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Descobrimentos
VEJA, 1° de julho de 1501
Gentil no trato, o capitão Cabral também
usa a força e traz saldo positivo da viagem às Índias
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| O brasão dos Cabral: família
de guerreiros |
Aos 32 anos, fidalgo de maneiras elegantes, alto como seu pai,
o famoso "gigante da Beira", o capitão-mor Pedro Álvares
Cabral trouxe da longa missão diplomático-comercial
(um ano e três meses no mar) resultado positivo, apesar de
consideráveis percalços. Ele refez a rota desbravada
por Vasco da Gama para as Índias, de passagem descobriu a
formidável terra desconhecida nos confins do Mar Oceano e
instalou o primeiro entreposto comercial nas bandas do Oriente.
Não conseguiu, porém, estabelecer a feitoria que inaugura
o intercâmbio comercial entre a Europa e as Índias
por via marítima no riquíssimo reino de Malabar, como
era o objetivo principal. Ao contrário, as relações
com Calicute, capital de Malabar, parecem arruinadas por graves
incidentes que deixaram pilhas de cadáveres dos dois lados.
O saldo da missão reflete a própria personalidade
do capitão. Fidalgo de fino trato, ele se desdobrou para
cumprir as instruções do rei dom Manuel no sentido
de sempre dar "boas mostras de si e da armada", procurando soluções
diplomáticas em situações complicadas. Numa
demonstração de delicadeza d'alma rara entre navegadores
de todas as estirpes, chegou a mandar cobrir os nativos de Santa
Cruz que, durante a escala na terra recém-descoberta, pegaram
no sono a bordo de sua nau, protegendo-os da brisa noturna. Homem
de armas por formação, recorreu à diplomacia
dos canhões quando julgou necessário.
O
uso da força, mesmo em missões de caráter diplomático
ou comercial, é de praxe. Nos treze navios da esquadra que
comandou, Cabral levou um verdadeiro exército. Eram 1.200
homens, a maior parte gente de guerra. Mesmo com a armada consideravelmente
reduzida (uma embarcação desapareceu, outra foi mandada
de volta a Portugal com a notícia do descobrimento de Santa
Cruz e quatro naufragaram a caminho do Cabo da Boa Esperança),
Cabral fez uso dos canhões a partir das escalas na costa
oriental da África. Os primeiros alvos foram duas naus supostamente
mouras e logo aprisionadas os muçulmanos do norte
da África são inimigos tratados a bala por Portugal.
Uma gafe. As naus eram, na verdade, de Melinde, cidade africana
onde Vasco da Gama havia sido muito bem recebido na viagem anterior.
Restou a Cabral pedir desculpas. O capitão e sua frota chegaram
ao destino principal da viagem, Calicute, em 13 de setembro do ano
passado, disparando salvas de tiros de canhão. A idéia
era intimidar o samorim, como é chamado o rei desse rico
pedaço das Índias. Inicialmente, funcionou. O soberano
de Calicute aceitou enviar reféns à frota portuguesa
como garantia de que uma delegação encabeçada
por Cabral poderia desembarcar para tratar de negócios, sem
risco de vida. Vestindo seus melhores trajes e até com jóias
emprestadas, para impressionar a nobreza da terra, os emissários
recém-chegados realizaram o primeiro contato oficial. Depois
de muita insistência, o soberano acabou concordando com a
instalação de uma feitoria na cidade. A aparente cordialidade,
no entanto, não evitou um boicote. Durante os três
meses em que os seis navios portugueses permaneceram parados no
Porto de Calicute, apenas dois foram carregados com especiarias.
Espertamente, o samorim alegou que a culpa era dos mercadores mouros
havia muito instalados nas Índias, aborrecidos com a concorrência.
Para lhes dar uma lição, Cabral resolveu apreender,
saquear e bombardear uma nau mourisca que estava parada no porto.
A represália não tardou. A feitoria portuguesa foi
invadida, com saldo de cinqüenta mortos, incluindo seu chefe,
Aires da Cunha (o filho dele, Antonio, de 12 anos, escapou por pouco),
e o escrivão Pero Vaz Caminha. A reação de
Cabral ao trágico massacre veio com força total. A
frota portuguesa recebeu ordens de atacar dez naus mouras, fundeadas
no porto, deixando cerca de 600 mortos. De quebra, bombardeou Calicute,
destruindo parcialmente a cidade, com seus belos e frágeis
palácios. Até o samorim, com sua corte, precisou fugir
do canhonaço. Cabral mostrou força, sem dúvida,
mas fechou uma porta para o comércio.
Para
salvar a empreitada, Cabral seguiu rumo aos reinos vizinhos de Cochim
e Cananor, inimigos de Calicute. A tática de explorar as
rivalidades locais deu certo. Foi nesses reinos que a missão
portuguesa estabeleceu relações comerciais, abrindo
finalmente as portas do comércio com as Índias e suas
perspectivas tão promissoras. Mesmo desfalcada, a frota de
Cabral está voltando dessa primeira viagem abarrotada de
especiarias canela, gengibre e, principalmente, pimenta.
Financeiramente, o capitão conseguiu com isso o saldo mais
positivo da missão. O valor da quantidade de especiarias
transportadas é suficiente para pagar três vezes o
custo da viagem. E isso, afinal, é o que interessa.
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