Seções VEJA, maio
de 1948 
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| Churchill: o protagonista da história |
Memórias
da Segunda Guerra Mundial Volume 1, 1919-1941, Winston Churchill
- Eis a história por quem a viveu: num texto elegante, conciso e cativante,
o ex-premiê da Grã-Bretanha revela os bastidores do maior conflito
militar de todos os tempos. Neste volume inicial (Churchill planeja lançar
mais cinco), o capitão do mundo livre na briga contra Adolf Hitler conta
os antecedentes da guerra e o começo das hostilidades. Como o foco está
na descrição do contexto histórico que levou ao confronto,
Churchill intitulou o volume “A Aproximação da Tempestade”.
A chegada da obra às livrarias britânicas, que está prometida
para este mês de junho, é acompanhada de polêmica - afinal,
Churchill não é um acadêmico nem um escritor profissional,
mas sim um político nato. Como é o líder da atual oposição
ao governo britânico, foi acusado de escrever a obra apenas para se promover
- e, se possível, retomar a cadeira de primeiro-ministro num futuro próximo.
Bobagem: Churchill já reunia material para o trabalho desde 1939, quando
a guerra teve início. Naquele tempo, ele já dizia, com o humor fino
e inteligente de sempre: “Que os historiadores julguem esses acontecimentos.
Eu serei um deles, é claro.”
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| Greene: dilemas morais e políticos |
O Cerne da Questão,
Graham Greene - O escritor britânico de 43 anos trabalhou para
o serviço de inteligência de seu país durante a II Guerra
Mundial. Suas experiências numa missão em Freetown, Serra Leoa, inspiraram
a trama deste novo romance. O protagonista é Henry Scobie, um inspetor
policial que vive numa colônia britânica na costa oeste da África.
Seus problemas com a mulher, a católica devota Louise, e com os britânicos
que habitam a cidade, todos protestantes, formam o cenário para o enredo.
Poeta frustrado e jornalista medíocre, Greene encontrou seu chamado na
prosa, tanto em contos como em romances. O autor também escreveu peças
e roteiros, além de críticas de arte e ensaios de viagem. O grande
mérito de seu trabalho é dissecar com precisão os dilemas
morais e as disputas políticas do mundo contemporâneo.
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| John Steinbeck: no coração da besta |
Diário Russo,
John Steinbeck - Em março do ano passado, o autor americano, ganhador
do Pulitzer por As Vinhas da Ira (1937), tomou um porre num bar de Manhattan
ao lado do célebre fotógrafo de guerra Robert Capa. Enquanto discutiam
o noticiário da imprensa americana, carregado de notícias contrárias
aos soviéticos, decidiram viajar ao coração da besta - queriam
passar um tempo na Rússia para descobrir como é, na verdade, a vida
do soviético comum. Este livro é o resultado da aventura da dupla
no mundo vermelho. Para desespero dos anticomunistas mais ferrenhos, Steinbeck
e Capa não conseguiram colher histórias escabrosas ou revelações
chocantes. Concluíram que os habitantes da esfera de influência soviética
não são os militantes fanáticos e robotizados retratados
nos jornais e revistas americanas. O relato da vida pacata - mas inegavelmente
dura - sob o domínio de Moscou é interessantíssimo (e ganha
ainda mais força acompanhado das espetaculares fotografias de Capa).

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| A belíssima Vivien: de Scarlett a Ana |
Ana Karênina (Anna Karenina), de
Julien Duvivier - Uma adaptação britânica do romance
clássico do escritor russo Leon Tolstoi (1828-1910). A personagem-título
foi entregue a Vivien Leigh, a Scarlett O’Hara de ...E o Vento Levou
(1939) - e atual mulher do ator e diretor Laurence Olivier. O casal viajará
à Austrália e à Nova Zelândia no próximo mês
para levantar fundos para o teatro Old Vic, atualmente dirigido por Olivier. Vivien,
de 34 anos, aproveitará a turnê para promover esse novo trabalho
- que não chegou a empolgar o público britânico, mas apresenta
belíssimas cenas da estrela contracenando com Ralph Richardson, que interpreta
o militar czarista Alexei Karenin, e Kieron Moore, que dá vida ao jovem
conde Alexei Kirillovich Vronsky, amante de Anna.
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| Tracy e Katharine: romance e política |
Sua Esposa e o Mundo
(State of The Union), de Frank Capra - O novo drama político estrelado
por Spencer Tracy e Katharine Hepburn é o primeiro trabalho de Frank Capra
para os estúdios MGM. O roteiro é baseado numa consagrada peça
de Russel Crouse e Howard Lindsay - a dupla ganhou o prêmio Pulitzer de
1946 pela obra. Tracy vive Grant Matthews, um magnata que decide concorrer à
indicação do Partido Republicano para a Casa Branca. Antes de dar
o pontapé inicial na campanha, porém, ele reata o casamento com
a esposa Mary, interpretada por Hepburn. Mary aceita acompanhar o marido na corrida
eleitoral mesmo sabendo que ele mantém um caso com a jornalista Kay (Angela
Lansbury). Mas a mulher começa a questionar essa decisão quando
percebe que o marido negligencia seus valores e crenças para conseguir
mais votos.
