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VEJA, maio de 1948

A jovem Lauren domou a fera: Bogart, futuro papai, contracena com a quarta mulher numa produção rodada no ano passado

 


Com duas décadas de carreira e três casamentos fracassados no currículo, o velho galã HUMPHREY BOGART achava que já tinha experimentado de tudo desde que chegou a Hollywood. Mas o astro, quase cinquentão, parece ter mergulhado na fonte da juventude. "Bogie" não só mantém a boa forma como ator – como mostra seu último trabalho, em O Tesouro de Sierra Madre, lançado em janeiro nos cinemas americanos – como também apresenta um invejável vigor no quesito romance. Sua quarta esposa, a atriz LAUREN BACALL, finalmente domou a fera, que anda comportada. Como presente, ele deverá ganhar seu primeiro filho. Comenta-se que Bacall (que tinha 19 anos quando conheceu o astro, então com 45) está grávida e espera uma criança para janeiro, quando Bogart terá completado 49 primaveras. O protagonista de Casablanca convive com Bacall em uma mansão de 160.000 dólares em Holmby Hills, entre Beverly Hills e Bel-Air. Na garagem, tem dois automóveis Jaguar. Mas o ator gosta mesmo é de seu veleiro Sluggy, com o qual passou a lua-de-mel com a quarta mulher, em 1945.


O hilário Adoniran: artista completo

Em menos de cinco meses no ar, o programa O Crime Não Compensa, que traz nas ondas da Rádio Record a dramatização de casos reais da crônica policial brasileira, tornou-se a maior coqueluche do dial paulistano. Versão nacional do homônimo Crime Does Not Pay, mania nos Estados Unidos, a audição é apresentada pelo delegado Artur Leite de Barros Júnior, responsável pela prisão de Gino Meneghetti, e conta com textos do prolífico produtor Osvaldo Moles. O sucesso fez a direção da PRB-9 convocar para as transmissões todos os radioatores dos núcleos de teatro e humorismo da emissora – desde veteranos como Manuel Durães até promessas como a jovem Nair Belo. Mas o destaque do policial, sem dúvida, fica por conta do eclético ADONIRAN BARBOSA. Cantor frustrado pinçado para os humorísticos da Record pelas mãos de Moles, tornou-se em pouco tempo um dos grandes cartazes da Maior. Apelidado de "o milionário criador de tipos", Adoniran incorpora personagens que já fazem parte do dia-a-dia dos ouvintes paulistanos, como o menino Barbosinha Mal-Educado da Silva, o malandro Zé Cunversa e o chofer de táxi Giuseppe Pernafina. Em O Crime Não Compensa, o artista de 38 anos dá mais uma mostra de sua versatilidade ao encarnar de forma impagável a mais diversa sorte de criminosos – desde ventanistas como o Homem da Vela até refinados larápios internacionais, como o uruguaio Gino Pasqua –, consagrando -se, aos olhos da crítica e do público, como um intérprete completo.


Beijo na lona: Louis acerta um direto em Jersey Joe, no primeiro combate, em 1947

Não se fala em outra coisa nos círculos de apreciadores da nobre arte: chegou a hora de JOE LOUIS pendurar as luvas? A resposta será conhecida no próximo dia 25 de junho, quando o supercampeão dos pesados subirá ao ringue montado no monumental estádio de beisebol dos Yankees, em Nova York, para encarar o perigoso Jersey Joe Walcott. Louis, de 34 anos, levou um susto no primeiro combate com Walcott, em dezembro do ano passado. Jersey Joe derrubou o herói americano logo no primeiro round. No quarto assalto, um público estupefato viu Louis beijar a lona outra vez. Detentor absoluto do cinturão dos pesados há mais de uma década, o campeão se levantou, arrastou o duelo até o fim dos quinze rounds e ganhou por pontos. Espectadores e comentaristas presentes à peleja acharam que Walcott merecia a vitória. Como o desfecho foi contestado, Louis aceitou conceder uma revanche ao rival. Será a 25ª defesa de título do "Bomba Negra", que nos últimos anos dedicou muito mais tempo às atividades militares e patrióticas – é sargento do Exército, foi à II Guerra e fez campanha pelo alistamento de recrutas de cor – do que aos sacos de areia e às barras de halteres.


