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VEJA, maio de 1948
Estudo apresentado por dupla de físicos mostra que a
explosão de um átomo ancestral foi mesmo o começo do universo.
Pode ter sido a maior descoberta científica da história
O começo de tudo: conforme o estudo revolucionário, uma única explosão foi a gênese de toda matéria do universo

 

ete dias, que nada. De acordo com artigo publicado na edição de abril da revista científica Physical Review, a criação do universo aconteceu em apenas cinco minutos – tempo de duração da explosão do átomo ancestral que concentrava as partículas existentes até então, e que originou todos os elementos da matéria atualmente conhecidos. Desenvolvido pelo físico soviético George Gamov e seu pupilo americano Ralph Alpher na Universidade George Washington, nos Estados Unidos, o trabalho surpreendeu a comunidade científica internacional ao demonstrar que a massiva presença de hélio e hidrogênio no universo pode realmente ser explicada pelas condições extremas da sopa primordial de partículas que se verificou logo após o estrondo. Com isso, chega-se ao primeiro indício comprovado de que uma única explosão foi a gênese de toda matéria do universo.

O soviético Gamov: sopa primordial

O primeiro cientista a propor algo semelhante foi o cosmólogo belga Georges Lemaître, duas décadas atrás, que sugeriu a existência de um átomo ancestral ou ovo cósmico. Segundo ele, do dia para a noite, esse átomo teria sofrido uma fissura e explodido, liberando os átomos menores que hoje conhecemos. Essa gênese implicava também, por conta da intensidade da explosão, o conceito de um universo em constante expansão – idéia que se chocava de frente com a opinião então comungada pela maioria dos especialistas, de um universo eterno e imutável. Com isso, seu modelo cosmológico acabou em grande parte descartado pela comunidade científica à época – inclusive pelo emérito Albert Einstein, que chamou a física de Lemaître de “abominável”.

Gamov, porém, acreditava que o universo deveria ter se originado em uma explosão, como descrita pelo estudioso flamengo. E começou estudos visando provar como isso poderia explicar a presença dos diversos elementos químicos que se encontram no universo, inclusive em suas diferentes proporções e concentrações. Reproduzindo o ambiente hipotético imediatamente posterior ao estrondo, seria possível analisar o comportamento das partículas nessa sopa primordial densa e candente, e, em conseqüência, verificar como elas teriam reagido para formar elementos mais pesados. Em especial, essa hipotética fornalha deveria explicar a abundante concentração de hidrogênio e hélio, que compõem mais de 99% da massa bariônica do universo.

Alpher: ele não gostou da brincadeira

Alfabeto grego - Para isso era necessário fazer uma miríade de cálculos nucleares, repassando a linha do tempo do universo de trás para frente, algo em torno de 13 bilhões de anos, até se chegar ao ponto zero da explosão – e levando em consideração a queda de temperatura e densidade verificada durante a expansão da matéria. Essa foi a elementar tarefa de Alpher, doutorando de Gamov e perito em matemática, que levou aos resultados apresentados na Physical Review. Devido ao calor e densidade da sopa primordial (batizada ylem, referência ao termo medieval para “matéria”), os núcleos atômicos colidiam com nêutrons e os capturavam – a captura sucessiva explicaria a formação de elementos mais pesados. Isso aconteceu até o ponto em que o resfriamento do universo impossibilitou a ocorrência dessas reações. Os cálculos do pesquisador não apenas indicam que esse processo teria realmente produzido hidrogênio e hélio em profusão, mas também acertam a proporção de 10 para 1 que se verifica nas estrelas e galáxias.

A extraordinária descoberta foi comemorada pela dupla com uma garrafa de legítimo ylem – na verdade, um licor que teve seu rótulo original removido pelo conhecido piadista Gamov, cujo senso de humor parece realmente não conhecer limites. Graças a ele, o artigo na respeitada Physical Review é assinado por um terceiro cientista, o eminente físico Hans Bethe, que não teve absolutamente nenhuma participação nas pesquisas. Seu nome foi incluído por Gamov apenas para que o trabalho ficasse assinado por Alpher-Bethe-Gamov, alusão graciosa às três primeiras letras do alfabeto grego, alfa-beta-gama. Alpher protestou, argumentando que, por ser o mais desconhecido da trinca, não levaria o crédito merecido pelo trabalho. Mas o mestre soviético deu de ombros. “Não me pareceu justo com o alfabeto grego que o trabalho fosse assinado apenas por Alpher e Gamov”, explicou aos mais próximos. E assim caminha a ciência.

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