| Memória
O FAROL SE APAGOU
Morre
no Rio o economista Roberto Simonsen, o incansável porta-voz da indústria
nacional. Ficam as lições do ousado empreendedor - e o sonho de um Brasil
mais moderno e próspero Na Revolução Constitucionalista
de 1932, Roberto Cochrane Simonsen assumiu a espinhosa missão de transformar
o parque industrial de São Paulo numa máquina de guerra, permitindo
armar a população revoltosa para resistir às manobras do
então presidente Getúlio Vargas. O movimento foi derrotado, e o
industrial teve de amargar uma temporada forçada em Buenos Aires. Na volta
do exílio, porém, Simonsen sentou-se à mesa com o mesmo Getúlio
- desta vez como colaborador do governo. Ele queria ajudar a tirar do papel os
ambiciosos projetos idealizados pelos paulistas para modernizar a indústria
nacional - na avaliação dele, essa era a condição
primordial para a construção de um Brasil mais próspero.
O episódio ilustra bem a grande herança de Simonsen, que morreu
no último dia 25, no Rio de Janeiro. Acima dos interesses individuais e
das ambições próprias, ele enxergava o esboço de um
país moderno, em sintonia com o compasso acelerado da sociedade contemporânea. Engenheiro,
economista, professor e político, Roberto Simonsen foi vitimado por um
infarto fulminante no Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras, onde,
desde 1945, ocupava a cadeira 3, de Artur de Oliveira. Primeiro economista aceito
pela academia, ele discursava na recepção ao primeiro-ministro da
Bélgica, o economista Paul van Zeeland. Tinha 59 anos. Simonsen deixa a
viúva Rachel Cardoso, com quem estava casado havia 37 anos, e quatro filhos
- além de um robusto trabalho intelectual que se espalha por quase três
dezenas de livros. O legado de Simonsen inclui ainda a criação do
Centro das Indústrias de São Paulo (Ciesp), o Serviço Social
da Indústria (Sesi), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
(Senai) e Escola Livre de Sociologia e Política. A fundação
do Ciesp, em 1928, ao lado de José Ermírio de Moraes e Francisco
Matarazzo, é o grande marco de sua jornada em defesa da indústria
nacional. Até então, os empresários do setor eram representados
dentro da Associação Comercial, onde suas reivindicações
acabavam relegadas ao segundo plano. Capital e tecnologia - Filho
de aristocratas britânicos, estudante matriculado na Escola Politécnica
aos 15 anos de idade e dono de construtora, Simonsen começou a defender
a indústria num tempo em que isso parecia uma distante ilusão -
afinal, a riqueza vinha do café, enquanto as fábricas eram toscas
e pouco rentáveis. Simonsen já previa, entretanto, que a bonança
cafeeira tinha seus dias contados. Quando as exportações despencaram
e os fazendeiros já não tinham o mesmo fôlego para empurrar
o país, os alertas do industrial provaram-se certeiros. Foi quando ele
intensificou sua luta para conquistar maior apoio às fábricas (o
que, para ele, era tarefa para o estado, através de políticas favoráveis
à produção). Numa importante missão comercial à
Inglaterra, em 1919, defendeu o envolvimento do capital e da tecnologia dos estrangeiros
em benefício do desenvolvimento da economia nacional. No pleito para a
Assembléia Nacional Constituinte, em 1933, foi eleito deputado, com a promessa
de emplacar as reivindicações do empresariado. Anos depois, era
chamado a ajudar Getúlio, que ficou impressionado com o carisma e a capacidade
do industrial. Simonsen participou de forma decisiva dos trabalhos de vários
órgãos técnicos dedicados a incentivar o desenvolvimento. Ainda
como aliado do governo, o empresário foi nomeado para o conselho da Coordenação
da Mobilização Econômica, órgão que ajudou a
preparar a economia nacional para resistir às provações da
II Guerra Mundial - Simonsen, vale lembrar, tinha a experiência de conduzir
a indústria paulista durante os sobressaltos de 1932. Terminado o Estado
Novo, o industrial se filiou ao Partido Social Democrático (PSD), legenda
pela qual foi eleito senador por São Paulo, no ano passado. No decorrer
dessa trajetória, fez negócios nos setores de borracha, cobre e
pecuária, mas nunca com mesmo sucesso conquistado no papel de representante
da indústria. Era como a reconciliação com Getúlio
depois de 1932: os negócios pessoais eram coisa para se tratar depois de
resolver as aflições do setor produtivo nacional. Roberto Simonsen
fez muito nesse sentido, mas faltou-lhe tempo para desatar de uma vez por todas
as amarras que atrapalham a marcha do empreendedor brasileiro, ainda desprovido
de todas as condições ideais para crescer. Ainda assim, apostava
sem hesitações no potencial de sua nação. "Nós
brasileiros devemos e podemos ser otimistas", disse ele certa vez. "Tudo
aqui nos sorri: a constância do tempo, a abundância da luz, a variedade
de terra, as nossas tradições. São elementos que nos convidam
a lutar sorrindo, a trabalhar cantando." |