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VEJA, maio de 1948
Dirigindo e atuando, o astro britânico Laurence
Olivier estréia seu Hamlet na tela grande, em drama psicológico que
prova mais uma vez a atualidade de William Shakespeare
'Sir' Olivier na pele do príncipe da Dinamarca: efeitos de câmera influenciados pelo 'Cidadão Kane' de Orson Welles

 

uatro anos depois do lançamento do patriótico Henrique V, a primeira transposição de sucesso de uma peça de William Shakespeare para o cinema, o ator, diretor e, desde o ano passado, Sir Laurence Olivier voltou às telas sob os auspícios de mais uma obra do bardo. E desta vez, com Hamlet, o galã de Dorking deve fazer ainda mais barulho do que em sua aclamada película anterior. Não apenas porque o ator Olivier acerta em cheio o ponto da sempre desafiadora interpretação do príncipe dinamarquês que busca vingar o assassinato do pai pelo tio, mas também (e principalmente) por conta das ousadias que o diretor Olivier levou a cabo na adaptação da peça – liberdades que já causam furdunço entre os puristas shakespearianos.

Apresentado em estréia mundial no último dia 4, em Londres, a película, que contou com orçamento estratosférico de 2 milhões de dólares americanos da produtora Two Cities Films, recebeu uma chuva de elogios da crítica e do público da Grã-Bretanha. Hamlet, vale lembrar, não é um desconhecido de Olivier, que já viveu o papel por duas ocasiões na década passada, em peças encenadas no teatro Old Vic e no castelo de Elsinore, na Dinamarca – o cenário real da história – por ocasião do segundo centenário de morte de Shakespeare. Porém, desta vez, coube a Olivier a árdua tarefa de reduzir a complexa trama de quatro horas para um filme de pouco mais de duas, desafio que fatalmente geraria reclamações de gregos e troianos – ou, como é o caso, de muitos tradicionalistas britânicos.

A pergunta fundamental: ser ou não ser?

No processo de enxugamento, o diretor suprimiu os personagens Rosencrantz e Guildenstern, cortesãos amigos do príncipe – o que certamente privou Olivier de interpretar Hamlet em seus momentos mais sarcásticos, vividos justamente nas cenas com a dupla. Fortimbrás, príncipe da Noruega, também desapareceu desta versão, e algumas de suas falas foram transferidas para o personagem de Horácio. O mais importante, contudo, é que a ausência destes três personagens eliminou toda a intriga política do enredo; dessa forma, as atenções ficam inteiramente voltadas para o tema central da peça: a relação entre Hamlet, sua amante Ofélia (interpretada por Jean Simmons), seu tio, Cláudio (Basil Sydney) e sua mãe, Gertrudes (Eileen Herlie, na flor de seus 28 anos, treze a menos do que seu filho na história, o quarentão Olivier). E é essa escolha, em que pesem as reclamações dos puristas, que faz a película funcionar de cabo a rabo. Capturada em preto-e-branco (por razões artísticas, de acordo com o diretor), esta versão de Hamlet calca-se, mais do que qualquer outra, na interpretação psicológica dos personagens, trazida à baila por efeitos e movimentos de câmera influenciados pelas inovações de Cidadão Kane, de Orson Welles (1941). Claustrofóbico, Hamlet traduz fielmente ao espectador os terríveis dilemas enfrentados pelo protagonista – que, prova maior da genialidade de Shakespeare, seguem atuais como se tivessem sido escritos ainda ontem. Afinal, nesta era de tantas incertezas, em que o mundo ainda tenta se recuperar das sandices de alguns de seus dignatários, nos perguntamos se as grandes potências querem ser ou não ser. O resto é silêncio.

 

Hamlet na tela do cinema
Ator, diretor e 'sir', o britânico Laurence Olivier brilha em sua nova adaptação da peça clássica de William Shakespeare
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