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Henrique VIII e Ana Bolena


NESTA EDIÇÃO
Realeza: amor, fé, poder, morte
  Poder e declínio de Ana Bolena
  Rei Henrique VIII: a fúria do leão
Jane Seymour, uma nova rainha
  Mary e Elizabeth, as herdeiras
  A reforma religiosa na Inglaterra
  Entrevista: Erasmo de Roterdã
  A revolução de Martinho Lutero
  Brasil: cotidiano nas capitanias
     
Índice
Perfil
VEJA, Maio de 1536


Depois de mudar os rumos da história inglesa, Ana Bolena é
executada por suposta traição a Henrique VIII. A ousadia e
a ambição eram as marcas registradas da rainha. Mas foi o
ventre incapaz de produzir um filho que selou seu destino

 

lvo de inveja e de admiração em toda a Europa, o esguio e delicado pescoço de Ana Bolena se encontra agora sob a mira do sabre do carrasco francês Jean Rombaud. São 8 horas do dia 19 de maio, e a nata da corte, excitada, se mistura a outros 2.000 espectadores na Torre Verde para assistir à primeira execução pública de uma rainha da Inglaterra. Para indisfarçável frustração da multidão, contudo, a outrora dama indomável, condenada por adultério, incesto e conspiração contra o próprio marido, aceita seu destino resignadamente. Ajoelhada e vendada no cadafalso, louva o rei com obediência e encomenda sua alma para Jesus Cristo. É chegada a hora de o verdugo de Calais cumprir sua tarefa. Ana Bolena, a jovem de beleza exótica que colocou Henrique VIII, a monarquia e o clero de cabeça para baixo,é degolada com um golpe seco, preciso e fatal.

Em que pese trágico, o crepúsculo da rainha não fugiu ao roteiro extraordinário que Ana Bolena protagonizou ao longo de seus 36 anos de vida, despertando amor e ódio e colecionando aliados e desafetos em igual medida. Afinal, ser o centro das atenções sempre foi parte do cotidiano da caçula do diplomata Thomas Bolena e de Lady Elizabeth Howard. Na adolescência, deixou a Inglaterra para se tornar dama de companhia das rainhas Maria e Cláudia, na França. Educada à melhor maneira gaulesa, com especial interesse por literatura, filosofia e moda, destacou-se desde cedo pela forte personalidade: autoconfiante, expressava suas opiniões com astúcia rara para jovens de sua posição. Seu tipo físico não preenchia exatamente o ideal de beleza anglo-saxão, mas o exotismo de sua pele cor de oliva, aliado ao seu charme e estilo, a transformaram numa das damas mais assediadas pelos cavalheiros da corte britânica, para onde voltou em 1522.

Nobres e poetas disputaram ferrenhamente sua atenção, mas quando Henrique VIII começou a demonstrar interesse pela jovem, todos os candidatos entregaram os pontos. Apenas Ana Bolena, para surpresa geral, recusava-se a ceder aos apelos do soberano, que a desejava como amante. A jovem afirmava que se renderia somente a quem a tomasse como esposa. Nos bastidores da corte, ainda se discute se as negativas eram parte de um ambicioso plano de Thomas Bolena para que sua filha se tornasse rainha ou se Ana simplesmente evitava seguir os passos de sua irmã mais velha, Mary, que ganhou o epíteto “a grande prostituta” depois de se tornar amante do rei da França, do próprio Henrique VIII e de mais um punhado de rapazes dos dois lados do Canal da Mancha. De uma forma ou de outra, a rejeição apenas fez o interesse de sua majestade aumentar – e, em 1526, obcecado em desposar a jovem Bolena, pediu a Roma a anulação de seu casamento com a rainha Catarina de Aragão. O conflituoso processo durou seis anos e abalou as estruturas políticas, sociais e religiosas da Inglaterra.

Noiva grávida - Antes mesmo de se tornar oficialmente esposa de Henrique VIII e ser coroada rainha, Ana Bolena já desfilava em eventos públicos com o soberano. E, mais importante do que isso, já consolidara sua notável influência junto ao homem mais poderoso do reino – para azar de seus inimigos, que não podiam ser contados nem mesmo nos dedos da mão de Ana (ainda que fossem seis, e não cinco, graças a uma estranha mutação, conforme alguns relatos de pessoas que a conheceram). Um a um, os antagonistas de Lady Encrenca foram ficando pelo caminho, a começar pelo todo-poderoso cardeal Thomas Wolsey, Arcebispo de York e chanceler do rei. Ana Bolena logrou convencer Henrique VIII de que seu braço-direito estava deliberadamente atrasando as decisões sobre a anulação do casamento; como resultado, Wolsey foi acusado de traição e preso em 1929, morrendo de causas naturais antes de ser julgado. Outros dois influentes conselheiros de sua majestade, John Fisher, Bispo de Rochester, e Sir Thomas More, amigo e confidente de Henrique VIII, também perderam todos os poderes depois de entrar em rota de colisão com a futura rainha. Condenados por traição, acabaram executados sumariamente.

Ana Bolena foi crucial na costura da importante aliança com a França, no início da década de 1530, bem como na adoção de medidas de suporte à reforma religiosa, da qual era entusiasta. O casamento com Henrique VIII finalmente foi celebrado em 25 de janeiro de 1533, com a noiva grávida – os alcoviteiros garantem que Ana só se deixou deflorar poucas semanas antes do matrimônio, quando o processo de anulação já estava praticamente consolidado. A coroação aconteceu alguns meses depois, em 1º de junho, na Abadia de Westminster, em uma festa majestosa, com o casal real radiante pela chegada próxima da criança – que, de acordo com as previsões dos médicos e astrólogos, seria um garoto, o tão esperado herdeiro do trono. Por isso, o nascimento não de um menino, mas da pequena Elizabeth, em 7 de setembro de 1533, foi um balde de cerveja quente na corte dos Tudor – e o início da ruína de Ana Bolena.

Atingida por boatos sobre adultério e apontada como grande culpada pela ruína de Catarina de Aragão – essa, sim, uma rainha amada pelos ingleses –, Ana Bolena já não gozava da aprovação dos súditos, em que pese seu esforço para realizar as tradicionais atividades de uma rainha consorte, como ajudar os pobres, as viúvas e apadrinhar artistas. Também já havia pisado em calos importantes demais. Thomas Cromwell, novo chanceler do rei, foi um dos que entraram em rota de colisão com ela. Mas a incapacidade de gerar um filho de Henrique VIII – antes do aborto de janeiro último, a rainha já sofrera uma interrupção na gravidez em 1534 – lhe foi fatal. Apesar de ter implorado por seu amor durante mais de seis anos, Henrique VIII cansou-se rapidamente da consorte. A deterioração das relações entre a Inglaterra e a França e o desejo de Henrique VIII de costurar uma aliança com Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano e rei da Espanha – mais um desafeto de Ana Bolena – fizeram da rainha um obstáculo no caminho dos interesses da Inglaterra. Não demorou para que os assessores do monarca, liderados por Cromwell, fabricassem um elaborado processo de investigação de conduta moral para derrubá-la. Em questão de meses, Ana Bolena, que escolhera para seu brasão real o lema “A mais feliz” e um falcão coroado com as rosas dos Tudor, caiu como um pardal indefeso na arapuca de Henrique VIII. Suas asas jamais voltariam a bater.

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