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EDIÇÃO EXTRA: OS DISCURSOS
VEJA, Abril de 1968
O sonho da liberdade, o topo da montanha,
a terra prometida:
nos emocionantes discursos de Martin Luther King,
as imagens
que inspiraram multidões a seguir o caminho do reverendo
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| Transe coletivo: diante do Memorial Lincoln, em 28 de agosto de 1963, o pastor faz seu principal discurso, 'Eu Tenho Um Sonho' |
A coragem inabalável, a obsessão pela luta pacífica
e o gosto pelo diálogo franco não são as únicas
marcas da extraordinária trajetória de Martin Luther
King. Sua retórica notável, capaz de mobilizar multidões
emocionadas, foi o elemento-chave para divulgar a causa dos direitos
civis nos Estados Unidos. O dom de cativar e inspirar as platéias
- revelado e aperfeiçoado nos púlpitos dos templos
batistas do sul do país - transformou um movimento político-social
numa jornada de elevação espiritual para milhões
de negros americanos. A seguir, trechos selecionados de alguns dos
discursos mais famosos do pastor assassinado em Memphis:
***
"Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para
a Geórgia, voltem para a Louisiana, voltem para as favelas
e guetos de nossas cidades do norte sabendo que, de alguma forma,
esta situação pode e vai ser mudada. Não nos
arrastemos pelo vale do desespero. Digo hoje a vocês, meus
amigos, que apesar das dificuldades e frustrações
do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente
enraizado no sonho americano. Eu tenho um sonho de que um dia esta
nação vai se levantar e viver o verdadeiro significado
de sua crença: 'Consideramos essas verdades auto-evidentes:
que todos os homens são criados iguais'. Eu tenho um sonho
de que um dia, nas montanhas da Geórgia, os filhos de antigos
escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes
de sentarem-se juntos à mesa da fraternidade. Eu tenho um
sonho de que meus quatro filhos um dia viverão numa nação
onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas
sim pelo conteúdo de seu caráter (...). Quando permitirmos
que a liberdade ecoe, quando permitirmos que ela ecoe em cada vila
e cada aldeia, em cada estado e cada cidade, seremos capazes de
avançar rumo ao dia em que todos os filhos de Deus, negros
e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão
dar as mãos e cantar as palavras da velha cantiga negra,
'Enfim livres! Enfim livres! Graças a Deus Todo-Poderoso,
enfim estamos livres!'."
(Eu Tenho Um Sonho, Washington, 28 de agosto de 1963)
"Que despertemos nesta noite com uma prontidão ainda
maior. Ergamos-nos com uma determinação ainda maior.
E que ataquemos de frente estes dias poderosos, estes dias marcados
pelo desafio de transformar a América no que ela deve ser.
Temos a oportunidade de fazer da América uma nação
melhor. E quero agradecer a Deus, mais uma vez, por permitir que
eu esteja aqui com vocês (...). Bem, eu não sei o que
virá agora. Teremos dias difíceis pela frente. Mas
isso não importa para mim agora porque eu subi ao topo da
montanha. Não me importo mais. Como qualquer pessoa, eu gostaria
de ter uma vida longa. A longevidade é boa. Mas não
estou mais preocupado com isso agora. Quero apenas cumprir a vontade
de Deus. E Ele permitiu que eu subisse a montanha. E lá de
cima eu enxerguei. Eu enxerguei a Terra Prometida. É provável
que eu não entre lá com vocês. Mas quero que
vocês saibam esta noite que nós, como um povo, chegaremos
à Terra Prometida. Por isso estou feliz esta noite. Nada
me preocupa. Não temo nenhum homem! Meus olhos viram a glória
da vinda do Senhor!"
