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Descobrimentos
VEJA, 1° de julho de 1501
Tratado de Tordesilhas garante a Portugal plenos direitos
sobre a terra descoberta por Cabral
erra de Santa Cruz é nossa. Tudo graças ao saudoso
rei dom João II, conhecido como "Príncipe Perfeito",
que governou o país de 1481 até sua morte, há
seis anos, em 1495, em circunstâncias misteriosas. Com uma
visão geopolítica à frente de seu tempo e grande
habilidade diplomática, foi ele quem bateu o pé, nas
conversações com a Espanha, para estender, a nosso
favor, a linha divisória que definiu as áreas de influência
de portugueses e castelhanos no vasto mundo ainda em grande parte
por descobrir exatamente a 370 léguas a ocidente do
Arquipélago de Cabo Verde. O Tratado de Tordesilhas, assinado
em 1494, reza que as terras situadas a oeste da linha pertencem
aos espanhóis e as que estão a leste são de
Portugal. A terra descoberta pela expedição comandada
por Pedro Álvares Cabral está nesse último
caso. Não fosse a persistência de dom João II,
o acordo teria sido assinado nos termos propostos pelos reis Isabel
e Fernando com o meridiano a apenas 100 léguas dos
Açores ou de Cabo Verde e neste momento teríamos
de nosso apenas o mar. Negociado diretamente entre Portugal e Espanha,
o Tratado de Tordesilhas é o responsável pela paz
entre os dois países, que estava ameaçada desde que
se tornou necessário dividir o mundo como uma laranja.
Durante
toda a década de 80, a grande questão foi em que sentido
deveria ser passada a faca. Se no horizontal, como queriam os portugueses,
ou no vertical, reivindicação dos espanhóis.
O Tratado de Alcáçovas-Toledo, assinado em 1479-80,
refletia, de certa forma, o desejo de Portugal. Pelo acordo inicial,
pertenceriam à Espanha todas as terras encontradas ao norte
das Ilhas Canárias (veja os mapas acima). Foi o primeiro
tratado do gênero que regulamentava a posse de terras ainda
não descobertas. A Portugal interessava basicamente garantir
direitos sobre a parte sul do Mar Oceano, na presunção,
que se revelou acertada, de que por ali se conseguiria a passagem
para as Índias.
A abertura dessa rota de comércio tem sido a prioridade de
Portugal desde os tempos do infante dom Henrique. Nos anos 80 estudavam-se
duas possibilidades de chegar às Índias. Uma, pelo
sul, contornando a África. A outra, navegando em direção
ao poente, contornando o mundo. Ao chegar ao Cabo da Boa Esperança,
em 1488, o heróico Bartolomeu Dias convenceu dom João
II de que a alternativa mais rápida era a primeira. No dia
em que o navegador, em audiência com o rei, lhe explicou as
vantagens dessa rota, desenhando o caminho numa carta náutica,
estava no palácio outro grande marinheiro, o defensor mais
ardoroso da teoria contrária: o genovês Cristóvão
Colombo. A partir do momento em que dom João II se definiu
pelo projeto de Bartolomeu Dias, Colombo abandonou Portugal. Foi
para a Espanha, que financiou seu projeto (veja
reportagem). Em 1492, navegando na direção
proposta por ele, descobriu as ilhas Fernandina, Isabela, Juana
e Hispaniola. Contra todas as evidências, acreditava ter chegado
ao rico Oriente, e disso convenceu os monarcas espanhóis,
que passaram a empenhar seus consideráveis esforços
em garantir todas as terras da banda ocidental do Mar Oceano.
O
descobrimento de Colombo provocou uma reviravolta na divisão
do mundo que havia sido feita até então. Por um motivo
simples: pelo Tratado de Alcáçovas, em vigor até
aquele momento, as ilhas estavam em território português,
já que se situavam ao sul das Canárias. Consciente
disso, dom João II reivindicou a posse das terras. Os reis
da Espanha partiram para o contra-ataque usando a arma que tinham:
sua influência no Vaticano. O papa Alexandre VI, espanhol
de nascimento, deve favores ao rei Fernando de Aragão. A
pedido dele e de sua intrépida mulher, a rainha Isabel de
Castela, a grande patrocinadora de Colombo, o papa emitiu dois documentos,
as chamadas bulas Inter-Coetera I e II. Elas dividiam as áreas
de influência, com um claro favorecimento a seus conterrâneos
(a partilha provocou o sarcástico comentário do rei
Luís XII, da França: "Em que artigo de seu testamento
Adão repartiu a Terra entre portugueses e espanhóis?"
A segunda bula alexandrina estabelecia uma linha vertical a 100
léguas das Canárias como nova demarcação
divisória do mundo.
Dom
João II, mais uma vez, não se dobrou. Continuou sua
estratégia de expressar o descontentamento de Portugal. Preparou-se
ostensivamente para uma possível guerra e se aproximou da
França, em disputa com a Espanha. De tanto pressionar, a
Espanha aceitou negociações diretas, retomadas em
1494, quando dom João II fez sua reivindicação:
concordava com a substituição da linha horizontal
pela vertical, desde que esta se situasse a 370 léguas do
Arquipélago de Cabo Verde. A justificativa: devido à
impossibilidade de contornar a África em direção
das Índias fazendo navegação costeira, era
necessário um espaço de manobra para as naus. A Espanha
acabou assinando o tratado graças a algumas compensações
dadas por Portugal e ao relatório de Cristóvão
Colombo, que voltava de sua segunda viagem asseverando que dificilmente
haveria novas terras no espaço entre 100 e 370 léguas.
Assim, o tratado foi assinado na cidade espanhola de Tordesilhas,
em 7 de junho. É possível que ainda haja terras por
descobrir do lado espanhol da divisão, mas por enquanto Tordesilhas
joga a favor de Portugal.
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