| Entrevista:
David Ben-Gurion
A FORTALEZA ISRAELITA
O
fundador de Israel não se empolga com
o
sucesso dos primeiros dias
de combate e prevê
que
muitas
tormentas aguardam seu povo.
Mas
o teimoso
líder avisa: Israel triunfará
Soldado das hostes judaicas,
Ben-Gurion sucumbiu no malfadado combate contra a legião romana em Jerusalém,
no ano de 70 d.C., derrota militar que significou o fim da soberania de seu povo
na Terra Santa. À luz dos recentes acontecimentos no Oriente Médio,
fica difícil imaginar uma escolha mais propícia de pseudônimo
hebraico do que aquela adotada pelo jornalista David Gryn nos idos de 1910. Dos
editoriais do periódico Ahdout ("Unidade") às árduas
batalhas contra os árabes, o recém-nomeado primeiro-ministro de
Israel, agora atendendo apenas como David Ben-Gurion, tem dedicado sua vida a
completar a tarefa inacabada de seu antecessor de restabelecer a Palestina aos
judeus. Baixinho, teimoso, carrancudo, desprovido de qualquer vaidade, o líder
sionista nasceu em Plonsk – hoje território polonês, à época
parte do império czarista russo – a 16 de outubro de 1886 e está
no Oriente Médio desde os 19 anos, trabalhando pela construção
do lar nacional judaico. Um dos idealizadores da Hashomer, força de defesa
rudimentar dos pioneiros que deu origem à Haganá, Ben-Gurion guia
com mãos resolutas a nova nação nesta época de guerra.
Nesta entrevista a VEJA, o comandante não esconde a preocupação
com a provação a ser enfrentada por Israel, mas se mostra confiante
na vitória militar de suas tropas. Mais que isso: aposta na consolidação
do país como um próspero centro de desenvolvimento no Oriente Médio. VEJA
- Depois de quase dois milênios, os judeus voltam a ter soberania
na Palestina. O que significa, para o senhor, estar à frente do recém-criado
estado de Israel, com toda a importância que isso representa para os sionistas
no mundo inteiro? Ben-Gurion - Sem dúvida, algo único
aconteceu em Israel, mas somente as gerações futuras poderão
avaliar o completo significado histórico deste acontecimento. Por enquanto,
posso dizer que temos um caminho tortuoso pela frente. Não devemos nos
enganar e pensar que o reconhecimento diplomático de outras nações
resolverá nossos problemas. No dia em que proclamamos o estado de Israel,
Tel-Aviv foi bombardeada por aviões egípcios. Nosso país
foi invadido pelo norte, leste e sul pelos exércitos regulares dos países
árabes vizinhos. O governo provisório já fez uma reclamação
formal ao Conselho de Segurança a respeito da agressão cometida
por membros das Nações Unidas, e pela aliada da Grã-Bretanha,
a Transjordânia. É inconcebível que o Conselho de Segurança
ignore atos que violam a paz, as leis internacionais e as decisões da ONU.
Mas nunca devemos nos esquecer que nossa segurança, no final das contas,
depende de nossas próprias forças. VEJA - A Liga
Árabe justificou a invasão com o argumento de que os árabes
têm o direito legítimo sobre a Palestina, que era parte do Império
Otomano e contava com uma maioria expressiva de população árabe.
Como os judeus vêem essa questão? Ben-Gurion - Já
em 1917, a Declaração de Balfour reconheceu internacionalmente o
direito de Israel existir. Nosso considerável progresso em cultivar essa
terra tornara nossa reivindicação óbvia desde aquela época.