(O Sermão do Topo da Montanha, Memphis, 3 de abril
de 1968)
"Há um grande dia adiante. O futuro está do
nosso lado. Por enquanto estamos no deserto. Mas a Terra Prometida
está adiante. Se não tivesse havido um Gandhi na Índia,
com todos os seus nobres seguidores, a Índia jamais seria
livre. Não fosse Nkrumah e seus seguidores em Gana, Gana
ainda seria uma colônia britânica. Não fossem
os abolicionistas nos EUA, tanto os negros como os brancos, estaríamos
ainda hoje nas masmorras da escravidão. Em todos os períodos,
sempre existem aquelas pessoas que não se importam em ter
suas cabeças cortadas, que não se importam em ser
perseguidas, discriminadas e agredidas, porque elas sabem que a
liberdade jamais é entregue de graça; ela só
vem através da persistente e contínua agitação
por parte daqueles que estão presos no sistema. Isso nos
lembra do fato de que uma nação ou povo pode se desvencilhar
da opressão sem violência (...). Deus, nosso gracioso
Pai, ajude-nos a enxergar as visões desta nova nação.
Ajude-nos a segui-lo e a seguir todas as suas obras neste mundo.
De alguma forma descobriremos que fomos feitos para vivermos juntos,
como irmãos. E isso virá ainda nesta geração:
o dia em que todos os homens reconhecerem a paternidade de Deus
e a irmandade dos homens."
(O Nascimento de Uma Nova Nação, Montgomery,
7 de abril de 1957)
"Aceito o Prêmio Nobel da Paz num momento em que 22
milhões de negros nos Estados Unidos estão envolvidos
numa batalha criativa para encerrar a longa noite da injustiça
racial. Aceito este prêmio em nome de um movimento de direitos
civis que está avançando com determinação
e um majestoso desprezo pelos riscos e perigos de estabelecer um
reino de liberdade e um sistema de justiça. Estou ciente
de que uma pobreza debilitante e asfixiante aflige meu povo e o
acorrenta ao degrau mais baixo da escada econômica. Portanto,
devo perguntar por que este prêmio está sendo concedido
a um movimento que é comprometido com uma luta incessante;
a um movimento que não conquistou a própria paz e
fraternidade que é a essência do Prêmio Nobel.
Depois de pensar a respeito, concluí que este prêmio
que recebo em nome desse movimento é um reconhecimento profundo
de que a não-violência é a resposta à
questão moral e política crucial de nosso tempo: a
necessidade do homem superar a opressão e a violência
sem recorrer à violência e à opressão
(...). Ainda creio que superaremos tudo isso. Essa fé nos
dá a coragem de enfrentar as incertezas do futuro. Dá
forças aos nossos pés cansados enquanto continuamos
nossa marcha rumo à cidade da liberdade. Quando nossos dias
tornarem-se lúgubres e cobertos por nuvens e nossas noites
tornarem-se mais escuras que mil meias-noites, saberemos que estamos
vivendo no tumulto criativo de uma civilização genuína
lutando para nascer."
(Cerimônia de entrega do Nobel da Paz, Oslo, 10 de dezembro
de 1964)
"Infelizmente, a História transforma algumas pessoas
em oprimidas e outras em opressoras. E há três formas
pelas quais os indivíduos oprimidos podem lidar com a opressão.
Uma delas é se levantar contra os opressores com violência
física e ódio corrosivo. Mas este não é
o caminho. Pois o perigo e a fragilidade deste método são
sua futilidade. A violência cria mais problemas sociais do
que soluções. Como disse várias vezes, se o
negro sucumbir à tentação de usar a violência
em sua batalha, as gerações que ainda não nasceram
receberão uma longa e desoladora noite de amargura, e nosso
principal legado ao futuro será um eterno reinado de caos
sem sentido. A violência não é o caminho (...).
Então nesta manhã, enquanto olho em seus olhos e nos
olhos de todos os meus irmãos do Alabama e de toda a América
e do mundo, digo a vocês: 'Eu te amo. Prefiro morrer a odiá-lo'.
Sou tolo o bastante para crer que, através do poder deste
amor, até os homens mais inflexíveis serão
transformados. E aí estaremos no reino de Deus. Poderemos
nos matricular na universidade da vida eterna, pois teremos o poder
de amar nossos inimigos, abençoar as pessoas que praguejaram
contra nós, até decidirmos ser bons com as pessoas
que nos odiavam, até rezarmos pelas pessoas que nos usaram."
(Amar seus Inimigos, Montgomery, 17 de novembro de 1957)
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