas, porém, já eram pequenas para Coubertin,
que sonhava em retomar os antigos Jogos Olímpicos gregos.
Uma competição multiesportiva internacional era uma
idéia impraticável e utópica para a maioria
– mas não para o teimoso francês, que, com a ajuda
de alguns poucos abnegados, logrou organizar a competição
em plena era moderna. Nesta entrevista, o Barão, defensor
ferrenho do amadorismo nos esportes, comenta a resistência
encontrada ao restabelecimento dos Jogos Olímpicos e já
projeta o legado do evento para a Grécia e para o mundo:
"Os Jogos Olímpicos, para os antigos, representavam
a união do esporte e promoviam a paz. Não é
nada visionário recorrer a eles para obter benefícios
similares no futuro".
VEJA - Qual foi a intenção dos membros
dos fundadores do Comitê Olímpico Internacional ao
reviver uma instituição que esteve esquecida por tantos
séculos?
Coubertin - O esporte está assumindo uma importância
cada vez maior a cada ano, e o papel que desempenha parece ser tão
importante e duradouro no mundo moderno quanto era na Antiguidade.
Mais que isso, ele reaparece com novas características, é
internacional e democrático, adequado, portanto, às
idéias e necessidades dos dias de hoje. Mas hoje, como antes,
seu efeito será benéfico ou maléfico de acordo
com o uso que dele é feito, e da direção a
que é encaminhado. O esporte pode trazer à baila tanto
as paixões mais nobres quanto as mais rasas; pode desenvolver
as qualidades de honra e altruísmo da mesma forma que a ganância;
pode ser cavalheiresco ou corrupto, viril ou bestial; por último,
pode ser usado para fortalecer a paz ou preparar para a guerra.
Ora, nobreza de sentimentos, admiração pelas virtudes
de altruísmo e honra, espírito cavalheiresco, energia
viril e paz são as necessidades primárias de qualquer
democracia moderna, seja ela republicana ou monárquica...
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| Uma reunião do Comitê, no último dia 10: o Barão e seus pioneiros olímpicos |
VEJA - O senhor acredita que, após esta primeira
edição, os Jogos Olímpicos realmente se solidificarão
como uma competição esportiva internacional periódica?
Coubertin - Com certeza. Não se trata de uma criação
local e passageira, mas sim de algo universal e duradouro. Até
porque o renascimento dos Jogos não é só fruto
de um sonho espontâneo: é a conseqüência
lógica das grandes tendências cosmopolitas de nosso
tempo. O século XIX viu o despertar de um gosto pelos esportes
em toda a parte. Ao mesmo tempo, as grandes invenções
desta era, as estradas de ferro e telégrafos, permitiram
a comunicação de pessoas de todas as nacionalidades.
Uma relação mais fácil entre homens de todas
as línguas abriu naturalmente uma esfera maior para interesses
em comum. A humanidade tem começado a viver uma existência
menos isolada, diferentes raças aprenderam a se conhecer
e a se compreender melhor, e ao comparar seus poderes e realizações
nos campos da arte, indústria e ciência, uma rivalidade
nobre nasceu entre elas, impulsionando-as a conquistas ainda maiores.
As Exposições Universais têm reunido em um ponto
do globo os produtos de seus cantos mais remotos. Nos domínios
da ciência e da literatura, assembléias e conferências
vêm unindo os mais ilustres intelectuais de todas as nações.
Não poderia ser de outra forma que também esportistas
das mais diversas nacionalidades deveriam começar a se encontrar
em território neutro. A Suíça tomou a frente
ao convidar atiradores estrangeiros para participar das competições
de tiro de sua federação; corridas de bicicleta vêm
sendo disputadas em todas as pistas da Europa; Inglaterra e Estados
Unidos têm se desafiado por mar e por terra; os mais hábeis
esgrimistas de Roma e Paris têm cruzado seus floretes. Gradativamente,
o esporte está se tornando mais internacional, estimulando
os interesses e ampliando a esfera de ação. O renascimento
dos Jogos Olímpicos se tornou possível e, posso dizer,
até mesmo necessário.