O reconhecimento de nosso direito de estar aqui foi confirmado diversas vezes
ao longo dos anos e finalmente pela determinação das Nações
Unidas, em 1947, de que a Grã-Bretanha tomasse ações efetivas
para o estabelecimento de um estado judeu na Palestina. Tudo isso não nega
o direito de qualquer outro povo ter um estado. Longe de nós fazer algo
assim. Resignamos-nos, em 1947, em receber a pior parte da Palestina, conforme
estabelecido pelas Nações Unidas. Não considerávamos
a determinação muito justa, pois sabíamos que nosso trabalho
aqui merecia uma porção maior de terra. Entretanto, não discutimos
a questão e nos preparamos para acatar com zelo as determinações
internacionais quando chegado o dia de nossa independência. Também
estávamos prontos para fazer de Jerusalém uma cidade internacional,
desde que respeitadas as garantias dadas pelas Nações Unidas à
população judaica de seu direito permanente de viver ali de forma
pacífica e de participar da administração democrática
da cidade. Não tínhamos, portanto, nenhum interesse nas regiões
designadas aos árabes. VEJA - Combates ferozes acontecem
por todo o território, e os judeus têm se dado consideravelmente
bem na maioria deles – o que mostra uma preparação prévia
para as batalhas... Ben-Gurion - Os judeus não pegaram em
armas prontamente. Como povo, temos aversão natural à violência.
Nos séculos de exílio, fomos muitas vezes martirizados. Ainda assim,
nos sujeitamos de forma abnegada, raramente resistindo. Pegar em armas parecia
anormal. Mas sabíamos que aqui na Galiléia – e o princípio
vale para Israel se quiser sobreviver, e vai sobreviver – não havia normalidade
no sentido comum da palavra. Queríamos criar uma nova forma de vida, em
consonância com nossas mais antigas tradições como povo. Foi
essa a nossa luta. E, para atingir este objetivo, precisamos recriar tudo do começo,
reinventar a sociedade. Portanto, estávamos preparados para ter sangue
nas mãos em nome da autonomia, da autodeterminação e da autodefesa.
VEJA - Como Israel conseguiu montar suas forças de defesa em
meio ao embargo de armas e às restrições britânicas à imigração?
Ben-Gurion - Enquanto os países
árabes vizinhos organizavam modernos exércitos sob tutela britânica,
as condições do mandato impediam quase todo desenvolvimento militar
de nossa parte. Antes de o Livro Branco de 1939 restringir severamente nossas
atividades, e em reação aos incessantes motins provocados pelo Mufti
de Jerusalém, a Administração do Mandato nos permitiu treinar
2.000 homens da Polícia Judaica dos Assentamentos. O período pós-guerra
começou com uma restrição implacável do governo trabalhista
britânico à imigração e a toda iniciativa de defesa
judaica. Assim, a Haganá conquistou a inimizade britânica ao se dedicar
à imigração ilegal; sua liderança passou a operar
secretamente, mudando-se de kibutz para kibutz. Enquanto isso, porém, os
países árabes da região continuavam a receber armas, artilharias,
blindagens, aviões de combate – os instrumentos normais de uma guerra.
Oficiais britânicos treinavam seus exércitos e, no caso da Legião
Árabe da Transjordânia, os comandavam. A situação era
então muito unilateral, e decididamente não a nosso favor.
VEJA - Os árabes acusam Israel pelo exílio forçado
de mais de 200.000 palestinos, ação amplamente condenada pela comunidade
internacional. O que o senhor tem a dizer sobre isso? Ben-Gurion - Ora,
são os poderes árabes e não judeus que estão exortando
a população muçulmana local a deixar suas casas e sua terra.
Pedimos a eles para ficar e nos ajudar a construir um país moderno. Aqueles
que partiram o fizeram muito mais por medo das ameaças árabes de
uma retaliação pela "deslealdade" do que por causa de
seus vizinhos judeus. Na confiança, atravessaram as fronteiras e emigraram
para os países árabes que haviam exigido sua partida. Infelizmente,
agora estão em condições infames. VEJA - A
revogação do Livro Branco abre as portas de Israel para a imigração
de judeus de todo o mundo... Ben-Gurion - Para um judeu, a vida
aqui traz a esperança de uma rica satisfação moral. Sempre
achei isso, o que moldou minha própria postura em relação
a Israel. Vim para cá muito jovem, quando a idéia de uma nação
era considerada pela maioria dos judeus uma louca fantasia. Eu sabia que tínhamos
aqui a oportunidade ideal de provar nosso ímpeto e nós mesmos como
judeus. Não havia nada aqui. Era literalmente um canto esquecido do Império
Turco e do planeta. Ninguém o queria, certamente não os palestinos
árabes que placidamente vegetavam em sua pobreza sob domínio turco.
