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EDIÇÃO EXTRA: BIOGRAFIA
VEJA, Abril de 1968
Formação cristã, filosofia europeia e ensinamentos
de
Gandhi fizeram de King uma bandeira da transformação dos EUA
e um
líder universal, para quem não havia causa pequena demais
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| Os sermões do reverendo: diante da congregação em Montgomery, em 1965, o líder dos direitos civis mobiliza os seguidores |
Exatamente dois meses antes de sua morte, no dia 4 de fevereiro,
no púlpito da Igreja Batista Ebenezer, em Atlanta, Martin
Luther King Jr. fez um sermão revelando o que gostaria que
fosse dito a seu respeito no próprio funeral. Nele, o pastor
pediu que não se mencionasse seu Prêmio Nobel da Paz,
recebido em 1964, ou nenhuma das outras 300 ou 400 honrarias que
recebeu ao longo de sua trajetória. O líder negro
ainda especificou para que não fosse citado em que escola
ou faculdade ele se formou. King queria apenas que se dissesse que
ele tentou sempre estar certo nas questões da guerra. Que
buscou alimentar os famintos, vestir os pobres, visitar os presos,
amar e servir a humanidade. Agora que seu funeral é uma realidade
- estava marcado para a segunda-feira, dia 8, com cobertura nacional
de televisão nos Estados Unidos -, seu desejo será
respeitado, e uma gravação do sermão será
tocada como elogio fúnebre.
Em busca desses objetivos aparentemente simples, o "doutor"
precisou levar uma vida complexa, que lhe rendeu muitos milhões
de admiradores e uma tropa proporcional de inimigos. Nascido em
15 de janeiro de 1929 em uma família de classe média
da Geórgia, filho de um pastor batista ativo na questão
dos direitos civis, King pensou em seguir carreira no Direito, buscando
uma base intelectual a fim de compreender a filosofia social. Acabou
sendo atraído para a vida religiosa. Aluno destacado no seminário
na Pensilvânia, descobriu os trabalhos de Hegel e Kant, mas
especialmente a doutrina de não-violência de Gandhi,
a satyagraha, que acabaria sendo seu norte por toda a vida. "De
minha formação, eu obtive meus ideais cristãos.
Com Gandhi, aprendi minha técnica operacional", costumava
dizer. Em seguida, Luther King partiu para a Universidade de Boston,
onde desenvolveria seu doutorado e se casaria com Coretta Scott,
uma jovem soprano. Em 1954, foi nomeado pastor da Igreja Batista
da Avenida Dexter, em Montgomery, na Alabama. Lá, sua carreira
como campeão dos direitos civis teria um início arrebatador.
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| Marcha em Selma, no Alabama: ativistas unidos pela inscrição de eleitores negros |
Marcha e sonho - No ano de 1955, a recusa da costureira
negra Rosa Parks em ceder seu assento no ônibus da cidade
a um passageiro branco deu origem a um boicote liderado por King
- que durou mais de 300 dias, mas finalmente obteve, por uma determinação
da Suprema Corte, a dessegregação nos ônibus
de Montgomery. Fortalecido, o pastor fundou a Conferência
Sulista de Liderança Cristã (SCLC, na sigla em inglês),
e passou a ser citado como referência na busca pela igualdade
racial. O fracasso em tentar dessegregar as instalações
públicas de Albany, na Geórgia, em 1961 - ocasião
em que acabou preso -, foi compensado com a marcha de 1963 por Birmingham.
Em uma das regiões mais segregacionistas do país,
o líder comandou um protesto não-violento que acabou
sufocado com selvageria pelas forças locais do comissário
de segurança pública Theophilus "O Touro"
Connor, que prenderam 3.300 negros, incluindo King.
O triste espetáculo das autoridades foi mostrado em todo
o planeta e atraiu uma legião de adeptos à causa dos
direitos civis. O ano de 1963 ainda guardou outro momento apoteótico
para King: a Marcha pelo Trabalho e pela Liberdade, em Washington,
que reuniu mais de 250.000 adeptos em frente ao Memorial Lincoln
- ocasião na qual o líder proferiu seu mais famoso
discurso, "Eu Tenho Um Sonho". No ano seguinte, foi aprovado
o Ato dos Direitos Civis, enviado pelo presidente John Kennedy ao
Congresso ainda em 1963, banindo a segregação e discriminação
racial em escolas e locais públicos. Seu trabalho foi reconhecido
em 1964 com o Prêmio Nobel da Paz - aos 35 anos, King tornou-se
o mais jovem recipiente do galardão.
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| O boicote de 1956: com Ralph Abernathy, King é multado na delegacia de Montgomery |
Aos poucos, o líder foi ampliando seus objetivos. Ao mesmo
tempo, ganhava mais inimigos, tanto entre brancos segregacionistas
como entre negros que acreditavam que a estratégia de não-violência
não trazia resultados práticos ao movimento. Recebeu
inúmeras ameaças, teve sua casa apedrejada, foi esfaqueado
por uma negra com problemas mentais. Posicionou-se contra a guerra
do Vietnã e começou a defender a segurança
econômica e redução da pobreza. Sua última
empreitada, a "Campanha das Pessoas Pobres", seria inaugurada
no final do mês, de forma espetacular, com uma nova marcha
em Washington. Com o ponto final na vida de Martin Luther King,
a exclamação que sempre caracterizou seus discursos
dá lugar a uma grande interrogação. O que se
sabe é que, sem o pastor, o movimento dos direitos civis
e o próprio país não serão mais os mesmos.
Ícone do esboço de uma nova América, mais aberta
a uma multidão de minorias que hoje ocupa a margem da sociedade,
King não estará vivo para presenciar o resultado de
sua obra. O legado do reverendo, no entanto, certamente será
lembrado pelos americanos.
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