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Descobrimentos
VEJA, 1° de julho de 1501
Retorno da Nau do capitão- mor Cabral confirma o achamento
de terra imensa do outro lado do Mar Oceano
ma
terra imensa, coberta de matas verdejantes e cortada por rios de
água muito doce, habitada por gente boa e inocente, que gosta
de festa, de música e anda nua, exceto por magníficos
enfeites de plumas, tão multicoloridos quanto os papagaios
que voam entre os grandes arvoredos. Foi esse o mundo novo que se
descortinou diante dos olhos da esquadra do capitão-mor Pedro
Álvares Cabral no dia 22 de abril do ano passado. É
essa a extraordinária notícia confirmada em detalhes
na última terça-feira, 23 de junho, quando o navio
do comandante embicou no porto de Lisboa. Gasta depois de tão
longa viagem, velas esfarrapadas, tripulação pouca,
a nau retornada trazia a boa nova e valorosos sobreviventes da armada
que o rei dom Manuel mandou para as terras das Índias há
mais de um ano. Ao entrar na Ribeira das Naus, entre os gritos de
alegria da população, o capitão Cabral concluiu
com sucesso a primeira missão militar-comercial de grande
porte despachada pela Europa à rica Calicute e outras cidades
das Índias. Mais extraordinário ainda foi receber
de volta o comandante do descobrimento de uma terra desconhecida,
um mundo virgem e pagão nas misteriosas bandas ocidentais
do Mar Oceano.
 Após
o descobrimento, Cabral mandou de volta a Lisboa um de seus capitães,
Gaspar de Lemos, a bordo de uma naveta, nove dias depois de avistado,
na data que promete ficar memorável de 22 de abril de 1500,
"um grande monte, mui alto e redondo, e outras serras mais baixas
ao sul dele, e terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte
alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à
terra, a Terra da Vera Cruz". Assim relata a primorosa e detalhada
carta redigida por Pero Vaz de Caminha, o escrivão da armada.
Caminha, sabe-se agora, perdeu a vida no ano passado, impiedosamente
massacrado, nas praias da cidade indiana de Calicute. Deixou, porém,
a descrição minuciosa da terra, cujo nome já
está sendo mudado para Santa Cruz.
Trata-se
de terra povoada, habitada por gente de costumes diferentes e fala
incompreensível, porém branda e alegre no trato. "A
feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados,
de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma
cobertura, e estão acerca disso com tanta inocência
como têm em mostrar o rosto", anotou o escrivão. No
breve período que lá passou a armada de Pedro Álvares,
não trocaram palavra que se entendesse, mas deram e ganharam
presentes. A carta de Caminha refere-se à vastidão
de Santa Cruz, que os descobridores não concluíram
ser ilha ou terra firme, embora a segunda hipótese pareça
mais provável.
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No momento, Vespúcio
está a caminho da nova terra
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Está
viajando à nova terra, neste momento, uma nova frota. Seu
objetivo é comprovar que Santa Cruz não é uma
ilha, e sim massa de terra de grandes proporções.
Sabe-se do objetivo da viagem graças aos comentários,
feitos antes da partida, pelo navegante italiano Américo
Vespúcio, comandante dessa empresa. Vespúcio não
é nenhum novato. Já esteve navegando pelas águas
e ilhas que o genovês Cristóvão Colombo desbravou,
sob a bandeira espanhola, em sua memorável empreitada para
o Ocidente em 1492. Da atual expedição portuguesa
à Terra de Santa Cruz, que ainda tem muitos meses pela frente,
certamente virá o enterro definitivo do mito ao qual se apega
tão persistentemente o bravo navegante genovês
o de que as ilhas por ele descobertas, bem mais ao norte do Mar
Oceano, fazem parte das Índias. Desde que Vasco da Gama chegou
ao Oriente, navegando em direção oposta à de
Colombo, aqui em Portugal se tem certeza do engano do genovês.
Quem
se aglomerou na Praia do Restelo, às margens do Tejo, no
domingo, 8 de março de 1500, para dar o último adeus
à expedição cabralina poderia imaginar que
a disposição das terras e águas do planeta,
tal como a conhecemos, estaria perto de se tornar obsoleta? Ninguém,
responderiam os mais apressados. Alguma idéia disso, no entanto,
já se formava. Mais instigante ainda é a possibilidade,
nada absurda, de que o capitão Cabral nem tenha sido o primeiro
enviado português a deparar com o novo território.
