Especial VEJA, maio
de 1948
Exércitos invasores encontram resistência
inesperada e
deixam população árabe na Palestina em xeque. Êxodo segue com
mais
de 200.000 refugiados, muitos deles vagando pelo deserto
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| O flagelo dos palestinos: prisioneiros de guerra imploram por água em Ramle (à esq.) e casal de idosos se arrasta pela areia |
"Que belo dia, este 14 de maio, quando o mundo árabe
prende a respiração na expectativa da entrada dos
sete exércitos na Palestina para redimi-la dos sionistas
e do Ocidente. Neste dia, as forças árabes invadirão
por todos os lados e se colocarão como um só homem,
para exigir justiça e para satisfazer a Deus, à consciência
e ao senso do dever."

anotação de um oficial da Legião Árabe
em seu diário resumia todo o sentimento dos árabes
na questão Palestina. As vésperas do final do mandato
britânico, com os judeus prometendo fazer cumprir a partilha
aprovada pelas Nações Unidas, a Liga Árabe
sentiu-se convidada a invadir a Palestina para restaurá-la
aos habitantes árabes. Entre seus membros, não havia
dúvidas de que o intento seria alcançado sem dificuldades.
Azzam Pasha, o secretário-geral da entidade, ainda se dava
o direito de anunciar a dilapidação completa do inimigo.
"Conduziremos um massacre para rivalizar com aqueles conduzidos
pelas hordas mongóis", garantiu, logo no início
das hostilidades.
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| Pasha: o árabe prometia um massacre |
Todavia, a confiança e a certeza dos invasores logo soçobraram.
Sem um comando unificado, com soldados despreparados e com interesses
completamente distintos entre si, os exércitos árabes
foram surpreendidos pela resistência vicejante dos judeus.
Pouco mais de duas semanas se passaram desde que David Ben-Gurion
anunciou a independência de Israel, e os árabes estão
muito longe de conquistar seus objetivos, com seus combatentes exauridos
pelos prélios. A situação só é
mais catastrófica para os palestinos: acredita-se que entre
200.000 e 250.000 deles tenham deixado suas casas, em pânico,
rumo aos países árabes vizinhos nas semanas que antecederam
o mandato e na primeira quinzena da invasão – sem
contar as outras tantas vítimas de embates fatais.
Árabes e judeus culpam-se uns aos outros pela expatriação
dos palestinos, que causa preocupação na comunidade
internacional e já é questão prioritária
nos debates das Nações Unidas. Israel afirma que a
fuga em massa foi incentivada pelos próprios governos árabes,
não só a fim de abrir espaço para a invasão
de seus exércitos, mas também visando criar comoção
ao redor do globo. Com isso, ganhariam apoio para a causa palestina
– as imagens de famílias palestinas vagando pelo deserto
carregando apenas a roupa do corpo e alguns jarros de água
são deveras impactantes. As autoridades judaicas argumentam
que, na declaração de independência, garantiram
liberdade e cidadania para os árabes palestinos em terras
de Israel – promessa que, aparentemente, não foi levada a
sério.
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| Fuga da Galiléia: temendo as tropas de Israel, palestinos abandonam seus vilarejos |
Carnificina e debandada - No outro front, as nações
árabes afirmam que orientaram os palestinos a não
deixarem suas residências, estabelecendo inclusive punições
para os jovens em idade militar que fugissem de suas cidades e confiscando
as propriedades daqueles que fossem embora sem autorização.
A culpa pelo desterro, de acordo com seus líderes, seria
dos sionistas – e não apenas pela expulsão de civis
na ponta da baioneta, como também pelo terror a eles infligido.
Nesse ponto, a carnificina do vilarejo de Deir Yassin, no início
de abril, onde cerca de 200 locais foram dizimados e tiveram seus
corpos mutilados e jogados em um poço, é sem dúvida
fator importante no imaginário palestino. Ainda que a Haganá
tenha repreendido vigorosamente a ação – inclusive
prendendo os oficiais responsáveis –, o temor de uma repetição
do mortifício se alastrou pela população local,
com conseqüências pouco animadoras.
Independente disso, é fato que a debandada civil tem uma
explicação bem mais palpável: o colapso absoluto
das instituições árabes na Palestina no crepúsculo
do mandato britânico, com a fuga de seus principais líderes.
Juízes, mukhtars, cádis e outras autoridades
foram os primeiros a abandonar cidades como Haifa, Jaffa e a Cidade
Nova de Jerusalém. Sem a elite de sua estrutura social, e
encarando o formidável aparelhamento do estado de Israel,
muitos decidiram partir para portos mais seguros – ou seja, terras
seguramente árabes. E, nas entrelinhas, os judeus já
indicaram que o retorno dos refugiados às antigas terras
da Palestina não será bem-vindo.
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| Rendição na vila de Ramle: desespero |
Para piorar, os membros da Liga Árabe, que na declaração
de invasão, datada de 15 de maio, usavam a segurança dos palestinos
como justificativa para o início da guerra, pouco ou nada vêm fazendo
nesse sentido. Sem uma coordenação de fato (o rei Abdullah da Transjordânia
se auto-proclamou, no dia 14, comandante-em-chefe dos exércitos árabes,
mesmo não tendo a menor idéia do que se passa nas tropas aliadas), as manobras militares acabam atendendo os interesses pessoais
de seus líderes – e, para desespero dos palestinos, sempre funcionam na
base do cada um por si, Alá por todos. Ademais, ainda reverberam as palavras
do cabotino Azzam Pasha e seu massacre anunciado mas não levado a cabo.
Com os papéis invertidos, não é de se estranhar que os árabes
palestinos esperassem o mesmo tratamento dos judeus. E, nesse caso, realmente
não convém pagar para ver.
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