Jóia rara: Leônidas é rei em São Paulo

Passados dez anos de sua majestosa campanha no Campeonato Mundial de Futebol de 1938, quando foi artilheiro do certame e marcou gol até de pé descalço, o veterano craque LEÔNIDAS DA SILVA continua jogando como o menino bom de bola que despontou nos campos cariocas na década de 30. O fôlego não é o mesmo de outras temporadas, é claro – mas o Diamante Negro dribla esse obstáculo com maestria, compensando o peso dos 35 anos com sua insuperável criatividade com a pelota. O tempo tem sido generoso com o jogador, que desembarcou em seu atual clube, o São Paulo, em 1942, sem moral e com quinze quilos a mais. Eram os resultados de uma constrangedora passagem pelo time da cadeia – Leônidas, então no Clube de Regatas do Flamengo, foi preso por falsificar o certificado de reservista militar. Por causa disso, falava-se naquele tempo que a jovem agremiação paulistana, fundada apenas sete anos antes, tinha comprado um "bonde de 200 contos" (referência ao conto-do-vigário em que o golpista propunha vender um bonde para arrancar dinheiro de algum desavisado). Os 200 contos de réis gastos pela contratação do artista da bola foram, na verdade, uma pechincha. Com Leônidas no comando de um verdadeiro esquadrão (Rui, Mauro, Bauer, Noronha, Remo e Teixeirinha, entre outras feras), o clube novato conquistou seus três primeiros Campeonatos Paulistas, mostrando que a hegemonia dos gigantes Corinthians e Palmeiras está com os dias contados. No último dia 22, a turma do velho Leônidas conquistou sua primeira vitória no Paulista de 1948: uma retumbante goleada de 6 a 1 contra o Nacional. O bonde Leônidas já se prepara para atropelar as próximas vítimas.


O cineasta com Rita Hayworth em 'Dama de Xangai': atraso e rombo no orçamento

Enquanto o britânico Laurence Olivier coleciona generosos elogios com sua notável adaptação de Hamlet (leia reportagem nesta edição), o americano ORSON WELLES prepara sua própria versão cinematográfica de uma obra de William Shakespeare – a tragédia Macbeth, que deve ser rodada nos próximos meses. O artista precoce, vencedor do Oscar de 1941 pelo inovador Cidadão Kane, já havia encenado a peça em 1936 (com um elenco formado só por atores negros e com o cenário transferido da Inglaterra ao Haiti). A versão para a tela grande deverá ser no mínimo impactante: conforme fontes próximas ao ator e diretor, Welles quer usar cenários similares aos do expressionismo alemão e pretende dispensar maiores luxos na produção, de orçamento modesto. Nada mais inesperado quando se trata do excêntrico Welles – em sua última película, A Dama de Xangai, ele estourou o orçamento, atrasou as filmagens e teve de pedir mais dinheiro ao presidente da Columbia Pictures, Harry Cohn. A fita, estrelado por Rita Hayworth, ex-mulher de Welles, tem estréia marcada para o mês que vem nos Estados Unidos.


Piedade: esperado retorno aos Jogos

Em 1936, a nadadora brasileira PIEDADE COUTINHO conquistou o melhor resultado já obtido por uma atleta do país nos Jogos Olímpicos – com apenas 16 anos, foi a quinta colocada na prova dos 400 metros nado livre em Berlim. A eclosão da II Grande Guerra, três anos depois, na mesma Alemanha que havia recebido os Jogos, impediu que Piedade disputasse sua segunda Olimpíada – as competições de 1940 e 1944 não foram realizadas em função do conflito. Hoje com 28 anos, a talentosa competidora terá outra chance de correr contra as melhores no próximo mês de agosto, nos Jogos Olímpicos de Londres. Piedade, recordista brasileira e sul-americana de várias provas aquáticas, pode repetir o bom papel de 1936 nas piscinas britânicas, onde disputará outra vez os 400 metros nado livre e também o revezamento 4 x 100 metros, com Eleonora Schmitt, Maria Leão da Costa e Talita de Alencar Rodrigues. Além da conquista do quinto lugar, Piedade entrou para a história por outro motivo em Berlim – uma imagem da nadadora em ação na Alemanha tornou-se a primeira telefoto já publicada pela imprensa brasileira.

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