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VEJA, maio de 1948

As irmãs nazistas da Grã-Bretanha: Unity (à esq.) e Diana Mitford, convidadas de honra dos súditos de Hitler em Munique

 

MORRERAM: Unity Valkyrie Mitford, uma das famosas irmãs Mitford, em decorrência de meningite. Simpatizante do nazismo e amiga de Adolf Hitler, Unity nasceu em Londres, em uma família de aristocratas britânicos ligada a movimentos de extrema-direita – seu pai, David Freeman-Mitford, barão de Redesdale, foi da União Britânica de Fascistas. Curiosamente, Unity foi concebida numa cidade canadense chamada Swastika ("suástica" em inglês), onde a família tinha negócios no setor de mineração. As cinco filhas do barão ficaram conhecidas pela discórdia familiar – discutida abertamente na imprensa – em torno de suas ideologias políticas. Nos anos que antecederam a II Grande Guerra, se dividiram entre o comunismo e o fascismo. Unity puxou ao pai: com a irmã Diana, visitou a Alemanha nazista e conheceu Hitler, Himmler, Göring, Goebbels e outros chefões do Terceiro Reich. Aos jornais alemães, Hitler disse que Unity era "um perfeito espécime de mulher ariana". Em cartas e artigos, ela pediu a expulsão dos judeus da Grã-Bretanha (e em 1938, mudou-se para a casa confiscada de um judeu em Munique). A inteligência britânica afirmava que Unity era "mais nazista que os nazistas alemães". Quando a Grã-Bretanha declarou guerra a Hitler, em 1939, Unity, então com 25 anos, escreveu uma carta ao führer e deu um tiro na cabeça com uma pistola ornada em pérola – presente do próprio líder nazista. A arma, contudo, fracassou tanto quanto as tropas do Reich na guerra: Unity sobreviveu. Com graves seqüelas neurológicas, teve de retornar à Grã-Bretanha, onde vivia sob os cuidados da mãe. No fim deste mês, foi levada a um hospital de Oxfordshire, pois seu estado de saúde havia se agravado. A bala jamais foi retirada de sua cabeça, já que a cirurgia seria arriscada demais. O inchaço cerebral causado pelo projétil provocou a meningite. Unity tinha 33 anos. Dia 28, em Oban.

 

O correspondente Polk: tiro à queima-roupa e mistério sobre autoria do homicídio

O jornalista americano George Polk, correspondente da rede CBS no Oriente Médio, executado com um tiro à queima-roupa, desferido contra sua nuca. Polk, de 34 anos, cobria a guerra civil da Grécia quando desapareceu, no último dia 9. Em suas reportagens sobre o conflito grego, Polk criticava tanto os comunistas, liderados por Markos Vafiades, como o governo monarco-fascista de Atenas, controlado pelo Exército. Conforme sua viúva, Rea Polk, o repórter estava prestes a revelar um episódio de corrupção envolvendo forças do governo – com apoio dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. O jornalista foi visto pela última vez quando viajava para entrevistar o comunista Vafiades. Uma semana depois, seu corpo foi encontrado num porto grego, com as pernas e braços amarrados. O governo acusou os guerrilheiros esquerdistas pelo assassinato, mas os comunistas culpam o governo – acostumado a praticar tortura e eliminar inimigos – pela execução. Um grupo de jornalistas americanos capitaneado pelo escritor Ernest Hemingway pretende arrecadar dinheiro para custear uma investigação independente do crime. Dia 16, em Salônica.

 

Kathleen Kennedy: vida curta e trágica

• Kathleen Agnes Kennedy Cavendish, socialite e marquesa de Hartington, vítima de um acidente aéreo na região de Ardèche, no sul da França. Kathleen, de 28 anos, era a segunda filha do diplomata americano Joseph Kennedy, que também é pai do deputado John Kennedy, do Partido Democrata. Kathleen cresceu em Massachusetts. Aos 18 anos, quando o pai foi nomeado embaixador americano na Grã-Bretanha pelo então presidente Franklin Roosevelt, Kathleen mudou-se com a família para Londres, onde estudou na Queen’s College e foi eleita a "mais célebre debutante de 1938". Bonita e atrevida, fez sucesso na sociedade londrina. Com o começo da II Grande Guerra, voltou aos Estados Unidos. Em 1943, porém, decidiu retornar à Europa, para trabalhar numa base da Cruz Vermelha. Foi onde conheceu o marquês de Hartington, John Robert Cavendish, com quem se casaria em 1944. Como o noivo era protestante e a família Kennedy é católica, os pais não aceitaram o convite para prestigiar a cerimônia. Só o irmão mais velho, Joseph Kennedy Jr., compareceu. O casamento durou quatro meses: o marquês foi morto em combate na guerra (assim como o irmão Joseph, um mês antes). A bela e jovem viúva continuou no circuito social londrino e tornou-se amante do conde Peter Wenworth FitzWilliam, também protestante. O casal embarcou rumo a Boston para pedir a bênção de Joseph Kennedy para o casamento, mas ambos morreram na viagem, num desastre de avião. Só o pai compareceu ao funeral – a mãe, Rose, não apareceu e ainda pediu aos outros filhos que fizessem o mesmo. Ela desaprovava os planos de Kathleen de se casar mais uma vez fora da religião católica. Dia 13, em Saint-Bauzile.

