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EDIÇÃO EXTRA: A CAUSA
VEJA, Abril de 1968
Boicote ao transporte público segregado de
uma cidade do
Alabama foi o ponto de partida para solidificar a liderança de
Martin Luther King na causa dos direitos civis nos EUA
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| Saboreando a vitória: o pastor Abernathy (à esq.) e King (no segundo banco) num ônibus após o fim da segregação no transporte |
Aos olhos e ouvidos de todo o mundo, a cena de um oceano de pessoas
diante do Memorial Lincoln, na marcha de Washington em 1963, e os
vibrantes discursos pela harmonia social e econômica nos Estados
Unidos são as mais belas lembranças do que a soul
force ("força da alma") de Martin Luther King era
capaz de realizar. O maior feito de sua trajetória, contudo,
é menos simbólico e muito mais prático. Ao
lutar até o fim pelo direito de uma mulher negra se manter
sentada em um ônibus de uma pequena cidade no Alabama, sem
precisar entregar seu lugar a um passageiro branco, o até
então desconhecido pastor batista desafiou o estado e conseguiu
uma vitória impensável em um país ainda rachado
pela segregação. Foi o primeiro passo de uma histórica
jornada pela liberdade, que fez de King o grande líder da
comunidade negra e um ícone da batalha ideológica
pelos direitos civis ao redor do planeta.
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| Vitória no tribunal: com a mulher, Coretta, King comemora suspensão de condenação |
Em 1º de dezembro de 1955, a costureira Rosa Parks recusou-se
a ceder seu assento (na seção reservada aos negros)
a um homem branco em um ônibus municipal de Montgomery, no
Alabama, conforme determinavam as leis segregacionistas do estado.
Informada pelo motorista que acabaria presa caso não repensasse
sua decisão, a mulher de 42 anos preferiu ser levada para
a cadeia - e, posteriormente, a julgamento. Sua prisão silenciosa
fez o Conselho Político Feminino da cidade propor aos negros
da cidade um dia de boicote aos ônibus municipais, na exata
data em que Rosa Parks deveria comparecer ao tribunal, 5 de novembro.
Sua esdrúxula condenação pelo júri levou
à formação imediata da Montgomery Improvement
Association (MIA), para coordenar as ações seguintes,
incluindo a extensão do boicote e o questionamento legal
da constitucionalidade da lei de segregação no transporte
público. Para não melindrar nenhum ativista local,
a presidência da entidade foi entregue a Martin Luther King,
que desembarcara havia pouco na cidade como pastor da Igreja Batista
da Avenida Dexter. O líder viu a missão como uma oportunidade
de melhorar as relações entre as raças e, por
tabela, a situação de Montgomery.
Naquela mesma tarde, King discursou para uma multidão reunida
diante da Igreja Batista da Rua Holt, já revelando o poder
retórico invejável que o faria célebre. "Quero
assegurar a todos que trabalharemos com vontade e determinação
para fazer prevalecer a justiça nos ônibus da cidade.
Não estamos errados. Se estivermos errados, a Suprema Corte
desta nação está errada. Se estivermos errados,
a Constituição dos Estados Unidos está errada.
Se estivermos errados, Deus Todo-Poderoso está errado."
Já nesse primeiro encontro, o pastor pediu um compromisso
pela não-violência no protesto, traço que marcaria
todas as outras manifestações, assim como os valores
da ética cristã propagados por King. Poucos dias depois,
a MIA tornou pública suas reivindicações: ocupação
dos assentos de acordo com a ordem de chegada do passageiro, motoristas
negros em rotas predominantemente negras e tratamento cortês
pelos funcionários.
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| O estopim: Rosa Parks é detida em 1956 |
Conspiração e multa - A prefeitura de Montgomery
não atendeu aos apelos da entidade, que decidiu continuar
o boicote. Motoristas de táxi negros organizaram-se para
ajudar a comunidade, e foram penalizados pela prefeitura; com isso,
organizou-se uma extensa rede de caronas que mobilizou mais de 300
carros. No início de 1956, bombas foram atiradas contra as
casas de Martin Luther King e E. D. Nixon, outro líder negro
local, sem deixar vítimas. Em fevereiro, invocando uma lei
de 1921, que proibia a conspiração contra negócios
lícitos, a prefeitura indiciou mais de 80 líderes
e participantes do boicote. King foi condenado e teve de pagar uma
multa de 500 dólares para evitar um ano de encarceramento.
Apesar disso, o boicote continuou, e atraiu a atenção
nacional. Pacifistas famosos como Bayard Rustin e Glenn Smiley passaram
a aproximar-se de King e apoiar o movimento.
Em 5 de junho de 1956, uma corte federal enfim determinou que a
segregação nos ônibus era inconstitucional,
decisão ratificada em 13 de novembro pela Suprema Corte.
Houve intensa comemoração entre a comunidade negra
da cidade, mas a MIA decidiu manter o boicote e o sistema de caronas
até que a dessegregação realmente fosse implantada
no transporte de Montgomery. Um mês depois, em 20 de dezembro,
Martin Luther King anunciou o fim do movimento; no dia seguinte,
ele, E. D. Nixon, Glenn Smiley e o pastor Ralph Abernathy embarcaram
em um ônibus já integrado. No total, foram 381 dias
de boicote, com o apoio de mais de 42.000 negros. Rosa Parks, que
no meio do processo perdeu seu emprego numa loja de departamentos,
tornou-se alvo de hostilidades de segregacionistas e mudou-se para
Detroit em 1957, onde segue envolvida com a causa. Atualmente empregada
no gabinete do deputado John Conyers, Rosa, conhecida como a "mãe
do movimento pelos direitos civis", perde um de seus principais
parceiros, que seguiu pelo resto da vida o lema dos manifestantes:
"Melhor andar com dignidade que rodar na humilhação."
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