Ciência VEJA, Abril
de 1896
A prodigiosa
técnica da fotografia através de corpos
opacos
revoluciona a medicina; os resultados
práticos na cura de
pacientes já são verificados na Europa e Estados Unidos
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| Uma descoberta espantosa: os ossos da mão de um paciente são fotografados pelo aparelho do alemão Röntgen (à dir.) |
Poucas descobertas na história da ciência produziram
resultados tão rápidos e surpreendentes quando a fotografia
através dos corpos opacos, anunciada no final do ano passado
pelo professor Wilhelm Conrad Röntgen, da Universidade de Würsburgo,
na Alemanha. Desde que sua notícia ganhou as páginas
dos jornais científicos, há algumas semanas, experimentos
com o chamado "Raio X" – um misterioso e estranho elemento
que não obedece às leis da reflexão nem da
refração – vêm sendo conduzidos em diversos
laboratórios da Europa e dos Estados Unidos. Agora o mundo
se admira com os formidáveis relatos dos resultados de sua
aplicação prática na medicina, mais notadamente
na cirurgia. Atravessando a pele em direção à
escuridão do âmago do corpo humano, os raios tornam
visíveis detalhes que os médicos apenas podiam supor
pelo exame subjetivo e por meio de deduções aproximadas.
O fabuloso Raio X torna mais preciso o diagnóstico – e, com
isso, aumenta a chance de cura das enfermidades que afligem os pacientes.
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| Onde tudo começou: o laboratório do inventor na Universidade de Wurzburg, Bavária |
Na
Inglaterra, a revista médica Lancet noticia o caso da cura de um
marinheiro internado há vários meses no Guy’s Hospital, em Londres.
O indivíduo, encontrado ébrio em um distrito da cidade, tinha paralisadas
as extremidades superiores e inferiores. Os exames não revelaram nada além
de uma chaga dorso-lombar, que logo se cicatrizou. Apesar da medicação,
não houve evolução do estado do paciente. Chefe da equipe
do hospital, o doutor Williamson teve então a idéia de fotografar,
usando a técnica de Röntgen, a porção da coluna vertebral
correspondente à ferida. O clichê revelou a presença de um
objeto estranho nas cercanias da primeira vértebra lombar do marinheiro.
Convocada a cirurgia, descobriu-se a lâmina de uma faca incrustada nos corpos
vertebrais. O material foi extraído e o paciente apresenta sinais galopantes
de recuperação. Em Viena, o doutor Mosetig tirou semelhante fotografia
do pé de uma menina que padecia de uma deformação. A imagem
manifestou em detalhes a extensão interna do mal, auxiliando-o na cirurgia
subseqüente.
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| Repercussão: charge da revista 'Life' |
O Raio X, na verdade, permite uma miríade de aplicações,
que os médicos ao redor do globo estão rapidamente
experimentando com êxito sem precedentes. O professor Neusser,
ainda em Viena, fotografou uma pedra no fígado de um paciente,
e outra na bexiga de outro enfermo. O professor Czemark, de Graz,
fotografou um crânio vivo, sem carne ou cabelo, e já
começou a adaptação da chapa ao estudo do cérebro.
Em Paris, o doutor Lannelougue exibiu à academia de ciência
local fotografias de ossos indicando tuberculose hereditária,
que não fora revelada de outras formas. Em Berlim, não
apenas ossos fraturados estão sendo fotografados, mas também
fraturas já tratadas, para que seja possível ver com
exatidão os resultados de sua recuperação.
A capital alemã, por sinal, é um dos centros em que
o uso do Raio X tem se alastrado mais rapidamente. Já se
formou na cidade uma sociedade de quarenta médicos que buscam
realizar e analisar pesquisas tanto sobre o caráter do elemento
quanto sobre suas aplicações fisiológicas.
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| Como mágica: sapo e peixe fotografados |
Só o começo – Descobertos por Röntgen
em seu laboratório no Instituto de Física da Universidade
de Würsburgo, em novembro passado, os Raios X são feixes
invisíveis liberados quando uma alta corrente elétrica
é fornecida dentro do chamado tubo de Crookes – um tubo de
vidro esvaziado até ser produzida uma pressão muito
baixa em seu interior. O cientista chegou ao resultado quando estudava
o fenômeno da luminescência gerada por raios catódicos,
descobertos por Hertz e Lenard há cerca de uma década.
Ao usar um tubo de Crookes revestido com papel preto e um anteparo
de papel pintado com platino-cianeto de bário – que detectaria
a radiação emitida –, Röntgen descobriu que,
ao elevar a tensão aplicada aos eletrodos do tubo, o anteparo
ficava fluorescente. Semelhante efeito acontecia quando esse anteparo
era recuado em alguns centímetros – o que não poderia
ser provocado por raios catódicos. Ao posicionar alguns objetos
entre o tubo e o anteparo, o alemão constatou que eram transparentes
a essa radiação – em diferentes níveis, de
acordo com sua composição. Por não saber exatamente
qual a essência desses raios, resolveu denominá-los
Raios X. Aclamado como responsável pelo avanço, o
humilde Röntgen acredita que seus colegas deverão aprimorar
ainda mais a técnica. "Este foi apenas o começo",
avisou ele.
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