Brasil VEJA, maio
de 1948
A dois anos do primeiro Campeonato Mundial
de Futebol do pós-guerra, os preparativos para o torneio no Brasil seguem a
passos de tartaruga. Os cartolas da Fifa estão preocupados
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| O moderno estádio municipal do Pacaembu,
em São Paulo: um dos poucos campos prontos para receber
a Copa do Mundo |

á exatos dez anos, no Congresso da Fifa em Paris, o representante da Confederação
Brasileira de Desportos (CBD), jornalista Célio de Barros, lançou
a candidatura do Brasil a país-sede do Campeonato Mundial de Futebol de
1942. O presidente Jules Rimet recebeu a proposta e agradeceu o entusiasmo, porém
deixou claro que a Alemanha era a preferida. Os tedescos apresentaram sua postulação
um par de anos antes e já tinham sediado com sucesso os Jogos Olímpicos
de Berlim, em 1936 – assim, levavam ampla vantagem na corrida. Os figurões
do futebol só não contavam com os delírios do sanguinário
capitão germânico Adolf Hitler, que em 1939 entrou de sola na Polônia
e transformou o mundo em uma praça de guerra nas temporadas seguintes,
impossibilitando assim a organização do quarto torneio mundial do
jogo criado pelos ingleses. Finda a batalha, seis longos anos depois, era hora
de ressuscitar a competição, que simplesmente caiu no colo do Brasil
– a Alemanha, por motivos óbvios, era carta fora do baralho. Em um novo
Congresso da Fifa, em Luxemburgo, dois anos atrás, Rimet chancelou a candidatura
única brasileira e confirmou o país como anfitrião da Copa
do Mundo de 1950.
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| Objeto do desejo: Jules Rimet entrega a taça
aos fortes uruguaios, no torneio de 1930 |
Estamos agora a pouco mais de dois anos do início do certame
– portanto, na metade do caminho entre a confirmação
da entidade máxima do esporte e a data prevista para o pontapé
inicial da partida de estréia. E o torcedor se pergunta:
como andam os preparativos para receber as dezesseis nações
da elite do esporte bretão? A resposta, infelizmente, é
bem brasileira: não andam. Ainda não foi montado sequer
um comitê para tratar das inúmeras questões
que envolvem a estruturação de tão complexo
evento – nos bastidores da CBD, é comentada a criação
de um Diretório Geral destinado a cuidar do assunto, mas
este ainda não saiu do papel. O tempo urge.Além disso,
a maioria das capitais brasileiras conta apenas com estádios
de porte médio, sem a envergadura necessária para
receber as pelejas do torneio máximo do futebol internacional
– São Paulo, com o Pacaembu, e Curitiba, com o Durival Britto
e Silva, modernas praças esportivas inauguradas nesta década,
são as exceções. Em Belo Horizonte, por exemplo,
os estádios de América, Cruzeiro e Atlético
são acanhados até mesmo para receber os torcedores
das equipes locais; não à toa, o prefeito Otacílio
Negrão de Lima, quando assumiu o cargo, destinou polpuda
verba para solucionar o que classificou de "imperioso problema"
dos estádios da capital mineira. O pequeno Sete de Setembro
de Futebol e Regatas aproveitou-se do oferecimento e começou
a levantar uma praça esportiva projetada para acomodar 45.000
pessoas, mas as obras seguem em ritmo moroso – se ficarão
prontas a tempo da Copa, é uma incógnita. Em Porto
Alegre, o Sport Club Internacional deu início a uma campanha
para reformar sua casa, o Estádio dos Eucaliptos, com capacidade
para 10.000 torcedores. O principal objetivo é transformar
o pavilhão de madeira da rua Silveiro em uma arquibancada
de concreto. Mas o projeto também não tem prazo para
ser concluído.
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| Ary Barroso: defensor do Maracanã |
Colosso
polêmico - A maior preocupação, porém, vem do Distrito
Federal. O futuro Estádio Municipal do Rio de Janeiro, o cartão-postal
do campeonato mundial aos olhos do mundo, ainda não saiu da estaca zero.
Previstos para o início deste ano, os trabalhos de construção
do gigante do Maracanã não começaram, o que já causa
apreensão entre os dirigentes da Fifa. Emissários da entidade devem
desembarcar em breve no Rio de Janeiro a fim de acompanhar os próximos
passos desta difícil gênese. Afinal, o estádio vem sendo alvo
de polêmica desde que a prefeitura anunciou a abertura da concorrência
para sua construção – defendida em campanha popular encabeçada
pelo cronista Mario Filho, do Jornal dos Sports. O vereador Carlos Lacerda,
da UDN, fez intensa oposição ao projeto na Câmara Municipal.
O udenista não concordava com a localização da praça
anunciada pela prefeitura (o antigo terreno do Derby Club) nem com sua capacidade
(150.000 pessoas), preferindo um estádio de 60.000 lugares em Jacarepaguá.
Colega de vereança e partido de Lacerda, o compositor Ary Barroso conseguiu
apoio suficiente entre a bancada comunista e garantiu a aprovação
do projeto. Agora só resta tirar o colosso do papel.
Alheio a essas
pendengas, o técnico do escrete nacional, Flávio Costa, espera que
a perda da Copa Rio Branco para o Uruguai, no mês passado, não abale
o moral dos jogadores – que, a bem da verdade, terão muito tempo para esquecer
esse revés. O próximo compromisso oficial da seleção,
o Campeonato Sul-Americano, a ser disputado também no Brasil, está
marcado apenas para abril do ano que vem. A grande novidade da participação
brasileira em Montevidéu foi a estréia do guarda-metas Barbosa,
que já vinha se destacando havia algum tempo com a camisa do Vasco da Gama.
O atleta de 27 anos teve boa atuação no empate de 1 a 1 contra a
Celeste Olímpica, e deve ameaçar a posição de Luiz
Borracha, arqueiro do Flamengo, titular de Flávio Costa nos últimos
três jogos da Seleção. No prélio seguinte em terras
meridionais, Borracha voltou à meta, mas não pôde evitar a
derrota brasileira por 4 a 2 para os campeões mundiais de 1930. Olho neles. |