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Henrique VIII e Ana Bolena


NESTA EDIÇÃO
Realeza: amor, fé, poder, morte
  Poder e declínio de Ana Bolena
  Rei Henrique VIII: a fúria do leão
Jane Seymour, uma nova rainha
  Mary e Elizabeth, as herdeiras
  A reforma religiosa na Inglaterra
  Entrevista: Erasmo de Roterdã
  A revolução de Martinho Lutero
  Brasil: cotidiano nas capitanias
     
Índice
Especial
VEJA, Maio de 1536


Em apenas um mês, a Inglaterra assiste à decapitação da
rainha e a outro casamento real. Jane Seymour sucede Ana
Bolena com obrigação de dar um varão a Henrique VIII. Enquanto
isso, acirram-se os ânimos entre anglicanos e católicos

 

eforma religiosa, costura de novas alianças políticas, trocas de rainhas e de sucessores monárquicos. Eventos como esses costumam varar décadas e ocupar longos capítulos nas linhas do tempo dos livros de história. Pois a Inglaterra da dinastia Tudor, neste maio de 1536, viveu 31 dias que valeram, numa conta nada hiperbólica, pelo menos por 31 anos de peripécias reais. O casamento entre Henrique VIII e Jane Seymour, na terça-feira, 30, em Londres, coroou um mês recheado de tensões e intrigas entre a monarquia, a nobreza, a plebe e o clero, no qual poder e fé, amor e traição, esperança e morte dançaram de rosto colado. Com a execução da rainha Ana Bolena, o anúncio do fechamento de monastérios, a incerteza sobre a linha sucessória e a crise financeira doméstica,não há dúvidas: o furacão está definitivamente instalado na ilha da Britânia. E apenas quem sobreviver aos rompantes de Henrique VIII – se é que alguém conseguirá tal façanha – poderá atestar se haverá, afinal, bonança depois de tamanha tempestade.

Diante do temperamento absolutamente imprevisível do soberano, a temporada de prognósticos está fechada na Inglaterra. Nem os mais encarniçados opositores de Ana Bolena ousariam apostar numa queda tão vertiginosa e cruel para a rainha consorte mais ativa da história da monarquia. Da mesma forma, o mais criativo fabulista não teria coragem de imaginar um enredo em que uma dama de honra fosse tirada de seu ofício e transformada em rainha num espaço de um mês, como aconteceu com Jane Seymour. E esta terá a obrigação de dar a Henrique VIII seu tão esperado varão – de preferência, em um prazo recorde, já que o parlamento deverá considerar bastardas as herdeiras Mary e Elizabeth, mantendo o rei sem um herdeiro natural. No meio do turbilhão econômico, social e político, há apenas uma certeza: a reforma religiosa que deixou a autoridade papal a ver navios na Inglaterra - e tornou o rei o chefe único da Igreja no país - ainda precisa de muita reza para ser consolidada.


Feiticeira de coroa – Quando 1536 começou, tudo indicava que o ano seria auspicioso para Ana Bolena: sua nova gravidez e a notícia da morte de Catarina de Aragão, em 7 de janeiro, provocaram júbilo no leito real. No final daquele mesmo mês, contudo, a consorte abortou – sua segunda gestação fracassada –, e a ira de Henrique VIII voltou-se contra a esposa. Transtornado com o que considerava uma maldição, o monarca declarou ao chanceler Thomas Cromwell que estava sob o efeito de uma bruxaria quando se casou com a esposa – e o fato de carregar em seu útero duas crias supostamente defeituosas apenas reforçou a crença de que Ana Bolena seria uma feiticeira. Ao mesmo tempo, Henrique VIII estreitava os laços com Jane Seymour, dama de honra da rainha. Era a senha para que Cromwell, braço-direito do rei, desenvolvesse um plano para defenestrar Ana Bolena e abrir caminho para uma nova reprodutora.