VEJA - Ainda assim, a competição esteve
longe de ser uma unanimidade. Como foi a organização?
Coubertin - Quando tive a idéia de convocar em
Paris um Congresso Internacional do Esporte, em 1892, logo descobri
que isso não seria possível sem alguma labuta preliminar,
e me lancei com afinco nessa tarefa. Unificar os grandes clubes
esportivos franceses e me comunicar com as sociedades similares
de outros países era primordial, de um lado, para não
oferecer a estranhos o edificante espetáculo da discórdia
nacional e, de outro, para obter do exterior diversos adeptos a
essa causa. Na primavera de 1893, a situação tinha
melhorado tanto que já era possível convocar um congresso.
Tínhamos ótima relação com Bélgica,
Inglaterra e Estados Unidos, e convites foram enviados a todas a
sociedades esportivas no mundo solicitando-lhes que mandassem representantes
para Paris, no mês de junho de 1894. A programação
do Congresso foi elaborada de modo a disfarçar seu principal
objetivo: o renascimento dos Jogos Olímpicos. Ela trazia
apenas questões sobre o esporte em geral. Cuidadosamente,
deixei de mencionar tão ambicioso projeto, receando que pudesse
levantar tamanha manifestação de desdém e escárnio
que acabasse por desencorajar, de antemão, aqueles favoráveis
à idéia. Isso porque sempre que eu aludira ao meu
plano em encontros em Oxford ou Nova York, ficara tristemente consciente
de que minha platéia o considerara utópico e impraticável.
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| O atleta olímpico: atividade amadora |
VEJA - As coisas não mudaram nem mesmo depois
do anúncio da realização do evento em Atenas,
com o apoio do governo local?
Coubertin - Pouco. Os comitês nacionais e internacionais
estavam ocupados recrutando competidores, mas a tarefa não
era tão fácil quanto se possa imaginar. Não
só era preciso superar a indiferença e a desconfiança.
O renascimento dos Jogos Olímpicos incitara certa hostilidade.
Embora o Congresso de Paris tenha sido cuidadoso em decretar que
toda forma de exercício físico praticada no mundo
deveria encontrar seu lugar na programação, os ginastas
sentiram-se ofendidos, acreditando não ter recebido proeminência
suficiente. A maior parte das associações de ginástica
de Alemanha, França e Bélgica está animada
por um rigoroso espírito exclusivo. Essas associações
não ficaram satisfeitas em declinar do convite para dirigirem-se
a Atenas. A federação belga escreveu para as outras
federações, sugerindo uma resistência orquestrada
contra o trabalho do Congresso de Paris. Eles não se mostraram
inclinados a tolerar a presença das modalidades atléticas
que eles próprios não praticam; aquilo que desdenhosamente
chamam de "esportes ingleses" se tornou, por conta de
sua popularidade, especialmente odioso para eles. Felizmente, porém,
outras mentes prevaleceram.
VEJA - O profissionalismo parece ser cada vez mais uma
realidade no esporte. Os Jogos Olímpicos, com seu caráter
completamente amadorístico, são uma resposta a esse
espírito?
Coubertin - Sim, é fato que mais e mais um espírito
mercantilista ameaça invadir os círculos esportivos.
Os homens não correm ou lutam abertamente por dinheiro, mas
ainda assim a tendência a um acordo lamentável se alastrou.
O desejo de vencer muitas vezes não tem que ver com a simples
ambição por uma distinção honrosa. E,
se não desejássemos ver o esporte degenerar e acabar
pela segunda vez, ele precisava ser purificado e unido. De todas
as medidas que levariam a esse desejado objetivo, só uma
me parecia totalmente praticável: a criação
de uma competição periódica, para a qual as
sociedades esportivas de todas as nacionalidades seriam convidadas
a enviar seus representantes, colocando esses encontros sob a única
patronagem que poderia lançar sobre eles uma aura de grandeza
e glória – a patronagem da Antiguidade Clássica! Nos
Jogos Olímpicos, as competições serão
sempre disputadas com regulamentos amadores. Abrimos exceção
para a esgrima, já que em muitos países professores
de esgrima militar são soldados ranqueados. Para eles, providenciou-se
um torneio à parte. Para todas as outras modalidades, somente
amadores são admitidos. É impossível conceber
os Jogos Olímpicos com prêmios em dinheiro. Mas essas
regras, que parecem até simples, são bastante complicadas
em sua aplicação prática pelo fato de que a
definição do que constitui um amador difere de um
país para outro – às vezes, de um clube para outro.