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| O cômico Oscarito: pague um, leve dois |
É Com Esse
Que Eu Vou, de José Carlos Burle - A direção descuidada
de Burle, que às vezes exagera no escracho e perde a mão na condução
da fita, não impede que essa nova chanchada da Atlântida, estrelada
por Oscarito, seja uma boa diversão. O cômico trabalha em dobro:
encarna os gêmeos Oscar e Osmar. O primeiro é um tipo vagabundo que
gira pelo centro da cidade atrás de uma oportunidade de ouro; o outro,
o presidente de um grande banco, com futuro róseo pela frente. Quando Osmar
perde uma reunião com os acionistas do banco em função de
um encontro com a amante Fru-Fru (Heloísa Helena), Oscar finge ser o irmão.
Destaque para Grande Otelo, que interpreta o hilário Lamparina. A comédia
mostra que as engrenagens da indústria cinematográfica nacional
enfim começam a rodar - o público tem comparecido às sessões
e aprovado o resultado.

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| Nat King Cole: vozeirão de veludo |
Nature Boy, Nat
King Cole - O timbre sutil e elegante do cantor do Alabama levou essa
gravação ao topo das paradas americanas nas últimas semanas.
Cole, de 29 anos, pianista competente e bom compositor, começou sua carreira
como jazzista, mas se reinventou como intérprete de canções
populares em 1946, com The Christmas Song. O estrondoso sucesso de Nature
Boy revelou uma história surpreendente. A canção foi
escrita por Eden Ahbez, um excêntrico artista de Los Angeles, que ofereceu
a música ao empresário de Nat King Cole nos bastidores do Teatro
Orpheum. O cantor testou a composição em seus shows e notou que
ela caíra no gosto dos fãs. Antes de gravá-la, contudo, Cole
teve de obter uma assinatura do misterioso Ahbez - que foi encontrado morando
ao relento, sob o famoso letreiro cartão-postal de Hollywood. Desde então,
o compositor já apareceu nas revistas Life, Time e Newsweek,
as maiores dos Estados Unidos. Sarah Vaughan já lançou sua própria
versão da música, e Frank Sinatra pode ser o próximo.
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| A loira Doris: vai emplacar no cinema? |
Love Somebody,
Doris Day e Buddy Clark - A canção que encerrou o recente
reinado de Nat King Cole na lista de mais ouvidas dos Estados Unidos foi gravada
em 1947, mas só estourou neste ano. Composta por Joan Whitney e Alex Kramer,
o simpático número ganhou popularidade na voz da cantora Doris Day.
A promissora estrela loira de 24 anos dividiu o estúdio de gravação
com o já consagrado Buddy Clark, de 38, que já emplacou os hits
Linda e How Are Things in Glocca Mora, do musical O Caminho
do Arco-Íris. A deslumbrante Doris tem talento musical de sobra para sustentar
uma brilhante carreira de cantora, mas decidiu se arriscar no cinema: em julho,
aparecerá pela primeira vez na tela grande, na comédia Romance
em Alto-Mar - cujo enredo, aliás, se passa num cruzeiro a caminho
do Rio de Janeiro.
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| Caymmi com Carmen: longe da Bahia |
Saudades de Itapoã,
Dorival Caymmi - A canção que puxou o lançamento
foi A Lenda do Abaeté, mas a melhor parte do novo disco de Caymmi
está no lado B. Aos 34 anos, o cantor, compositor e instrumentista baiano
está completando uma década de residência no Rio de Janeiro,
onde vive desde 1938. Ele resolveu desabafar a falta que lhe faz sua terra natal
nesta inspirada canção popular. Autor de O Que É Que
a Baiana Tem, consagrada na voz de Carmen Miranda, Caymmi ganhou projeção
como uma das boas atrações da Rádio Nacional. Nada mau para
um sujeito que trocou Salvador pelo Rio de Janeiro sem saber ao certo o que faria
da vida - estava em dúvida entre ser advogado ou jornalista. Incentivado
pelos colegas, decidiu arriscar a música (carreira que já tinha
tentado, sem lograr grande êxito, em Salvador). Saudades de Itapoã,
um samba-canção, mostra a voz de Dorival Caymmi ladeada por dois
violões - aliás, contra a vontade do músico, que preferia
gravar sem acompanhamento, lamentando sozinho a distância da Bahia.
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