Sua subseqüente indignação à presença judaica
foi artificialmente fomentada por grupos com interesses especiais e pelas máquinas
de propaganda dos países árabes vizinhos. Se os judeus desaparecerem
de Israel, e eles não vão, uma coisa é certa. Os árabes
da Palestina não terão a menor chance de autonomia, considerando
o expansionismo de Egito, Síria, Jordânia e, em menor grau, Líbano.
Disso se pode ter certeza. VEJA - A independência de Israel
consuma a jornada iniciada no século passado pelo pioneiro sionista Theodor
Herzl. Como suas idéias inspiraram os judeus a seguir buscando tal intento?
Ben-Gurion
- Quando eu ainda era criança, Theodor Herzl veio a nossa pequena cidade.
Judeu austríaco e jornalista, Herzl tinha sido tão afetado pelo
anti-semitismo do caso Dreyfus na França que escrevera um livro, The
Jewish State, no qual clamava pela fundação de uma nação
judaica. Ele devotou o que lhe restava de vida a começar o movimento sionista
moderno. Quando ele apareceu em Plonsk, as pessoas o saudaram como um verdadeiro Messias.
Todos passavam dizendo "o Messias chegou", e nós, as crianças,
ficamos muitíssimo impressionadas. Era fácil para um garoto pequeno
como eu ver em Herzl o Messias. Ele era alto, homem de feições finas, cuja
impressionante barba preta descia-lhe largamente até o peito. Uma olhada
nele e eu já estava pronto para segui-lo até a terra dos meus ancestrais.
VEJA - As terríveis memórias do Holocausto precipitaram,
de alguma forma, a criação desse estado judeu sonhado por Herzl? Ben-Gurion
- Nós, judeus da Palestina, assistimos impotentes e em agonia enquanto
nossos irmãos em terras européias – onde muitos temos nossas origens
– eram colocados lado a lado em confusão e terror, despojados de seus pertences,
até da roupa do corpo, para as jornadas rumo às câmaras de
gás, fornos e infernos da fome da "solução final".
Testemunhamos essa renúncia da raça humana e fomos todos marcados
por isso. Senão por nenhuma outra razão que não a de manter
a fé pelos que haviam morrido, sabíamos que não poderíamos
caminhar docilmente para o ossuário. Enquanto Israel viver, sim, oferecerá
refúgio de tal atrocidade. Em nome de nossos mortos oprimidos, temos de
lutar. Se necessário, também nós morreremos. Mas como morreram
os heróis judeus no gueto de Varsóvia, na Jerusalém sitiada
pelos romanos, em Masada: de costas para o muro, sem dar espaço ao inimigo. VEJA
- Mas será possível fazer crescer um país em meio
a um permanente estado de beligerância, como o que Israel enfrenta e deve
enfrentar daqui para frente? Há futuro em meio à tormenta da guerra? Ben-Gurion
- Faço questão de frisar: não nos interessa morrer ou
nos tornar mártires. Os judeus já tiveram o suficiente disso em
sua longa história. Estamos preocupados com a vida, em fazer Israel florescer,
em mostrar a toda a humanidade como se pode criar uma terra farta de um pedaço
de terra erma. Viemos para cá jubilosos e esperançosos, em devoção
a nosso povo, à nossa herança, à nossa antiqüíssima
vocação para contribuir com o bem-estar das pessoas. Onde houve
judeus, a cultura floresceu, a humanidade prosperou. Desejávamos – e ainda
desejamos – contribuir com nossa presença para todo o Oriente Médio.
Sei que um dia nos permitirão fazê-lo. |