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PENDURA NO TIO SAM
Primeiro carregamento patrocinado pelo
Plano Marshall chega à França. Conta do
programa de auxílio aos europeus é salgada:
5 bilhões de dólares. E Stalin quer dar o troco
Em nenhum momento da história da marinha um navio cargueiro
foi recebido com tanto decoro ao atracar em seu destino. No último
dia 10, o embaixador dos Estados Unidos na França, Jefferson
Caffery, deslocou-se de Paris até Bordeaux especialmente
para dar as boas-vindas à embarcação John
H. Quick, que chegava à Europa trazendo cerca de 9.000
toneladas de trigo. Em um palco improvisado no próprio cais,
o diplomata discursou sobre a importância histórica
do desembarque, arrancando aplausos dos marinheiros e dos convidados.
Embora um tanto exagerada, a pompa da solenidade tinha uma justificativa:
aquele era o primeiro carregamento a aportar no velho continente
sob a bênção financeira do Programa de Recuperação
Européia. Depois de meses e meses de discussões, o
chamado Plano Marshall, visto como tábua de salvação
para os países europeus castigados pela guerra, enfim saiu
do papel.
Foi em junho do ano
passado que o Secretário de Estado americano George C. Marshall propôs
pela primeira vez que as nações européias criassem um plano
conjunto para sua reconstrução econômica – empreitada que
teria total assistência financeira dos Estados Unidos. E, em que pese o
caráter emergencial da situação, a espera pela promulgação
do projeto, aprovado pelo Congresso no último 2 de abril e assinado pelo
presidente Harry S. Truman no dia seguinte, até que não foi das
maiores. Afinal, se de um lado do Atlântico os patrocinadores e os países
europeus que se agarraram à oportunidade batiam cabeça em inúmeras
e intermináveis reuniões – cada um, claro, mais preocupado com seu
próprio peixe –, do outro o governo americano suava para convencer o Congresso
da importância do empreendimento. Favoráveis a uma postura isolacionista,
muitos de seus parlamentares, especialmente os republicanos, mostravam-se resistentes
a idéia, além de torcerem o nariz para o gasto massivo com os compadres
europeus. Divisão da bolada - A dolorosa é realmente
salgada. Pelos cálculos dos executivos do Comitê de Cooperação
Econômica Européia, responsável pelos termos do acordo, os
Estados Unidos precisarão entrar com 17 bilhões de dólares
ao longo de quatro anos para que os auxiliados possam se reerguer apropriadamente.
Por enquanto, o Ato de Cooperação Econômica recém-aprovado
garante 5 bilhões de dólares para os próximos 18 meses, recursos
que deverão ser utilizados para aquisição de alimentos e
bens de origem americana. Dezesseis países (Áustria, Bélgica,
Dinamarca, França, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Islândia,
Irlanda, Itália, Luxemburgo, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça
e Turquia) serão beneficiados com a bolada do Plano Marshall, que, no papel,
está fundado nos princípios de ajuda mútua e divisão
de recursos, visando não apenas a reconstrução das nações
como também a reintegração da Alemanha à coletividade
européia. Para os Estados Unidos, entretanto, o programa desempenhará
também um papel crucial na geografia política do velho continente
– uma estratégia nem um pouco secreta. Ao lançar mão desta
empreitada de integração e estabilização econômica,
os americanos esperam conter o crescente avanço da União Soviética
no continente, uma escalada que, com a tomada comunista na Checoslováquia,
no início de março, voltou a deixar em sobressalto os líderes
ocidentais. Josef Stalin contra-atacou no final do ano passado com o anúncio
do Plano Molotov, destinado aos países do bloco oriental – o nome é
emprestado do diplomata Vyacheslav Molotov, que participou das primeiras reuniões
do Comitê de Cooperação Econômica Européia e
abandonou o barco ao perceber as intenções americanas. Até
agora, porém, o Molotov ainda não gerou grandes manchetes. Em se
tratando de Stalin, porém, elas podem explodir a qualquer momento. |