|
Descobrimentos
VEJA, 1° de julho de 1501
Escrivão renomado, Pero Vaz de Caminha põe
beleza, admiração e confiança no relato
de uma viagem sem par
 |
| O brasão da família Caminha:
morte cruel em Calicute |
Muitos
caminhos e muitas terras estão sendo visitados pela primeira
vez nestes tempos. Nenhum contou com descrição mais
primorosa e admiração mais explícita do que
Santa Cruz, a terra que o capitão Pedro Álvares Cabral
descobriu e à qual seu escrivão, Pero Vaz de Caminha,
deu vida em sete folhas de papel cobertas de escrita miúda.
A visão do Monte Pascoal e, depois, dia a dia, o contato
dos portugueses com a terra desconhecida são descritos com
tal riqueza e profusão de detalhes que, ao fim, Caminha pede
ao rei perdão "se a algum pouco alonguei". Não precisava
nada é demais sobre esse lugar tão estranho,
com sua gente nua e pintada.
Natural
do Porto, Pero Vaz vem de família burguesa de boa cepa. Escrivão,
filho de escrivão, cuidava no Porto de anotar as taxas e
os impostos devidos ao Tesouro do reino, como mestre da Balança
da Moeda. Fiel servidor e cavaleiro dos últimos três
reis, aos 50 anos, já avô, viu-se convocado pelo atual
soberano para escrivão da nau de Cabral (cada navio tinha
o seu, para anotar receita, despesa e falecimentos). Quando a expedição
chegasse a termo na Índia, deveria ocupar o mesmo posto na
feitoria portuguesa em Calecute. A missão acabou em tragédia.
Ao cabo de três mesec, a feitoria foi atacada e seus 50 ocupantes,
entre eles Pero Vaz de Caminha, massacrados diante dos olhos do
capitão Cabral, ancorado a pouca distância dali. Caminha
morreu sem saber que, em reconhecimento a seu valor, dom Manuel
decidiu acatar o pedido anotado nas últimas linhas
perdoar e dar por encerrado o exílio de seu genro Jorge de
Osório. Leia a seguir os trechos mais importantes da carta
sobre o descobrimento da nova terra, avistada pela primeira vez
na quarta-feira, 22 de abril de 1500:
"À
quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos até
meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras
em direito da boca dum rio. E dali houvemos vista de homens, que
andavam pela praia, obra de sete ou oito. E o capitão mandou
no batel, à terra, Nicolau Coelho, para ver aquele rio. E
tanto que ele começou para lá ir, acudiram pela praia
homens, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio,
eram ali dezoito ou vinte homens, pardos, todos nus, sem nenhuma
coisa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos
e suas setas. Vinham todos rijos para o batel e Nicolau Coelho lhes
fez sinal que pusessem os arcos; e eles os puseram. Ali não
pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por
o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma
carapuça de linho, que levava na cabeça, e um sombreiro
preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas de aves compridas
com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas, como de papagaio.
E outro lhe deu continhas brancas, miúdas.
A
feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados,
de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma
cobertura, nem estimam nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas.
E estão acerca disso com tanta inocência como têm
em mostrar o rosto. Traziam ambos os beiços debaixo furados
e metidos por eles ossos de osso branco. Os cabelos seus são
corredios, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas.
E um deles trazia uma maneira de cabeleira de penas de ave amarela,
mui basta e mui cerrada. O capitão, quando eles vieram, estava
assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado,
e bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço.
E nós outros, que aqui na nau com ele imos, assentados no
chão por essa alcatifa. Entraram e não fizeram nenhuma
menção de cortesia nem de falar ao capitão
nem a ninguém. Porém, um deles pôs olho no colar
do capitão e começou de acenar com a mão para
a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra
ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo
acenava para a terra e então para o castiçal, como
que havia também prata.
Deram-lhes
ali de comer pão e pescado cozido, confeitos, mel e figos;
não quiseram comer daquilo quase nada. E alguma coisa, se
a provaram, lançavam-na logo fora. Troxeram-lhes vinho por
uma taça, mal lhe puseram assim a boca e não gostaram
dele nada, nem o quiseram mais. Trouxeram-lhes água, tomaram
dela bocados e não beberam. Somente lavaram as bocas e lançaram
fora. E então estiraram-se assim de costas na alcatifa, a
dormir, sem ter nenhuma maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais
não eram fanadas e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas.
O capitão lhes mandou pôr às cabeças
coxins e o da cabeleira procurava assaz por a não quebrar.
E lançaram-lhes um manto em cima e eles consentiram e dormiram.
Ao
sábado pela manhã, mandou o capitão Nicolau
Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles
dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou
dar camisas novas e carapuças vermelhas e dois rosários
de contas brancas de osso, que eles levavam nos braços. E
mandou com eles para ficar lá mancebo degredado, a que chamam
Afonso Ribeiro, para andar lá com eles e saber de seu viver
e maneira; e a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim
direitos à praia. Ali acudiram logo obra de 200 homens, todos
nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós
levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pusessem os arcos
e eles os puseram e não se afastavam muito. E, mal puseram
seus arcos, então saíram os que nós levávamos
e o mancebo degredado com eles. Ali andavam entre eles três
ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos
muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas
tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das
cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos
nenhuma vergonha.