A política real, como se sabe, é a de tentar manter
sob estrito sigilo informações estratégicas
sobre rotas de navegação e descobrimentos de áreas
até agora desconhecidas da cristandade. Fontes bem informadas,
no entanto, dão a entender que Duarte Pacheco Pereira, o
grande cosmógrafo e navegador embarcado na armada de Cabral,
já a teria avistado, em expedição secreta que
largou em 1498 por ordem expressa do rei. O próprio Duarte
Pacheco já estaria rascunhando um estudo secreto de cosmografia
e navegação no qual menciona uma "grande terra firme"
palavras textuais, diz quem teve acesso ao rascunho
que teria avistado na sigilosíssima missão.
 Há
mais. A se confirmar a vasta extensão da nova terra, foi
outra região dela que chegou o sevilhano Vicente Pinzón,
no período entre a expedição de Duarte Pacheco
e a de Cabral. Navegante experiente, companheiro de viagem de Colombo,
Pinzón cruzou o Mar Oceano no comando de quatro caravelas
no período extraordinariamente curto de vinte dias e chegou
ao que poderia ser a porção norte do novo território.
Ao contrário da armada cabralina, encontrou habitantes hostis,
o que abreviou sua estada em terra. De volta ao mar, prosseguiu
pela costa, encontrou um rio imenso e seguiu viagem rumo ao norte.
Quem conhece de perto os meandros da corte conta, em troca da garantia
de anonimato, que dom Manuel mandou seu capitão-mor Cabral
dar por descoberta a Terra de Santa Cruz em nome de Portugal por
ser sabedor de que: primeiro, ela estava lá pronta para ser
achada; segundo, a Espanha chegar à mesma conclusão
era só uma questão de tempo.
Outra
indicação de que a descoberta não foi por acaso
são as instruções de viagem que o capitão
recebeu, ditadas pelo almirante Vasco da Gama em pessoa. Gama orientou
Cabral a, saindo do Tejo, tomar o rumo da Ilha de São Nicolau,
nos Açores. Até aí, tudo dentro dos conformes.
O truque já conhecido para escapar das intempéries
que assolam a navegação na costa africana é
sair para mar aberto, no rumo oeste, num vasto semicírculo,
passando pelas ilhas açorianas, primeira parada das expedições.
Gama, no entanto, manda Cabral passar sem aportar. "Se ao tempo
que aí chegarem tiverem água em abastança para
quatro meses, não devem pousar na dita ilha nem fazer nenhuma
demora", instrui. Cabral não parou seguiu os ventos
para o mar aberto e para a grande curva a oeste. Com um detalhe:
por motivos que não explicou publicamente, seguiu muito além
que o descobridor do caminho das Índias. De tanto abrir a
curva, foi dar com os costados, literalmente, nas praias de um mundo
novo. Seria então uma escala planejada? Confirmação
oficial não existe, e talvez a dúvida permaneça
por muito tempo. Para aumentar o mistério, sabe-se que mestre
João Faras, médico do rei e conhecedor das artes da
navegação pelas estrelas embarcado na armada de Cabral,
também escreveu a dom Manuel para falar sobre a localização
exata da nova terra. Bastaria, disse o reputado cientista, consultar
o mapa-múndi que existe em Lisboa, em poder do navegador
Pero Vaz da Cunha, vulgo Bisagudo. Ou seja, o território
já seria não só conhecido como secretamente
mapeado.
Pouco versado nas artes da cartografia, o escrivão Pero
Vaz de Caminha, ao contrário, tem os olhos mais voltados
para a paisagem humana e o cenário natural da terra encantada
em que a esquadra aportou. O escrivão é todo surpresa
e deslumbramento com as florestas, os rios, os bichos e, principalmente,
as gentes. Com base na sua descrição, percebe-se que
os nativos, de físico, se parecem com os das Índias
Ocidentais aqueles indivíduos que Colombo trouxe de
volta e exibiu inclusive em Lisboa, na imprevista escala que aqui
foi obrigado a fazer na sua primeira e difícil viagem de
volta. A julgar pelo encontro inicial, os habitantes das verdejantes
florestas da nova terra são pacíficos, gentis e hospitaleiros.
