| Especial
A BATALHA DE JERUSALÉM
Judeus
da Cidade Nova estão sitiados
pela
Legião Árabe, que triunfa na parte antiga
da
Terra Santa. Sobrevida dos israelenses na
'cidade
da paz' depende do
envio de suprimentos
São muitos os nomes pelos quais Jerusalém,
terra sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos, foi conhecida
ao longo de 3.000 anos de história. Seu mais famoso epíteto, porém,
prova-se mais uma vez também o mais irreal. Açoitada por quase três
semanas de pérfida batalha entre a legião árabe e as forças
de defesa judaicas, que já produziram mais de mil baixas civis, Jerusalém
fechou o mês de independência de Israel sob a ameaça de desabastecimento
e fome para os 80.000 judeus da Cidade Nova. O cerco ferrenho da Terra Santa pelas
tropas da Transjordânia, já senhoras da Cidade Antiga, é apenas
o mais novo capítulo do infausto destino infligido pelo homem àquela
que é ilusoriamente chamada de "Cidade da Paz".
Depois
da vaga de violência que correu em paralelo aos estertores do mandato britânico
na Palestina, Jerusalém foi tema de inúmeras reuniões e deliberações
dos delegados das Nações Unidas. Mas a solução diplomática
não é opção para o rei hashemita da Transjordânia,
Abdullah, em cujas entranhas reside o desejo inabalável de capturar a cidade
para compensar a perda de Meca e Medina para a dinastia saudita em 1925. Por isso,
o monarca desprezou o plano de batalha da Liga Árabe, que determinava o
engajamento da Legião em Haifa e no norte da Palestina, e enviou seus 4.500
homens rumo à Jerusalém, sob o comando do general britânico
John Bagot Glubb. No último dia 19 de maio, os primeiros legionários
chegaram à Cidade Antiga, enclave histórico dividido entre comunidades
armênias, gregas, muçulmanas e de judeus ortodoxos. Uma única
unidade da Haganá ficou responsável pela defesa da área,
mas não foi páreo para a artilharia da Legião Árabe.
No dia 28, os judeus locais, sem armas, sem munição e sem comida,
renderam-se. A recente notícia da capitulação chocou a comunidade
judaica pelo mundo; a idéia de que a Cidade Antiga e seus locais sagrados,
como o Muro das Lamentações, agora estão sob controle do
reino hashemita certamente não foi a boa-nova esperada pelos sionistas.
Do ponto de vista militar, contudo, a perda tem pouca significância
– é a Cidade Nova, complexo urbano onde reside a maioria absoluta dos judeus,
o coração da resistência do estado de Israel. Desde o início
de maio, prélios selvagens ali se sustentam. Cerca de 2.000 legionários,
amparados por uma artilharia de primeira grandeza, assacaram a Cidade Nova pelo
norte, buscando forçar sua entrada na região habitada. As tropas
da Haganá, ainda que em desvantagem numérica e com equipamento improvisado
– morteiros caseiros são a principal arma dos judeus – conseguiram conter
o avanço. O general Glubb, então, passou a concentrar seus
esforços no front sul da Terra Santa – onde, no início do mês,
tropas da infantaria egípcia já haviam atacado o kibutz de Ramat
Rachel, na entrada da cidade. Novamente, porém, a tenaz resistência
dos judeus surpreendeu os árabes, que suspenderam momentaneamente o ataque.
Ao menos por enquanto, portanto, a possibilidade de invasão árabe
da Cidade Nova está descartada, apesar de as cicatrizes causadas pelas
cerca de 10.000 bombas jogadas sobre Jerusalém estarem longe de ser curadas.
Cerco apertado - Uma outra ameaça segue pairando sob os habitantes
da Terra Santa. Sitiados, os judeus têm sofrido com o racionamento de água
e alimentos – nos embates anteriores à retirada dos britânicos,
os árabes conquistaram os acessos a Jerusalém. Contudo, todas as
tentativas das forças de Israel para recuperar Latrun, hoje base de controle
árabe na rodovia, têm se mostrado desastrosas. No dia 25, os homens
do comandante Shlomo Shamir lançaram-se desesperadamente contra o quarto
regimento da Legião Árabe, sem reconhecimento do terreno ou apoio
de artilharia. Favorecidos pelas posições mais altas do vilarejo,
os defensores repeliram de forma violenta os judeus, que registraram massivas
perdas de vida. A Haganá ainda repetiria a ofensiva nos dias subseqüentes
– em tentativas igualmente infrutíferas, que não representaram nenhuma
ameaça à superioridade árabe em Latrun.
Com o cerco
apertado e a situação cada vez mais periclitante para os hierosolimitas
(os moradores de Jerusalém), o exército de Israel agora deposita
suas fichas em uma arriscada e improvável alternativa de abastecimento.
Nas últimas semanas, o comando judaico vem usando uma trilha ao sul de
Latrun e Bab al-Wad a fim de levar soldados, a pé, para dentro de Jerusalém.
O coronel David "Mickey" Marcus, judeu americano formado na academia
de West Point e que serve como voluntário no Oriente Médio, considerou
que esse caminho pudesse ser alargado para a passagem de veículos com mantimentos
e armamentos. Autorizados pelo comandante Yigael Yadin, centenas de trabalhadores
labutam incessantemente ao longo da trilha, dinamitando pedras e abrindo alas
antes que a trégua da ONU entre em vigor. Se a "Estrada da
Birmânia" (assim batizada em homenagem ao caminho usado pelos aliados
para levar materiais à China antes do confronto com o Japão na Segunda
Guerra Mundial) ficar pronta a tempo, os judeus da Cidade Nova, com suprimentos
de água e comida regularizados, terão a oportunidade de renovar
suas energias no cessar-fogo e voltar para a contenda com força total.
Caso contrário, os dias que se seguirão a partir de 11 de junho
serão os mais longos da história de Jerusalém – e o rei Abdullah
poderá, ao final da trégua, celebrar a anexação também
da parte moderna da cidade, rendida pela fome. |