Ao
domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão
de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu,
a qual disse o padre frei Henrique. Enquanto estivemos à
missa e à pregação, seriam na praia outra tanta
gente, pouco mais ou menos como os de ontem, com seus arcos e setas,
os quais andavam folgando e olhando-nos, e assentaram-se. Neste
ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, espraia
muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Foram
alguns, em nós aí estando, buscar marisco e não
o acharam. E acharam alguns camarões grossos e curtos, entre
os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que
em nenhum tempo o vi tamanho.
Andamos
por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água
e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas não muito
altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos
deles muitos. E além do rio andavam muitos deles, dançando
e folgando uns ante outros, sem se tomarem pelas mãos, e
faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diego Dias,
que é homem gracioso e de prazer, e levou consigo um gaiteiro
nosso. E eles folgavam e riam e andavam com ele mui bem, ao som
da gaita.
À
segunda-feira, depois de comer saímos todos em terra a tomar
água. Ali vieram então muitos, mas não tantos
como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos e estiveram
assim um pouco afastados de nós. E depois, poucos e poucos,
misturaram-se conosco e abraçavam-nos e folgavam e alguns
deles se esquivavam logo. Neste dia, os vimos de mais perto e mais
à nossa vontade, por andarmos todos quase misturados. E o
capitão mandou àquele degredado Afonso Ribeiro e a
outros dois degredados que fossem andar lá entre eles. Foram
a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez
casas, as quais diziam que era tão comprida cada uma como
esta nau capitânia. E eram de madeira, e das ilhargas, de
tábuas, e cobertas de palha. Tinham dentro muitos esteios
e de esteio a esteio uma rede, em que dormiam, e, debaixo, para
se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas
pequenas, uma em um cabo e outra no outro. E diziam que, em cada
casa, se acolhiam trinta ou quarenta pessoas e que assim os achavam
e que lhes davam de comer daquela vianda que eles tinham, a saber:
muito inhame e outras sementes, que na terra há, que eles
comem. E, como foi tarde, fizeram-nos logo todos tornar e não
quiseram que lá ficasse nenhum.
À
terça-feira, depois de comer, fomos em terra dar guarda de
lenha e lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, obra de
sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram-se
logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos,
que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E enquanto nós
fazíamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande cruz
dum pau que se ontem para isso cortou. Muitos deles vinham ali estar
com os carpinteiros e creio que o faziam mais por verem a ferramenta
de ferro, com que a faziam, que por verem a cruz, porque eles não
têm coisa que de ferro seja.
À
quarta-feira não fomos em terra, porque o capitão
andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e
fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. À
quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo quase pela manhã
e fomos em terra por mais lenha e água. Andariam na praia,
quando saímos, oito ou dez deles e daí a pouco começaram
de vir; e parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos
ou quatrocentos e cinqüenta. Comiam conosco do que lhes dávamos
e bebiam alguns deles vinho e outros o não podiam beber,
mas parece-me que se lho avezarem, que o beberão de boa vontade.
E andavam já mais mansos e seguros entre nós do que
nós andávamos entre eles.
Quando
saímos do batel, disse o capitão que seria bom irmos
direitos à cruz, e que nos puséssemos todos em joelhos
e a beijássemos, para eles verem o acatamento que lhe tínhamos.
E assim o fizemos. E esses dez ou doze que aí estavam, acenaram-lhes
que fizessem assim e foram logo todos beijá-la. Parece-me
gente de tal inocência que, se os homens entendessem e eles
a nós, que seriam logo cristãos, porque eles não
têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece.
Eles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca,
nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária,
que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse
inhame que aqui há muito e dessa semente e frutos que a terra
e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e
tão rijos e tão nédios, que o não somos
nós tanto com quanto trigo e legumes comemos.
E
hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã,
saímos em terra com nossa bandeira e fomos desembarcar acima
do rio, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz para ser
melhor vista. Chantada a cruz com as armas e divisa de Vossa Alteza,
que lhe primeiro pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali
disse missa o padre frei Henrique. Ali estiveram conosco a ela obra
de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos em joelhos,
assim como nós.
Esta
terra, Senhor, me parece que será tamanha, que haverá
nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa; traz ao
longo do mar grandes barreiras, e a terra muito cheia de grandes
arvoredos; é toda praia muito formosa. Nela até agora
não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma coisa
de metal, nem de ferro. Porém, a terra, em si, é de
muito bons ares. Águas são muitas, infindas. E em
tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á
nela tudo por bem das águas que tem. Porém, o melhor
fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta
gente.
E
nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta
vossa terra vi. E, se a algum pouco alonguei, Ela me perdoe, que
o desejo que tinha de vos tudo dizer mo fez assim pôr pelo
miúdo. E, pois que, Senhor, é certo que assim neste
cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço
for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela
peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da
Ilha de São Tomé Jorge de Os&oacete;rio, meu genro,
o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo
as mãos de Vossa Alteza.
Deste
Porto Seguro, de vossa ilha da Vera Cruz, hoje sexta-feira, primeiro
dia de maio de 1500."
|