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| A família real desfila na abertura: 'O esporte fez uma abertura no coração da nação' |
VEJA - Os Jogos foram um sucesso na Grécia. A
população tomou parte nas celebrações,
e um sentimento de orgulho pelo passado glorioso esportivo se alastrou
pelo país. Qual o legado do evento ao país?
Coubertin - É fato amplamente conhecido que os
gregos, durante seus séculos de opressão, haviam perdido
completamente o gosto pelos esportes. O povo grego, contudo, não
é acometido da indolência natural dos orientais, e
estava claro que o hábito atlético, dada a oportunidade,
voltaria a se enraizar facilmente entre seu povo. De fato, diversas
associações de ginástica haviam se formado
nos últimos anos em Atenas e Patras, e o público mostrava
cada vez mais interesse em seus feitos. Era, então, um momento
favorável para dizer as palavras: Jogos Olímpicos.
Assim que ficou claro que Atenas auxiliaria no renascimento das
Olimpíadas, uma perfeita febre de atividade muscular tomou
conta de todo o reino. E isso não foi nada perto do que se
seguiu depois dos Jogos. Eu vi, em pequenas vilas longe da capital,
pequenos garotos praticamente sem roupas atirando pedrinhas, pulando
sobre barreiras improvisadas, e dois moleques nunca se encontravam
nas ruas de Atenas sem disputar uma corrida. Nada superava o entusiasmo
com que os vitoriosos eram recebidos por seus conterrâneos
no retorno às suas cidades natais. Eram recebidos pelo prefeito
e pelas autoridades municipais, e aclamados por uma multidão
carregando ramos de oliveira e de louro. Nos tempos antigos, o vencedor
adentrava a cidade por uma abertura feita especialmente em seus
muros. As cidades gregas já não são mais muradas,
mas pode-se dizer que o esporte fez uma abertura no coração
da nação. Quando se percebe a influência que
a prática de exercícios físicos pode ter no
futuro de um país e na força de todo um povo, fica-se
tentado a imaginar se a Grécia não dará início
a uma nova era a partir de 1896.
VEJA - E em relação ao resto do mundo?
Os Jogos cumpriram o papel que o senhor imaginava?
Coubertin - É claro que, no mundo como um todo,
os Jogos Olímpicos ainda não exerceram nenhuma influência,
mas estou profundamente convencido que eles o farão. Esta
foi a razão para seu resgate. Como já disse, o esporte
moderno precisa ser unificado e purificado. Acredito que nenhuma
educação, especialmente em uma época democrática,
pode ser boa e completa sem a ajuda do esporte; mas o esporte, para
desempenhar seu papel educacional, precisa ser baseado em um desinteresse
puro e no sentimento de honra. Foi com esse pensamento em mente
que eu busquei reviver os Jogos Olímpicos. Tive sucesso depois
de muito esforço. Se a instituição prosperar
– e confio que, com o auxílio de todas as nações
civilizadas, ela irá prosperar –, acredito que ela pode ser
um fator potente, ainda que indireto, na busca da paz universal.
Guerras acontecem porque as nações não compreendem
erradamente as outras. Não teremos paz enquanto o preconceito
que hoje separam as diferentes raças seja erradicado. Para
obter este objetivo, que melhor meio do que reunir periodicamente
a juventude de todos os países para disputas amistosas de
força muscular e agilidade? Os Jogos Olímpicos, para
os antigos, representavam a união do esporte e promoviam
a paz. Não é nada visionário recorrer a eles
para obter benefícios similares no futuro.
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