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Trabalho
VEJA, 1° de julho de 1501
Apertados, com mantimentos escassos e mal conservados,
os marinheiros enfrentam viagens longas e difíceis
vida
nos navios que partem para alto-mar é muito dura. Oficiais
e marinheiros espremem-se em espaços exíguos, enfrentam
os perigos dos mares desconhecidos e padecem de doenças terríveis.
A principal causa de mortalidade, além dos naufrágios,
é o mal das gengivas, um flagelo das tripulações.
Depois de algumas semanas no mar, as gengivas incham e começam
a apodrecer, exalando um odor insuportável. Às vezes,
é preciso cortar a carne apodrecida antes que o inchaço
cubra os dentes e leve o doente à morte sem conseguir
mastigar, os infelizes definham de fome. A tripulação
se ressente da falta de alimentos frescos. Os oficiais têm
permissão para embarcar animais vivos, como galinhas, cabritos
e porcos, mas essa carga geralmente é consumida nos primeiros
dias de viagem. A partir daí, a principal comida a bordo
são os biscoitos da regra, feitos de farinha de trigo e centeio.
Cada tripulante tem direito geralmente a 400 gramas diários
de biscoito, a ração básica de sobrevivência
no mar.
 A
má conservação dos alimentos é um problema
grave. Armazenada em paióis pouco arejados, quentes e úmidos,
a comida apodrece rapidamente. Os navios vivem infestados de ratos,
baratas e carunchos. Insetos e vermes disputam com os homens o alimento
escasso e comprometem as já precárias condições
de higiene. Os temperos fortes são usados para disfarçar
o gosto dos alimentos deteriorados. Peixes frescos são uma
raridade além de difíceis de pescar em alto-mar,
a tripulação prefere não gastar o pouco alimento
disponível como isca de resultados incertos. As refeições
são preparadas num fogão a lenha existente no convés
e cuidadosamente vigiado para evitar incêndios. À noite
e durante as borrascas, os fogões ficam apagados. A água,
transportada em grandes tonéis, também apodrece pelo
acúmulo de algas e parasitas. Quando ela escasseia, nas longas
viagens, o racionamento aumenta e cozinha-se com água do
mar. Talvez venham daí as febres e diarréias que atormentam
a todos. Essas doenças não só minam o corpo
como entorpecem a mente. Suspeita-se que uma diarréia intermitente
tenha contribuído para os delírios do grande almirante
Cristóvão Colombo, que ultimamente deu até
para duvidar que o mundo é redondo, atribuindo-lhe, ao contrário,
o formato de uma "teta de mulher", conforme escreveu em arrebatada
carta enviada à piedosíssima rainha Isabel de Castela.
Os
navios funcionam como organizações militares, com
hierarquia e tarefas bem definidas, o que não tem impedido
motins e rebeliões. Não é só a marujada
ignara que se subleva nos momentos de desespero. Na viagem de volta
das Índias, a tripulação da frota de Vasco
da Gama estava tão devastada pelas doenças e pela
exaustão que até os mestres e pilotos pediram ao almirante
que retornasse à terra (numa reação típica
de seu temperamento irascível, Gama prendeu os pilotos e
assumiu ele mesmo o comando da navegação). A elite
da tripulação é composta de representantes
da nobreza e profissionais altamente especializados na arte de navegar.
O posto mais alto é o do capitão-mor. Depois vêm
o mestre e o contramestre, responsáveis pela contratação
dos marujos e pela rotina de bordo. O piloto é o comandante
das operações náuticas. Deve conhecer a posição
do navio o tempo todo, definir seu curso, saber ir e retornar em
segurança. O escrivão, representante direto da coroa,
encarrega-se de fazer os relatos da viagem e os registros no livro
de contabilidade. Agora, com a expansão da empresa das navegações,
já começam a ser sistematicamente embarcados os representantes
da Igreja. Eles prestam assistência espiritual à tripulação
e viajam imbuídos da missão de propagar os ensinamentos
cristãos entre os bárbaros e infiéis das novas
terras, tarefa na qual até agora têm obtido pouco sucesso.
O
restante da tripulação é dividido em três
categorias. Os marinheiros são profissionais do mar com experiência
em viagens anteriores. Nesse grupo estão os carpinteiros,
calafates, tanoeiros, meirinhos, despenseiros, cozinheiros e bombardeiros.
Os grumetes são aprendizes de marinheiros, novatos de primeira
viagem. Aprendem a içar e recolher as velas, operar as bombas
para drenar o navio e outras rotinas náuticas. Os que mostram
aptidão são promovidos a marinheiros. Por fim, há
os pajens, menores embarcados que servem os oficiais de bordo. Limpam
as cabines, arrumam a mesa, servem as refeições e
cantam hinos religiosos. Também cabe aos pajens virar a cada
meia hora a ampulheta, o relógio de areia que marca as jornadas
de trabalho a bordo e o progresso do navio durante a viagem. Os
navios levam ainda a gente de guerra, os soldados equipados com
os canhões que tanto efeito causam no além-mar.
Só
os oficiais têm aposentos próprios. A maioria da tripulação
vive esparramada pelo convés e dorme em lugares improvisados.
Expostos ao sol, ao frio e à chuva, muitos marinheiros morrem
de doenças pulmonares. Não há banheiros. As
necessidades são feitas diretamente no mar, com a ajuda de
pequenos assentos pendurados sobre a amurada. O uso de urinóis
à noite e durante as tempestades aumenta a pestilência
a bordo. O responsável pelos raros cuidados com a higiene
da tripulação é o barbeiro. Seu estojo é
composto de seis navalhas, duas pedras de limar, duas tesouras,
dois espelhos, dois pentes, uma bacia de barbear e outra para se
lavar. Também inclui apetrechos parar curar feridas e uma
farmácia de bordo com ungüentos, óleos aromáticos,
purgantes, água destilada e ervas medicinais. A função
do barbeiro é tão importante que ele é dos
poucos tripulantes com o privilégio de dividir a mesa de
jantar com o capitão e o piloto.
Na longa solidão dos mares, as viagens são intermináveis
e tediosas. O jogo de cartas constitui uma das poucas atividades
de lazer a bordo, mas é malvisto pelos padres. Embora seja
muito pequeno o número dos tripulantes instruídos
nas letras, os padres também se opõem à leitura
de livros profanos. Em seu lugar, distribuem obras que contam histórias
de santos. A atividade religiosa a bordo é intensa. Os padres
promovem rezas, ladainhas e representações teatrais
de episódios religiosos, como o Mistério da Paixão.
A adesão da tripulação é entusiasmada.
Desde tempos imemoriais, os marinheiros demonstram grande fervor
religioso, quando não superstição pura e simples.
Sua profissão de alto risco explica esse apego.
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