Em abril, uma comissão autorizada por sua majestade começou a investigar todos os casos de traição na corte. As declarações de serviçais de que a rainha recebia homens em seus aposentos em horas indevidas serviram para que Cromwell (cujas relações com a consorte estavam azedas por conta de divergências na política externa e na distribuição das posses eclesiásticas) construísse um processo expedito. Acusada de incesto, adultério e conspiração para matar o marido, Ana Bolena foi presa em 2 de maio e despejada na Torre de Londres. A coroa capturou e encarcerou cinco homens que teriam cometido os supostos atos ilícitos: Mark Smeaton, Sir Henry Norris, Sir Francis Weston, William Brereton e George Bolena, irmão de Ana. Apenas Smeaton, sob tortura, confessou; os outros juraram inocência. Dúvidas pairam sobre a lisura e imparcialidade do processo, que condenou o quinteto à morte por traição.

Ana Bolena foi a julgamento no dia 15 de maio, no Grande Salão da Torre de Londres, um dia depois de seu casamento com Henrique VIII ter sido anulado por Thomas Cranmer, Arcebispo de Canterbury. Considerada culpada de todas as acusações, recebeu a sentença de morte da boca de seu tio, o Duque de Norfolk. A comutação da pena de morte na fogueira para decapitação foi uma derradeira cortesia de Henrique VIII - que, entretanto, nem sequer se deu ao trabalho de organizar um funeral para Ana Bolena. Em 19 de maio, dois dias depois da execução de seus pretensos amantes, a rainha finalmente encontrou seu destino final. Cabeça e corpo da antiga consorte repousaram no solo por algum tempo, até serem colocados dentro de um baú de flechas e enterrados em um túmulo sem identificação na Capela de São Pedro, na própria Torre de Londres. Mas não deu tempo nem de o trono da rainha esfriar: em questão de dias, as almofadas reais já acolhiam a formosa Jane Seymour, sucessora de Ana no coração do rei.

Infâmia e pecado – Em 20 de maio – apenas um dia, portanto, depois da execução de Ana -, Henrique VIII anunciava seu terceiro noivado. O casamento foi celebrado no palácio de Whitehall. Mas não houve pressa para a data da coroação da nova consorte, empurrada para outubro – a coroa pode não admitir, mas, neste momento, seu combalido cofre não permitiria nem um terço dos exageros que marcaram as celebrações anteriores. Para que a festa possa estar à altura de sua majestade, Henrique VIII conta com o reforço das riquezas a serem tomadas da Igreja Católica, processo que está em curso desde março e que começa agora a pegar no breu. Líder da igreja na Inglaterra desde a aprovação do Ato de Supremacia pelo Parlamento, em 1534, sua majestade conclamou a Câmara a aprovar o Ato de Dissolução dos Monastérios Menores, que determina o fechamento de pequenas abadias, conventos e outras instituições do gênero. De acordo com levantamento de Thomas Cromwell, elas são palco de conduta imprópria e abominável, com um cotidiano de infâmia e pecado, e devem ter suas terras vendidas e suas riquezas entregues à corte. Seus religiosos serão encaminhados a monastérios maiores para viver de acordo com os preceitos divinos –certamente, um detalhe de pouca importância nesse périplo.

Emérito caçador, Henrique VIII acerta assim dois coelhos com uma só cajadada: não apenas traz fôlego para o tesouro real como também dá outra mostra de sua independência em relação a Roma. Cutucados com vara curta, porém, os católicos não tardaram a reagir. Notícias vindas de York, Lincolnshire e alguns pontos do Norte da Inglaterra dão conta de que fiéis se organizam para combater a reforma religiosa e exigir o restabelecimento dos monastérios – bem como protestar contra a alta dos preços dos alimentos e contra a desmoralização do poder real, que para eles foi minado desde a exclusão de Catarina de Aragão da coroa. Como se essa movimentação já não fosse problema suficiente para Henrique VIII, sua nova escolhida, Jane Seymour, foi criada como pia católica – recebendo, já na corte, conselhos sobre política religiosa de ninguém menos do que Sir Nicholas Carew, um dos líderes da facção conservadora na Inglaterra. Mas poucos acreditam que a nova rainha, dócil e inofensiva – muito diferente da finada Ana -, tente interferir nos assuntos do rei.  Se tiver juízo, não o fará – a não ser que queira se tornar mais uma página virada no extenso livro de amantes de Henrique VIII.

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