 

O 'buldogue' Churchill comanda os trabalhos em Haia: pela união dos europeus

FUNDADOS: o movimento pela união da Europa, no Congresso de Haia, na Holanda, com o objetivo de aprofundar a integração dos países europeus. O encontro reuniu 750 delegados de nações do continente, além de observadores do Canadá e dos Estados Unidos. Presidido pelo ex-premiê britânico Winston Churchill, o congresso discutiu idéias para desenvolver um novo tipo de cooperação política na Europa. Figuras de grande relevo – como Harold MacMillan, François Miterrand, Albert Coppé, Konrad Adenauer e Altiero Spinelli – participaram dos debates. A conclusão da histórica conferência foi marcada pelo lançamento de um projeto da união política, econômica e monetária do continente. O congresso também tratou da estrutura e escopo do futuro Conselho da Europa, a ser inaugurado no ano que vem. Dia 11, em Haia.

 

Coréia: líder segura o filho, Kim Jong-il

a República Democrática Popular da Coréia, ou simplesmente "Coréia do Norte", que ocupará metade da Península da Coréia, no leste da Ásia. O novo estado, com governo de doutrina comunista, foi formado como resposta à recente independência da parte sul da península, que formou a República da Coréia. A divisão da península coreana é resultado do embate ideológico entre as esferas de influência americana e soviética, um conflito que vem sendo chamado de "guerra fria" – termo popularizado pelo jornalista e analista político americano Walter Lippmann, autor de um livro intitulado The Cold War, lançado no ano passado. No fim da II Grande Guerra, quando as forças aliadas libertaram a península da dominação japonesa, tanto americanos como soviéticos instalaram tropas na Coréia – e cada lado apoiou a formação de um governo. A porção comunista da terra em disputa já elegeu seu primeiro dirigente: Kim Il-sung, responsável pela formação do Exército Popular da Coréia do Norte, em fevereiro, com farto apoio logístico e material de Moscou. Dia 1º, em Pyongyang.

 

O líder Einaudi: reconstrução italiana

ELEITO: presidente da República da Itália o jornalista, economista e advogado Luigi Einaudi, de 74 anos, do Partido Liberal Italiano. Nascido no Piemonte, Einaudi estudou em Turim, onde tornou-se simpatizante do socialismo. No século XX, porém, adotou uma posição política mais conservadora e foi nomeado senador, ainda na monarquia. Escreveu nos jornais La Stampa e Il Corriere della Sera, além de colaborar com a revista britânica The Economist. Durante a II Grande Guerra, refugiou-se na Suíça. De volta ao país após o fim do conflito, tornou-se governador do Banco da Itália e ministro das Finanças, Tesouro e Balanço, além de vice-premiê. Einaudi é o segundo presidente italiano na era republicana, sucedendo Enrico De Nicola, que ocupava o cargo desde 1946. O novo presidente promete acelerar a reconstrução econômica do país. Dia 11, em Roma.

 

Tito, iugoslavo rebelde: Stalin não gostou

ACUSADOS: de traição o marechal Josip Tito e o governo da Iugoslávia, pelo Partido Comunista da União Soviética. Os vermelhos de Moscou afirmam que os aliados bálticos têm se negado a aceitar as decisões do Cominform, o birô de informação comunista, que reúne os partidos socialistas de todas as nações da esfera de influência soviética. Josef Stalin, peça dominante da organização, encomendou a formação do órgão em decorrência das divergências entre os países em relação à Conferência de Paris, que discutiu o Plano Marshall, em 1947 (leia reportagem nesta edição). Conforme o PC soviético, Tito – antes um dos parceiros favoritos de Stalin – ignora a arbitragem do Cominform para resolver as diferenças entre os dois países. O ditador iugoslavo compartilha a ideologia comunista com o Kremlin. Desde o fim da II Grande Guerra, no entanto, o marechal tem deixado cada vez mais claro que não quer submeter seu poder às ordens de Moscou ou acatar as tentativas de intervenção ou influência da URSS. Muitos observadores estrangeiros já apostam num rompimento definitivo entre Stalin e Tito. Dia 17, em Moscou.

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