Internacional VEJA, maio
de 1948
Eleição sul-africana elege governo
do 'apartheid', a cruel política da separação oficial entre brancos e negros.
A maioria sofrerá restrições para trabalhar, morar, viajar e até se casar
 |
| Um país, dois mundos: a Johannesburgo dos brancos, próspera e confortável (à esq.), e a dos negros, atrasada e miserável |
o mesmo mês
em que a conturbada Palestina era rasgada pela metade, dando origem a dois territórios
ocupados por povos em conflito, outro país com histórico problemático
e uma situação explosiva também começava a se dissolver.
No caso da África do Sul, porém, o território nacional, no
extremo sul do continente negro, permanecerá intacto. O racha deverá
acontecer nas entranhas desse importante estado africano, entre uma minoria branca,
que detém o poder e as riquezas, e a maioria negra, que constitui a mão-de-obra,
mas vive imersa na mais desesperadora pobreza. Colonizada por europeus e habitada
por uma vasta gama de culturas nativas, como as nações zulu e xhosa,
a África do Sul sempre viveu dividida entre as realidades de brancos e
negros, radicalmente distintas entre si. Agora, a ideologia oficial é de
uma segregação institucionalizada, assegurada por políticas
de estado. A separação será a lei, e cruzar essa linha será
um crime.
 |
| Vida de restrições: a periferia negra de Alexandra, na maior cidade sul-africana |
A promessa de um isolamento
sistemático dos dois grupos foi o tema central da eleição
para o parlamento sul-africano, no último dia 26. Segundo os resultados
já apurados, o Herenigde Nasionale Party, também conhecido como
"Partido Nacional", foi o grande vencedor, com 70 cadeiras. O Partido
Unido ficou com 65 assentos, e o Partido Africâner, com nove. Uma aliança
entre os partidos Nacional e Africâner deve dar origem ao novo governo,
com o líder Daniel François Malan, um clérigo protestante,
como seu primeiro-ministro. Todos os partidos são formados somente por
brancos e com votos apenas de brancos – os negros não podem nem chegar
perto das urnas. Mas havia uma diferença fundamental entre os grupos rivais
na eleição: a turma de Malan fez campanha com o compromisso de implementar
um conjunto de políticas cujo objetivo final é isolar de vez a população
de cor. Essa linha doutrinária vem sendo chamada de apartheid, o
equivalente ao termo "separação" no idioma africâner,
falado pelos brancos sul-africanos. Fadado ao fracasso - O premiê
derrotado na última eleição, o marechal-de-campo Jan Smuts,
um ícone da política do país, também sempre defendeu
abertamente a segregação – dizia temer que a integração
dos negros à política pudesse "arruinar o estilo de vida ocidental
da África do Sul". O ridículo argumento, baseado na imagem
surrada do africano como um selvagem indomável, manteve Smuts no poder
por catorze anos. Em 1947, entretanto, Smuts começou a suspeitar que sua
estratégia estivesse fadada ao fracasso. Foi quando o então premiê
encomendou a confecção de um relatório sobre o verdadeiro
impacto da segregação. O documento, intitulado Relatório
Fagan, foi divulgado no começo deste ano, e concluía: a completa
separação étnica era impossível e insustentável.
A recomendação do relatório era abolir a restrição
à migração dos negros nos centros urbanos, fornecendo mão-de-obra
às indústrias e criando um mercado consumidor maior nas cidades.
A migração não seria livre, pois o fluxo seria mantido sob
controle. Mas essa ressalva não foi suficiente para convencer os eleitores
brancos.
 |
| Tratados como gado: sul-africanos de cor formam fila para obter papéis de trabalho |
Malan e seu partido, segregacionistas
radicais, reagiram à divulgação do Relatório Fagan
e lançaram o seu próprio documento, o Relatório Sauer. O
texto defendia a estratégia oposta: a separação não
só deveria ser mantida como também aprofundada. Era a começo
da vitória do apartheid. Os trabalhadores brancos temiam perder
seus empregos para os negros e votaram em massa no Partido Nacional. Outro fator
relevante na vitória da legenda foi a campanha levada a cabo pelo jornal
Die Transvaler, editado por Hendrik Verwoerd, outro importante defensor
da segregação oficial. O tom populista da retórica de Verwoerd
convenceu o eleitor do suposto risco de manter Smuts no poder. Encerrado o pleito,
o eleitorado africâner respira aliviado, na ilusão de que é
aceitável gozar eternamente do conforto que os negros apenas sonham em
conquistar. Mas o resto do mundo civilizado acompanha o começo do novo
governo de cabelo em pé: fala-se em aprovar leis proibindo casamentos inter-raciais,
aumentar a reserva de empregos aos brancos, proibir a formação de
sindicatos pelos negros e restringir a movimentação da maioria da
população em nome da "tranqüilidade" da minoria.
Se depender de Malan e Verwoerd, a África do Sul entrará na segunda
metade do século XX andando de marcha à ré, acelerando firme
rumo a um sinistro passado.
|