Especial VEJA, maio
de 1948
Judeus da Cidade Nova estão
sitiados pela Legião Árabe, que
triunfa na parte antiga da Terra Santa. Sobrevida
dos
israelenses na 'cidade da paz' depende do envio de suprimentos
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| Os árabes fecham o cerco: judeus de Jerusalém amargam longas filas para conseguir rações de mantimentos para sobreviver |
ão muitos os nomes pelos quais Jerusalém, terra sagrada
para judeus, cristãos e muçulmanos, foi conhecida
ao longo de 3.000 anos de história. Seu mais famoso epíteto,
porém, prova-se mais uma vez também o mais irreal.
Açoitada por quase três semanas de pérfida batalha
entre a legião árabe e as forças de defesa
judaicas, que já produziram mais de mil baixas civis, Jerusalém
fechou o mês de independência de Israel sob a ameaça
de desabastecimento e fome para os 80.000 judeus da Cidade Nova.
O cerco ferrenho da Terra Santa pelas tropas da Transjordânia,
já senhoras da Cidade Antiga, é apenas o mais novo
capítulo do infausto destino infligido pelo homem àquela
que é ilusoriamente chamada de "Cidade da Paz".
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| O rei Abdullah: um desejo inabalável |
Depois da vaga de violência que correu em paralelo aos estertores
do mandato britânico na Palestina, Jerusalém foi tema
de inúmeras reuniões e deliberações
dos delegados das Nações Unidas. Mas a solução
diplomática não é opção para
o rei hashemita da Transjordânia, Abdullah, em cujas entranhas
reside o desejo inabalável de capturar a cidade para compensar
a perda de Meca e Medina para a dinastia saudita em 1925. Por isso,
o monarca desprezou o plano de batalha da Liga Árabe, que
determinava o engajamento da Legião em Haifa e no norte da
Palestina, e enviou seus 4.500 homens rumo à Jerusalém,
sob o comando do general britânico John Bagot Glubb. No último dia 19 de maio, os primeiros legionários
chegaram à Cidade Antiga, enclave histórico dividido entre comunidades
armênias, gregas, muçulmanas e de judeus ortodoxos. Uma única
unidade da Haganá ficou responsável pela defesa da área,
mas não foi páreo para a artilharia da Legião Árabe.
No dia 28, os judeus locais, sem armas, sem munição e sem comida,
renderam-se. A recente notícia da capitulação chocou a comunidade
judaica pelo mundo; a idéia de que a Cidade Antiga e seus locais sagrados,
como o Muro das Lamentações, agora estão sob controle do
reino hashemita certamente não foi a boa-nova esperada pelos sionistas.
Do ponto de vista militar, contudo, a perda tem pouca significância
– é a Cidade Nova, complexo urbano onde reside a maioria absoluta dos judeus,
o coração da resistência do estado de Israel. Desde o início
de maio, prélios selvagens ali se sustentam. Cerca de 2.000 legionários,
amparados por uma artilharia de primeira grandeza, assacaram a Cidade Nova pelo
norte, buscando forçar sua entrada na região habitada. As tropas
da Haganá, ainda que em desvantagem numérica e com equipamento improvisado
– morteiros caseiros são a principal arma dos judeus – conseguiram conter
o avanço.
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| Tropa de burros: animais de carga ajudam a limpar as ruas e espantar a febre tifóide |
O general Glubb, então, passou a concentrar seus esforços
no front sul da Terra Santa – onde, no início do mês,
tropas da infantaria egípcia já haviam atacado o kibutz
de Ramat Rachel, na entrada da cidade. Novamente, porém,
a tenaz resistência dos judeus surpreendeu os árabes,
que suspenderam momentaneamente o ataque. Ao menos por enquanto,
portanto, a possibilidade de invasão árabe da Cidade
Nova está descartada, apesar de as cicatrizes causadas pelas
cerca de 10.000 bombas jogadas sobre Jerusalém estarem longe
de ser curadas.
Cerco apertado - Uma outra ameaça segue pairando sob os habitantes
da Terra Santa. Sitiados, os judeus têm sofrido com o racionamento de água
e alimentos – nos embates anteriores à retirada dos britânicos,
os árabes conquistaram os acessos a Jerusalém. Contudo, todas as
tentativas das forças de Israel para recuperar Latrun, hoje base de controle
árabe na rodovia, têm se mostrado desastrosas. No dia 25, os homens
do comandante Shlomo Shamir lançaram-se desesperadamente contra o quarto
regimento da Legião Árabe, sem reconhecimento do terreno ou apoio
de artilharia. Favorecidos pelas posições mais altas do vilarejo,
os defensores repeliram de forma violenta os judeus, que registraram massivas
perdas de vida. A Haganá ainda repetiria a ofensiva nos dias subseqüentes
– em tentativas igualmente infrutíferas, que não representaram nenhuma
ameaça à superioridade árabe em Latrun.
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| Na mira: judeus lutam pela 'cidade da paz' |
Com o cerco apertado e a situação cada vez mais periclitante
para os hierosolimitas (os moradores de Jerusalém), o exército
de Israel agora deposita suas fichas em uma arriscada e improvável
alternativa de abastecimento. Nas últimas semanas, o comando
judaico vem usando uma trilha ao sul de Latrun e Bab al-Wad a fim
de levar soldados, a pé, para dentro de Jerusalém.
O coronel David "Mickey" Marcus, judeu americano formado
na academia de West Point e que serve como voluntário no
Oriente Médio, considerou que esse caminho pudesse ser alargado
para a passagem de veículos com mantimentos e armamentos.
Autorizados pelo comandante Yigael Yadin, centenas de trabalhadores
labutam incessantemente ao longo da trilha, dinamitando pedras e
abrindo alas antes que a trégua da ONU entre em vigor.
Se a "Estrada da
Birmânia" (assim batizada em homenagem ao caminho usado pelos aliados
para levar materiais à China antes do confronto com o Japão na Segunda
Guerra Mundial) ficar pronta a tempo, os judeus da Cidade Nova, com suprimentos
de água e comida regularizados, terão a oportunidade de renovar
suas energias no cessar-fogo e voltar para a contenda com força total.
Caso contrário, os dias que se seguirão a partir de 11 de junho
serão os mais longos da história de Jerusalém – e o rei Abdullah
poderá, ao final da trégua, celebrar a anexação também
da parte moderna da cidade, rendida pela fome.
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