Veja na História
ENTREVISTA: ERASMO DE ROTERDÃ
 Maio de 1536
Henrique VIII e Ana Bolena

O rebanho se dispersa

Teólogo critica os excessos de Roma, mas também os de Martinho Lutero - e vê nuvens negras no horizonte europeu por causa das discussões religiosas, já que 'cada um dos lados continua a defender amargamente seus próprios exageros'


Aos 70 anos, o teólogo e humanista Erasmo de Roterdã já não anda tão ativo como antigamente – está retirado na Basiléia, na Suíça –, mas continua mantendo a liberdade intelectual que caracterizou toda a sua consagrada carreira. O acadêmico que recusou posições em todas as nações da Europa e em Roma para não perder sua independência – o papa Paulo II lhe ofereceu até mesmo o chapéu cardinalício – segue com suas críticas severas a respeito dos excessos da igreja e também de Martinho Lutero. Com este antagonista, aliás, o holandês travou embates teóricos avidamente seguidos pelo público – ainda que, para muitos, tenham sido as ideias de Erasmo o ponto de partida para a reforma religiosa que Lutero desencadeou na Europa. Nesta entrevista, o autor de O Elogio da Loucura critica o radicalismo nas discussões religiosas e prevê que a questão ainda trará muitos problemas para as nações europeias.

Apesar de ser profundamente ligado ao ideário cristão, o senhor tem sido uma das vozes mais críticas à Igreja. Onde acha que o clero está pecando?
Desde os tempos antigos, a Igreja de Cristo, que carrega bons e maus peixes na mesma rede, sofre com grandes falhas, e isso é inevitável. Mas duvido que os príncipes da igreja já tenham demonstrado um apetite tão grande e descarado pelas boas coisas do mundo, que Cristo nos ensinou a desprezar, quanto nos dias de hoje. A ruptura não é menor no estudo das Sagradas Escrituras do que na moralidade. A palavra de Deus foi forçada a se tornar escrava dos apetites humanos, e a fé da multidão foi distorcida para o lucro de alguns poucos. Com efeito, o principal objetivo dos nossos Ilustríssimos e Reverendíssimos consiste em viver alegremente, e, quanto ao rebanho, que dele cuide Jesus Cristo.

Mas então Lutero não estaria correto em seus questionamentos e em sua ruptura com Roma?
Bem, essa foi a razão primeira pela qual Lutero teve uma recepção tão favorável em alguns lugares. Acreditamos imediatamente no que desejamos que seja verdade, e as pessoas pensaram que havia aparecido um homem que se estava se levantando contra tudo isso e que poderia aplicar algum remédio contra esse grande mal. Mas uma primeira olhada no panfleto que apareceu assinado por Lutero me deixou com medo: sua movimentação poderia acabar em confusão e rachar o mundo em dois. Então mandei algumas cartas de aviso para o próprio Lutero e para amigos que, pensava eu, poderiam influenciá-lo. Não sei qual o conselho que eles lhe deram, mas a situação foi manejada de tal forma que há sério risco de que os remédios – aplicados de forma errada – simplesmente venham a dobrar nossos problemas.

Quais são os problemas, e quais podem ser a consequências desta discussão?
Um lado vem tendo um lucro considerável com confissões e reparações, sobrecarregando maravilhosamente a consciência do homem. Este equívoco foi rebatido pelo outro lado com a afirmação de que a confissão é uma invenção de satanás – e o mais moderado deles afirma que a confissão não é obrigatória e que não é preciso pagar os pecados, pois Cristo já pagou a pena por todos os pecados. Um lado chega ao ponto de dizer que as ordens dos pequenos monges são a lei, sua obediência oferece a vida eterna, e sua desobediência será punida com o fogo do inferno; e o outro lado iguala esta extravagância ao dizer que todos os decretos dos papas e bispos são heréticos e anticristãos.

Parece formar-se um abismo cada vez maior...
Sem dúvida. Um lado extrapola o poder do pontífice acima de toda a razão, enquanto o outro fala dele em termos que eu não ouso repetir. Foi do conflito dessas visões exageradas que nasceram os raios e trovões que agora abalam o mundo. E se cada um dos lados continua a defender amargamente seus próprios exageros, vejo se aproximando uma luta como a que aconteceu entre Aquiles e Heitor: como ambos eram implacáveis, apenas a morte podia decidir a questão.

Quem está com a razão, afinal?
Peço a vocês que considerem se é razoável condenar a opinião de tantos mestres da igreja, cujo consenso vem sendo aprovado há tantos séculos, por tantas pessoas. É comum dizer que o único jeito de consertar um graveto torto é forçá-lo na direção seguinte. Isso pode ser verdade na correção da moral, mas, na questão da doutrina, não acredito que funcione.

Bibliografia: O Elogio da Loucura, 1508; Carta a Justus Jonas, 1521; Diatribe sobre o Livre Arbítrio, 1524