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VEJA, maio de 1948
Morre no Rio o economista Roberto Simonsen, o incansável
porta-voz da indústria nacional. Ficam as lições do ousado
empreendedor - e o sonho de um Brasil mais moderno e próspero
Depois da Revolução, a trégua e a parceria: Simonsen (à esq.) ajudou Getúlio (na foto, durante visita a uma indústria têxtil)

 

a Revolução Constitucionalista de 1932, Roberto Cochrane Simonsen assumiu a espinhosa missão de transformar o parque industrial de São Paulo numa máquina de guerra, permitindo armar a população revoltosa para resistir às manobras do então presidente Getúlio Vargas. O movimento foi derrotado, e o industrial teve de amargar uma temporada forçada em Buenos Aires. Na volta do exílio, porém, Simonsen sentou-se à mesa com o mesmo Getúlio - desta vez como colaborador do governo. Ele queria ajudar a tirar do papel os ambiciosos projetos idealizados pelos paulistas para modernizar a indústria nacional - na avaliação dele, essa era a condição primordial para a construção de um Brasil mais próspero. O episódio ilustra bem a grande herança de Simonsen, que morreu no último dia 25, no Rio de Janeiro. Acima dos interesses individuais e das ambições próprias, ele enxergava o esboço de um país moderno, em sintonia com o compasso acelerado da sociedade contemporânea.

Produção rústica: fábrica nacional em 1917, com máquinas toscas e falta de preparo

Engenheiro, economista, professor e político, Roberto Simonsen foi vitimado por um infarto fulminante no Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras, onde, desde 1945, ocupava a cadeira 3, de Artur de Oliveira. Primeiro economista aceito pela academia, ele discursava na recepção ao primeiro-ministro da Bélgica, o economista Paul van Zeeland. Tinha 59 anos. Simonsen deixa a viúva Rachel Cardoso, com quem estava casado havia 37 anos, e quatro filhos - além de um robusto trabalho intelectual que se espalha por quase três dezenas de livros. O legado de Simonsen inclui ainda a criação do Centro das Indústrias de São Paulo (Ciesp), o Serviço Social da Indústria (Sesi), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e Escola Livre de Sociologia e Política. A fundação do Ciesp, em 1928, ao lado de José Ermírio de Moraes e Francisco Matarazzo, é o grande marco de sua jornada em defesa da indústria nacional. Até então, os empresários do setor eram representados dentro da Associação Comercial, onde suas reivindicações acabavam relegadas ao segundo plano.

Capital e tecnologia - Filho de aristocratas britânicos, estudante matriculado na Escola Politécnica aos 15 anos de idade e dono de construtora, Simonsen começou a defender a indústria num tempo em que isso parecia uma distante ilusão - afinal, a riqueza vinha do café, enquanto as fábricas eram toscas e pouco rentáveis. Simonsen já previa, entretanto, que a bonança cafeeira tinha seus dias contados. Quando as exportações despencaram e os fazendeiros já não tinham o mesmo fôlego para empurrar o país, os alertas do industrial provaram-se certeiros. Foi quando ele intensificou sua luta para conquistar maior apoio às fábricas (o que, para ele, era tarefa para o estado, através de políticas favoráveis à produção). Numa importante missão comercial à Inglaterra, em 1919, defendeu o envolvimento do capital e da tecnologia dos estrangeiros em benefício do desenvolvimento da economia nacional. No pleito para a Assembléia Nacional Constituinte, em 1933, foi eleito deputado, com a promessa de emplacar as reivindicações do empresariado. Anos depois, era chamado a ajudar Getúlio, que ficou impressionado com o carisma e a capacidade do industrial. Simonsen participou de forma decisiva dos trabalhos de vários órgãos técnicos dedicados a incentivar o desenvolvimento.

Cartaz de 32: mobilização dos industriais

Ainda como aliado do governo, o empresário foi nomeado para o conselho da Coordenação da Mobilização Econômica, órgão que ajudou a preparar a economia nacional para resistir às provações da II Guerra Mundial - Simonsen, vale lembrar, tinha a experiência de conduzir a indústria paulista durante os sobressaltos de 1932. Terminado o Estado Novo, o industrial se filiou ao Partido Social Democrático (PSD), legenda pela qual foi eleito senador por São Paulo, no ano passado. No decorrer dessa trajetória, fez negócios nos setores de borracha, cobre e pecuária, mas nunca com mesmo sucesso conquistado no papel de representante da indústria. Era como a reconciliação com Getúlio depois de 1932: os negócios pessoais eram coisa para se tratar depois de resolver as aflições do setor produtivo nacional. Roberto Simonsen fez muito nesse sentido, mas faltou-lhe tempo para desatar de uma vez por todas as amarras que atrapalham a marcha do empreendedor brasileiro, ainda desprovido de todas as condições ideais para crescer. Ainda assim, apostava sem hesitações no potencial de sua nação. "Nós brasileiros devemos e podemos ser otimistas", disse ele certa vez. "Tudo aqui nos sorri: a constância do tempo, a abundância da luz, a variedade de terra, as nossas tradições. São elementos que nos convidam a lutar sorrindo, a trabalhar cantando."

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