Internacional VEJA, maio
de 1948
Primeiro carregamento patrocinado pelo
Plano Marshall chega à França. Conta do programa de auxílio aos europeus é
salgada: 5 bilhões de dólares. E Stalin quer dar o troco
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| O homem do cheque: o secretário Marshall
depois do primeiro discurso em defesa do plano, em Harvard,
no ano passado |

m nenhum
momento da história da marinha um navio cargueiro foi recebido com tanto
decoro ao atracar em seu destino. No último dia 10, o embaixador dos Estados
Unidos na França, Jefferson Caffery, deslocou-se de Paris até Bordeaux
especialmente para dar as boas-vindas à embarcação John
H. Quick, que chegava à Europa trazendo cerca de 9.000 toneladas de
trigo. Em um palco improvisado no próprio cais, o diplomata discursou sobre
a importância histórica do desembarque, arrancando aplausos dos marinheiros
e dos convidados. Embora um tanto exagerada, a pompa da solenidade tinha uma justificativa:
aquele era o primeiro carregamento a aportar no velho continente sob a bênção
financeira do Programa de Recuperação Européia. Depois de
meses e meses de discussões, o chamado Plano Marshall, visto como tábula
de salvação para os países europeus castigados pela guerra,
enfim saiu do papel.
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| Um cartaz do plano: 'todas as cores' |
Foi em junho do ano passado que o Secretário de Estado americano
George C. Marshall propôs pela primeira vez que as nações
européias criassem um plano conjunto para sua reconstrução
econômica – empreitada que teria total assistência financeira
dos Estados Unidos. E, em que pese o caráter emergencial
da situação, a espera pela promulgação
do projeto, aprovado pelo Congresso no último 2 de abril
e assinado pelo presidente Harry S. Truman no dia seguinte, até
que não foi das maiores. Afinal, se de um lado do Atlântico
os patrocinadores e os países europeus que se agarraram à
oportunidade batiam cabeça em inúmeras e intermináveis
reuniões – cada um, claro, mais preocupado com seu próprio
peixe –, do outro o governo americano suava para convencer o Congresso
da importância do empreendimento. Favoráveis a uma
postura isolacionista, muitos de seus parlamentares, especialmente
os republicanos, mostravam-se resistentes a idéia, além
de torcerem o nariz para o gasto massivo com os compadres europeus.
Divisão da bolada - A dolorosa é realmente
salgada. Pelos cálculos dos executivos do Comitê de
Cooperação Econômica Européia, responsável
pelos termos do acordo, os Estados Unidos precisarão entrar
com 17 bilhões de dólares ao longo de quatro anos
para que os auxiliados possam se reerguer apropriadamente. Por enquanto,
o Ato de Cooperação Econômica recém-aprovado
garante 5 bilhões de dólares para os próximos
18 meses, recursos que deverão ser utilizados para aquisição
de alimentos e bens de origem americana. Dezesseis países
(Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Grã-Bretanha,
Grécia, Holanda, Islândia, Irlanda, Itália,
Luxemburgo, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça
e Turquia) serão beneficiados com a bolada do Plano Marshall,
que, no papel, está fundado nos princípios de ajuda
mútua e divisão de recursos, visando não apenas
a reconstrução das nações como também
a reintegração da Alemanha à coletividade européia.
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| Berlim em ruínas: pacotão financeiro |
Para os Estados Unidos, entretanto, o programa desempenhará
também um papel crucial na geografia política do velho
continente – uma estratégia nem um pouco secreta. Ao lançar
mão desta empreitada de integração e estabilização
econômica, os americanos esperam conter o crescente avanço
da União Soviética no continente, uma escalada que,
com a tomada comunista na Checoslováquia, no início
de março, voltou a deixar em sobressalto os líderes
ocidentais. Josef Stalin contra-atacou no final do ano passado com
o anúncio do Plano Molotov, destinado aos países do
bloco oriental – o nome é emprestado do diplomata Vyacheslav
Molotov, que participou das primeiras reuniões do Comitê
de Cooperação Econômica Européia e abandonou
o barco ao perceber as intenções americanas. Até
agora, porém, o Molotov ainda não gerou grandes manchetes.
Em se tratando de Stalin, porém, elas podem explodir a qualquer
momento.
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