Com
notável capacidade de observação, além
da mente aberta para uma cultura desconhecida e diferente, o escrivão
não escondeu sua admiração pela excelente forma
física desses estranhos (e, principalmente, das estranhas)
nus, bem-feitos de corpos, cabelos longos raspados na fronte,
cocares de penas na cabeça. Contou sobre sua moradia, em
cabanas longas comuns a dezenas deles, e seu hábito de dormir
em redes penduradas entre dois postes de madeira, com um fogo embaixo
para aquecer. Encantou-se com comidas exóticas: "Um muito
grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho",
e os "muito bons palmitos (que) colhemos e comemos deles muitos".
Com
enorme curiosidade se aguarda a volta dessa segunda expedição
à nova terra. Será ela abundante em ouro e riquezas?
Será seu solo propício ao cultivo e à criação?
Nosso escrivão não tinha dúvida: "A terra é
de muitos bons ares, frescos e temperados. Águas são
muitas, infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a
aproveitar, dar-se-á nela tudo". A primeira amostra dessa
luxuriosa fertilidade já chegou a Portugal com a naveta de
carga em que Gaspar de Lemos trouxe a notícia do achamento
ao rei troncos de brasil, a madeira cor de brasa que tinge
de vermelho os finos tecidos de Flandres, da França e da
Inglaterra.
Imaginar
as maravilhas que tal descoberta pode envidar para a glória
de Portugal, eis um exercício de virar a cabeça do
cético mais empedernido. Fincar feitorias e garantir que
embarquem em naus portuguesas a pimenta-malagueta, o gengibre, a
canela, as sedas e as pedrarias das Índias é certeza
de poder e riqueza ímpares. Controlar e prover a Europa dos
escravos, do ouro e de metais preciosos da África é
garantia de um inesgotável manancial de ricos tesouros. Mas
tornar-se senhor absoluto de terras inexploradas, com tudo o que
nelas se encontra em gente, animais, preciosidades, vegetação,
rios e montes, é agigantar Portugal em escala nunca sonhada.
Só
por isso certamente já terá valido a pena o grande
investimento, humano e financeiro, representado pela esquadra de
Cabral. Ao partir, a maior frota jamais montada nestas bandas tinha
treze navios (nove naus bem armadas, três caravelas ligeiras
e a naveta de carga), 200 homens, mais bagagens, víveres
e armamento pesado. A financiá-la teve, mais que todos, os
recursos do investidor florentino Bartolomeu Marchione, judeu convertido,
um dos primeiros a pôr fé e ver fortuna na saga descobridora
dos portugueses. Mais de 100 homens se empilhavam em cada nau
uns 30 metros de espaço útil rigidamente dividido
de acordo com a hierarquia. Naufrágios e combates com forças
hostis nas Índias (milagrosamente, a frota de Cabral foi
poupada das doenças que grassam nas expedições
marítimas, como o mal das gengivas e a fraqueza dos pulmões)
cobraram o seu preço. Das doze naus que seguiram para as
Índias, só duas voltaram até agora, a capitânia
e a Anunciada, do mercador Marchione. Esperam-se para breve,
por terem sido avistadas ou encontradas em Porto de Cabo Verde,
outras quatro.
É
esse o preço que pagamos por nos lançarmos ao mar,
sempre para além de todos os limites conhecidos. Navegando
águas tempestuosas, sob estrelas não mapeadas, plantamos
uma fortaleza na África e abrimos caminho para as riquezas
das Índias. Agora, temos diante de nós o mistério
de uma nova terra, cuja vastidão apenas adivinhada nos tira
o fôlego, em espanto. O que virá de tudo isso?
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Na esquadra, espanhóis, judeus, um
africano e até indianos
O comando dos 200 homens da armada confiada ao capitão
Pedro Álvares Cabral foi entregue a fidalgos de espírito
aventureiro e sede de fortuna, como é de hábito.
As coisas práticas da marinharia ficaram a cargo de
navegadores de conhecimentos incontestáveis, como o
tragicamente falecido Bartolomeu Dias, e seu irmão
Diogo e Nicolau Coelho. A gente de mar e de guerra veio dos
campos lusitanos, tradicionais fornecedores da mão-de-obra
dos desbravamentos. É interessante notar, ainda, que
a grande quantidade de estrangeiros atraídos para Portugal
pelo avanço incontestável da navegação
nacional também estava bem representada entre a tripulação
que viu nascer a nova terra aos olhos europeus.
