Especial VEJA, maio
de 1948
Irmãos de sangue e parceiros no ódio, árabes
e judeus
digladiam-se na Terra Santa desde o final do século XIX. É um
trágico e visceral embate que tem tudo para acabar mal
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| No olho da rua: Abraão obedece Sara
e expulsa Agar e o pequeno Ismael de sua morada; começava
a saga do povo árabe |
eza o Velho Testamento que Abraão recebeu de Deus, por
volta dos 75 anos de idade, o chamado para se mudar de mala e cuia
para os rincões de Canaã, com a promessa de que seus
descendentes dariam origem ali a uma grande nação.
Dez anos depois, porém, já estabelecido na nova terra,
o longevo migrante ainda não havia conseguido gerar a tão
esperada prole. Sara, a esposa, o instigou a desposar sua serva,
a egípcia Agar, para fazer valer o desígnio divino
união que produziu o menino Ismael. Quando o rapagote
completava seu 13º aniversário, Abraão, já
com 99 anos, teve outro encontro com Deus, que reiterou a promessa
feita anteriormente e garantiu que a posteridade de Abraão
sairia das entranhas de Sara. Dito e feito: no ano seguinte veio
ao mundo Isaac, filho do centenário porém fecundo
patriarca.
Na festa de apresentação de Isaac, contudo, Sara
viu o primogênito zombando do caçula, e ordenou ao
marido que expulsasse Agar e Ismael de seus domínios. A idéia
de desterrar o sangue do seu sangue não agradou a Abraão,
que apenas levou a cabo a ação por ter a garantia
de Deus que seu filho com a escrava também teria um destino
fabuloso, iniciando outra grande nação. Assim, fornecendo
um pão e um odre de água a Agar e Ismael, o patriarca
mostrou-lhes o caminho da rua logo na manhã seguinte. Ambos
erraram por algum tempo pelo deserto da Bersabéia, até
que Ismael se fixou no deserto da Arábia, produzindo doze
filhos as doze tribos ismaelitas, ancestrais do povo árabe.
Do outro lado da família, em Canaã, seu irmão
Isaac teve como prole Esaú e Jacó. Os doze herdeiros
deste último (rebatizado mais tarde de Israel) compuseram
as doze tribos que deram origem ao povo hebreu.
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| A primeira 'Aliyah', no século passado:uma
longa marcha rumo à Terra Santa |
Milênios depois da desavença fundadora entre árabes
e judeus, a cizânia entre irmãos voltou a explodir
de forma figadal na Palestina, território que engloba a terra
mitologicamente prometida por Deus a Abraão. O cenário
bélico que hoje se vê no recém proclamado estado
de Israel é resultado de uma série de conflitos que
remontam ao terceiro quarto do século passado, quando a ideologia
sionista, que defendia a criação de um estado judeu
independente na Palestina, começou a se propagar pelo mundo
e levar os judeus em comboio de volta para o Oriente Médio.
Por volta de 1880, antes mesmo que Theodore Herzl organizasse as
idéias sionistas em livros e congressos, os primeiros imigrantes
já desembarcavam na Palestina, então uma província
do Império Otomano, na primeira das muitas ondas de imigração
hebraica movimentos conhecidos como Aliyah, ou "ascensão".
Com elas, em pouco mais de 30 anos, o número de judeus na
Palestina quase quadruplicou: de 24.000 em 1881 para 85.000 em 1914.
A maioria desses pioneiros chegava em fuga do império russo,
onde reinavam o anti-semitismo e os temíveis pogroms,
ataques praticamente oficializados contra as minorias. Os imigrantes
judeus se enraizaram no Oriente Médio em comunidades agrícolas,
em terrenos comprados de senhores de terras otomanos e árabes.
Mesmo estabelecida de forma legal, a presença dos pioneiros
causou desde o primeiro dia uma tensão latente entre judeus
e árabes palestinos. Assaltos destes últimos contra
assentamentos hebreus levaram seus líderes a montar, por
volta de 1910, uma força de defesa, batizada Hashomer (guardiões),
que viria a ser o embrião do exército judeu.
O ápice das hostilidades - Com a eclosão da
Grande Guerra, em agosto de 1914, milhares de árabes e judeus,
colocando-se do lado das forças aliadas, pegaram em armas
na esperança de que o domínio otomano na Palestina
chegasse ao fim. O clima beligerante fortaleceu o sentimento nacionalista
dos árabes, que ganhou ainda mais corpo depois da ira generalizada
que se sucedeu ao anúncio da Declaração de
Balfour, em 1917 na qual a Grã-Bretanha afirmava estar
pronta para apoiar a criação do estado judeu na Palestina,
possibilidade jamais admitida pelos árabes. Com o fim da
guerra e a concessão do mandato na Palestina à potência
européia, uma escalada de violência tomou conta da
região, para desespero dos súditos da rainha, perdidos
em meio ao fogo cruzado entre os locais. Ataques de árabes
a judeus, como o de Nabi Musa, na Cidade Velha de Jerusalém,
em 1920, ou em Jaffa, no ano seguinte, ou ainda no chamado massacre
de Hebron, em 1929, terminavam com dezenas de mortos e feridos.
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| Os imigrantes judeus no navio 'Exodus': barrados
pelos britânicos na Palestina |
Mesmo com as restrições da Grã-Bretanha à
entrada de judeus na Palestina, oficializada gradativamente nos
diversos Livros Brancos (políticas que limitavam a imigração),
o plano sionista de montar seu estado não arrefeceu
pelo contrário. Em compensação, na mesma medida
seguiram as campanhas árabes, insufladas por líderes
religiosos como o Grande Mufti de Jerusalém e milícias
como a Mão Negra. Eram respondidas à altura por ataques
de grupos armados judeus, notadamente o Irgun. As hostilidades alcançaram
seu ápice na chamada Revolta Árabe na Palestina, iniciada
em 1936. Os revoltosos queriam a evacuação dos britânicos,
eleições imediatas e o fim da imigração
judaica. A violência levou à formação
da Comissão Peel, que, ao final de um ano de deliberações,
recomendou a partilha da Palestina.
O plano, no entanto, foi recusado pelo governo bretão e
pelos árabes, e a onda de combates, que havia diminuído,
recrudesceu até 1939, quando a revolta foi encerrada por
seus líderes sem atingir seu objetivo. Apesar disso, seus
mentores consideraram que o movimento teve como mérito fortalecer
a identidade árabe-palestina contra, obviamente, os
inimigos comuns (britânicos e judeus). Desde então,
a violência entre os antagonistas tem sido incessante. Ataques-surpresa
de ambas as partes (não raro covardes, vitimando populações
civis) vêm ocorrendo em ritmo espantoso desde o início
desta década.
Não houve pausa nem mesmo durante a eclosão da II
Grande Guerra, travada entre os Aliados e o Eixo que representou,
em meio à escaramuça na Palestina, um novo fardo para
os judeus, atormentados pelos horrores nazistas e sua infausta "solução
final". Agora, com a definitiva saída de cena da Grã-Bretanha
e a proclamação do estado de Israel, árabes
palestinos e judeus engalfinham-se de frente, sem intermediários,
em um bate-barba consangüíneo como não se via
havia muito tempo. Um choque de ódio que remonta, mais do
que ao litígio entre Ismael e Isaac, ao serpentífero
confronto de uma outra dupla de irmãos, Caim e Abel. Que
esta história tenha um final diferente.
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