Artes e Espetáculos VEJA, maio de 1948
Novato atrevido, o americano Norman Mailer, de 25 anos,
estréia na literatura com ‘Os Nus e os Mortos’, o melhor romance
já lançado
sobre os horrores do front na II Guerra Mundial
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| Uma vida nas trincheiras: o líder pioneiro da nação israelita acompanha de perto os combates travados com as forças árabes |
m catatau de 721 páginas escrito por um engenheiro aeronáutico de 25 anos, criado no Brooklyn e formado em Harvard, está sendo louvado nos Estados Unidos como a melhor obra escrita até agora sobre a II Guerra Mundial. Três anos depois do final dos combates entre os Aliados e o Eixo, The Naked and The Dead (“Os Nus e os Mortos”; Rinehart Publishing New York; 4 dólares), romance em parte autobiográfico do jovem Norman Mailer, surge com um relato direto, real e acachapante da vida no front em uma ilha do Pacífico. Lançada no início do mês, a obra recebeu críticas entusiasmadas da crônica especializada, muitas delas comparando o novíssimo romance à obra prima de Leon Tolstoi – opinião subscrita de forma pouco modesta pelo emproado autor. “Os Nus e os Mortos é possivelmente o melhor livro já escrito desde Guerra e Paz”, alardeia.
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| A pergunta fundamental: ser ou não
ser? |
Exageros à parte, fato é que a obra caminha célere para a casa das 100.000 cópias vendidas logo no mês do lançamento, fazendo de Mailer uma celebridade instantânea nos Estados Unidos, para gáudio do próprio. Nascido em Long Branch, Nova Jersey, no seio de um tradicional clã judeu da cidade, o escritor de cabelos encaracolados e orelhas de abano sempre ansiou pelos holofotes. Morando em Nova York desde 1932, surpreendeu o mundo universitário ao entrar em Harvard aos 16 anos de idade, aparecendo para o primeiro dia de aula em trajes que ficariam tatuados na memória dos colegas de turma: jaqueta dourada, calça com listras azuis e verdes e alpercatas brancas.
Apesar de matriculado em engenharia, foi arrebatado pela literatura desde o começo dos estudos. Influenciado pelos escritos de John Steinbeck, James T. Farrel e John dos Passos, começou a escrever longos textos diários, com cerca de 3.000 palavras cada, para aperfeiçoar-se no ofício. Em 1941, tinindo na nova atividade, abocanhou o prêmio de melhor conto no concurso universitário promovido pela revista Short. Formou-se dois anos mais tarde e alistou-se para combater na guerra, já pensando em coletar experiências para um grande livro sobre o combate. O tiro seria certeiro.
Assalto literário - Convocado em 1944, quando já era casado com Beatrice Silverman, Norman Mailer foi enviado para as Filipinas e rodou o Pacífico até chegar ao Japão. No total, foram dezoito meses de serviço com o 112º Batalhão da Cavalaria. Sua mais alta patente foi sargento técnico – que, na prática, significava primeiro cozinheiro. “Tive poucos momentos de ação”, reconhece Mailer. Mas esses, especialmente algumas patrulhas em Leyte, seriam suficientes para inspirar o recruta em seu assalto literário. Na volta aos EUA, o ex-combatente reuniu as mais de cem cartas que enviou à esposa Beatrice relatando suas impressões do front. Em um ano e meio de trabalho concluiu seu romance de estréia.
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| O conde Bernardotte: missão espinhosa |
Os Nus e os Mortos impressiona pela crueza de seu relato. A violência está de tal forma arraigada nos personagens – integrantes de um batalhão americano estacionado em uma ilha do Pacífico – que nada, nem mesmo os flashbacks da vida na terra natal, escapam a ela. Não há paz, apenas a guerra, sem dignidade e sem propósito. Muitos leitores hão de ficar chocados com a pena atrevida do autor, bastante carregada na obscenidade do vernáculo e do comportamento dos combatentes. Mas nada disso é descabido: seus soldados são pessoas reais, agoniadas e atormentadas. Ao expor o sangue e as entranhas da guerra, mais do que a coragem e a glória, Mailer atinge uma excelência literária reservada a poucos veteranos. Se os louros colhidos com a obra ainda são insuficientes para colocá-lo no panteão de Tolstoi, sem dúvida já lhe garantem de forma legítima alguns anos de cabotinagem nos círculos da alta sociedade americana. |