Sancho de Tovar, o subcomandante, é fidalgo castelhano,
com história de honra e vingança típica
de nossos esquentados primos do outro lado da fronteira
ele matou o juiz que sentenciou seu pai a ser degolado, por
causa de uma disputa política com os monarcas espanhóis.
Refugiado em Portugal, a Sancho coube a honra da soto-capitania
da armada de Cabral. Dois judeus estrangeiros também
estavam presentes na equipe multinacional. Um é o castelhano
João Faras, médico do rei e cosmógrafo.
Outro, por nome Gaspar, é hoje figura imprescindível
nos tratos marítimos de Portugal. Vivia já há
muitos anos na Índia quando se aproximou de Vasco da
Gama, dizendo ser cristão. Apareceu bem vestido, simpático
e insinuante, tanto que, mesmo confessando depois ser judeu,
procedente da Polônia, caiu nas boas graças de
Gama: batizado, dele ganhou o seu sobrenome. Gaspar da Gama,
ou Gaspar da Índia, fala as línguas e conhece
como ninguém os usos e costumes das Índias.
Foi ouvido atentamente por Pedro Álvares, com quem
embarcou, como conselheiro e intérprete.
Igualmente foi de valia um grumete negro, cativo da Guiné,
nos contatos com os habitantes de regiões africanas
O descobrimento da nova terra foi testemunhado ainda por um
cinco habitantes das longínquas Índias, embarcados
na viagem pioneira de Vasco da Gama para aprender as coisas
de Portugal, que voltavam para casa com Cabral.

Soberano por acaso, dom Manuel abre as portas
para um novo país
Venturosíssimo
dom Manuel! Ascendeu ao trono de Portugal por pura obra do
acaso nono filho do irmão mais novo do rei Afonso
V, suas chances de ganhar a coroa eram nulas, mas acabou por
se beneficiar das reviravoltas políticas e da seqüência
de mortes que tiraram de seu caminho todos os rivais. Investido
do título e do poder real em 1495, em três anos
já entrava para a História, quando o navegador
Vasco da Gama abriu o caminho oceânico para as pedrarias
e especiarias das Índias. Com o regresso, na semana
passada, das primeiras naus da esquadra de Pedro Álvares
Cabral, dom Manuel, rei por acaso, alcançou o pináculo
almejado por toda uma linhagem de ambiciosos monarcas portugueses.
Aos
36 anos recém-completados, el rei tem sob seu controle,
com certeza, mais volume de informação sobre
a arte da navegação e sobre as manhas do Mar
Oceano do que qualquer pessoa no mundo cristão. Sua
coleção de títulos, embora um tanto pretensiosa,
dá uma boa idéia do alcance da expansão
portuguesa: ele é dom Manuel I, rei de Portugal e dos
Algarves, d'Aquém e d'Além-mar em África,
senhor da Guiné e da Conquista, Navegação
e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia
e Índia.
Mais
escolado no jogo do poder, nesses cinco anos de reinado dom
Manuel aprendeu a movimentar-se nos meandros da política
palaciana, e governa hoje com a desenvoltura de um soberano
que se sabe poderoso e influente. Lembra menos o jovem recém-coroado
que mandou trasladar o caixão do poderoso antecessor,
dom João, e no caminho abriu o féretro para
contemplar o corpo coberto de cal, pensando talvez em emular
sua grandeza. Como ele, tem tino para os negócios e
está sempre pensando no lucro instruiu Pedro
Álvares Cabral a dizer ao soberano indiano que pagaria
menos pelas mercadorias compradas, mas "há de ser a
quantidade tanta que lhe rendam os seus direitos muito mais
do que agora rendem". Um tanto demorado nas decisões,
cedeu às exigências da política e dos
sogros espanhóis, ao decretar a expulsão dos
judeus portugueses não convertidos (veja
reportagem). Seu reinado carrega essa mancha, mas no
momento o Venturoso e tantos de seus súditos só
têm cabeça para as fortunas que o comércio
com as Índias promete.
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