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EDIÇÃO EXTRA: OS TUMULTOS
VEJA, Abril de 1968
Assassinato de Luther King desencadeia violentos
distúrbios
raciais
em mais de 110 cidades americanas, com bombas,
saques
e incêndios. E a situação está longe de ser controlada
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| Washington em chamas: casas e lojas da capital americana foram incendiadas por negros no dia seguinte à morte de King |
Foi necessário apenas um único tiro de rifle, preciso
e letal, para fulminar uma das mais eloquentes vozes pela igualdade
de direitos que os Estados Unidos jamais ouviram. Entretanto, com
a mesma rapidez com que silenciou Martin Luther King, o balázio
detonou um estrepitoso barril de pólvora. Milhares e milhares
de negros não conseguiram segurar sua indignação,
que se faz ouvir por todo o país de maneira assustadoramente
impactante. Assim que a notícia do assassinato ganhou as
ondas do rádio e se espalhou de costa a costa, mais de 110
cidades americanas viram-se mergulhadas no caos de uma verdadeira
guerra civil racial. Nas ruas, tumultos, bombas, incêndios,
saques, confrontos armados - um rastro de violência e destruição
que levou à convocação da Guarda Nacional e
até mesmo do Exército em certos municípios.
Pior: a onda de brutalidade ainda parece longe de estar totalmente
controlada.
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| Cerco à Casa Branca: tropas federais protegem o prédio contra possíveis vândalos |
A situação mais grave foi registrada na capital do
país, Washington, que virou um campo de batalha ainda na
noite de 4 de abril. A explosão de violência começou
na esquina das ruas 14 e U Noroeste, no setor de Columbia Heights,
e rapidamente se espalhou pelos três maiores corredores da
cidade - além da rua 14, a rua 7 Noroeste e rua H Nordeste.
Várias lojas foram saqueadas e imóveis totalmente
destruídos. O prefeito Walter Washington declarou estado
de emergência no dia seguinte, determinando um toque de recolher
de treze horas, em vigor a partir das 15h30. Uma marcha liderada
pelo ativista negro Stokely Carmichael terminou em violento confronto
com a polícia. A força local de 3.000 homens não
era páreo para as multidões de até 20.000 manifestantes.
O presidente Lyndon Johnson, então, determinou a alocação
imediata de mais de 13.000 soldados das forças armadas e
1.750 membros da Guarda Nacional, além de 2.000 pára-quedistas,
que chegaram no sábado para ajudar as tropas federais. Até
o fechamento da presente edição já foram contabilizados
seis mortos, cerca de mil feridos, 6.000 prisões e 900 incêndios.
Em Baltimore, a situação é igualmente alarmante.
Pela primeira vez desde as greves de 1870, a cidade é patrulhada
por forças federais. São mais de 9.000 homens procurando
restabelecer a ordem que, desde quinta-feira, já não
existe mais nos setores leste e oeste, onde se concentra a maior
parte da população negra. O governador do estado de
Maryland, Spiro Agnew, decretou toque de recolher, convocou a Guarda
Nacional e proibiu a venda de bebidas alcoólicas. As determinações,
porém, estão sendo ignoradas pelos arruaceiros, que
tumultuam as ruas dia e noite, saqueando comércios e residências.
Até mesmo alguns estabelecimentos de negros - que estão
se identificando com placas com a inscrição soul
brother, "irmão de alma", para evitar ataques
- vêm sendo alvo de violações. A prefeitura
calcula que pelo menos 600 lojas foram saqueadas. Ônibus escolares
estão sendo usados para o transporte de presos - o número
de capturas é grande demais. Há 1.700 vagas nas cadeias
da cidade, mas 2.200 pessoas, entre saqueadores e pessoas que ignoraram
o toque de recolher, já foram detidas.
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| Prejuízo e tensão: loja de bebidas na rua 14 de Washington foi destruída por jovens |
Apelo no gueto - De Chicago e Detroit chegam relatos de
selvagerias semelhantes, mas os habitantes de pelo menos duas grandes
cidades dos Estados Unidos, Boston e Indianápolis, preferiram
a paz e a introspecção ao ódio e à baderna.
Ao menos até agora, ambas passaram incólumes aos tumultos.
Em Indianápolis, parece ter surtido efeito o emocionado apelo
do senador Robert F. Kennedy, que desobedeceu as recomendações
de seus assessores e da polícia e mesmo o pedido de sua esposa
Ethel para discursar, na noite do assassinato de King, diante de
uma plateia negra, em um gueto da cidade. Kennedy se responsabilizou
por sua segurança e, de um palco improvisado na caçamba
de uma camioneta, reverenciou o legado do líder ativista
e conclamou a nação a se unir pela não-violência
- apesar de todo o sentimento de raiva e desconfiança que,
admitiu ele, muitos negros deveriam estar sentindo. Para isso, o
senador usou seu próprio exemplo, num dos raros momentos
em que mencionou em público a morte do irmão, o presidente
John Kennedy.
Já em Boston, uma das cidades americanas em que a questão
racial é mais acirrada, muitos estão creditando a
relativa tranquilidade, ironicamente, ao inflamável "Senhor
Dinamite" - o mundialmente famoso cantor James Brown. Na verdade,
na noite do assassinato, ocorreram confrontos entre civis e policiais
em Roxbury. Para o dia seguinte, as autoridades já se preparavam
para mais altercações - o que levou o prefeito Kevin
White a cogitar cancelar o show que o músico faria no ginásio
Boston Garden. Entretanto, assessores políticos e líderes
da comunidade negra aconselharam a prefeitura a permitir a realização
do espetáculo - e, mais ainda, transmiti-lo ao vivo pela
televisão. James Brown não apenas consentiu como encorajou
seus fãs a ficarem em casa para ver a apresentação.
Dito e feito. Aquela noite foi pacífica em Boston: os únicos
estrondos foram provocados pelo vozeirão indomável
do astro nascido na Carolina do Sul. Desde então, não
foram registrados distúrbios significativos na cidade.
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