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EDIÇÃO EXTRA: A HISTÓRIA
VEJA, Abril de 1968
Desde a chegada dos pioneiros africanos,
em 1619,
os
negros da América enfrentam uma contenda laboriosa em
busca
de direitos iguais, passando pela escravidão e pela segregação
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| Mercado de escravos na capital: Lincoln via o comércio de negros de seu gabinete no Capitólio enquanto ainda era congressista |
Agora sem uma de suas figuras mais atuantes, o movimento negro
nos Estados Unidos seguirá sua dolorosa cruzada para estreitar
a fenda racial que se abriu paulatinamente ao longo de mais de 300
anos de História, desde que os primeiros africanos chegaram
aos Estados Unidos, em 1619. O Ato dos Direitos Civis, aprovado
em 1964, atendeu a muitas das reivindicações das minorias
americanas. É evidente, porém, que mais de três
séculos de discriminação não poderiam
ser reparados por um único documento. Por isso, os esforços
pela alteração não apenas das leis, como também
da mentalidade e da cultura da América, precisarão
ser mantidos por uma nova geração de líderes,
de maneira que oportunidades iguais se apresentem tanto a negros
como a brancos.
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| Brancos na frente, negros no fundo: ônibus segregado em Atlanta, em abril de 1956 |
Em 1619, os pioneiros africanos desembarcaram na Virgínia
como servos por contrato - status semelhante ao dos trabalhadores
ingleses, que também empenharam anos de trabalho para cobrir
os custos da passagem à América. Pouco tempo depois,
entretanto, a escravidão, ainda que não regulamentada,
já se verificava em muitos estados do país. A cultura
do tabaco no Sul dos EUA se alimentou do tráfico negreiro
para compor sua mão-de-obra por décadas a fio; como
resultado, o censo americano de 1860 registrava uma população
de 4 milhões de escravos nos quinze estados em que a escravidão
era legal. Nesses estados, a população total era de
12 milhões de pessoas. Cerca de 500.000 negros viviam livres
no país naquele tempo.
As vozes abolicionistas, que timidamente apareceram nos EUA no
século XVIII, ganharam força com a eleição
à presidência de Abraham Lincoln, opositor declarado
da escravidão, em 1860. Convencidos de que seu modo de vida
estava ameaçado, os estados do Sul se separaram da União
e detonaram a Guerra Civil Americana. Em 1863, durante o conflito,
Lincoln assinou a Proclamação da Emancipação,
libertando os escravos dos estados confederados e proibindo a escravidão
em todo o país. Mas era apenas o começo da jornada.
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| Medo nas ruas: Ku Klux Klan no Alabama |
Segregação institucionalizada - No fim do
século XIX, os estados do Sul, afetados economicamente com
o fim da escravidão, promulgaram as chamadas leis Jim Crow,
uma série de determinações para legitimar a
discriminação racial e dificultar o acesso dos negros
ao voto. Legislações semelhantes apareceram por todo
o país, e a segregação passou a ser uma realidade
nos Estados Unidos. Prédios e transporte públicos,
escolas, restaurantes, cinemas e até cadeias tinham áreas
separadas para brancos e negros - a dos negros, via de regra, em
estados deploráveis. Casamentos entre brancos e negros ou
seu descendentes eram proibidos em diversos estados, para evitar
a miscigenação. Na Carolina do Norte, nem mesmo os
livros da biblioteca poderiam ser consultados por negros e brancos
- se o primeiro a retirá-lo fosse um branco, apenas os brancos
teriam acesso ao volume.
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| Atleta pioneiro: Jackie Robinson em 1947 |
Entre os anos de 1916 e 1930, uma onda de migração
negra do sul para o norte, meio-oeste e oeste do país - regiões
onde a tolerância e as oportunidades eram maiores - deu início
ao movimento pela igualdade de direitos. Entretanto, apesar de alguns
pioneiros terem ultrapassado a barreira racial (como o atleta Jackie
Robinson, craque do beisebol, que em 1947 tornou-se o primeiro jogador negro nas ligas
maiores da modalidade preferida dos americanos, colocando um ponto final na segregação
que durou 60 anos), apenas a partir da década passada é
que os resultados coletivos começaram a aparecer. O boicote
de Montgomery e a marcha em Washington, ambos marcados pela não-violência
e pela tentativa de integração racial pregada por
Martin Luther King, tiveram grande repercussão - e, mais
importante ainda, resultados práticos. Contudo, alguns líderes
e grupos, notadamente Malcolm X (1925-1965) e o recém-formado
Black Power, advogam pela ruptura total entre a América negra
e a branca, utilizando-se da violência se for preciso. A grande
incógnita é o caminho que será tomado pelos
herdeiros de King - se a rota da não-violência trilhada
pelo reverendo ou uma estrada muito mais sinuosa, manchada de sangue.
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