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Economia e Negócios
VEJA, 1° de julho de 1501
Sucesso das expedições por mar ao
Oriente derruba monopólio e inaugura nova era mercantil
cabou
o monopólio estrangeiro. Os mercadores que alcançam
o Oriente por terra já não detêm o domínio
sobre o paladar europeu. Uma nova forma de concorrência chegou
com estardalhaço às rotas da pimenta, do cravo e do
gengibre, cujo fornecimento era controlado exclusivamente por mercadores
muçulmanos instalados na Árabia e no Egito. O comércio
de especiarias orientais é o maior negócio em atividade,
responsável pelo enriquecimento fenomenal de Veneza e Gênova,
os grandes distribuidores do produto trazido pelos mercadores árabes
entre os consumidores finais. Há cinqüenta anos esse
intercâmbio não sofria uma reviravolta como o que testemunhamos
agora, com a abertura de uma rota comercial oceânica entre
Portugal e as Índias, confirmada pela expedição
de Pedro Álvares Cabral. O último susto foi o estrangulamento
de 1449, ano em que os turcos se fixaram como intermediários
nas rotas e passaram a agir como especuladores. De posse de portos
estratégicos, o sultão elevou os impostos que incidem
sobre as especiarias a cifras monumentais, encarecendo em até
quarenta vezes produtos como a pimenta.
A
guinada que está acontecendo agora, ao contrário,
não só é benéfica para Portugal como
coloca o país à frente de uma reviravolta econômica
cujo desdobramento ainda é difícil prever. Os produtos
tradicionais estão ficando mais baratos, caem as barreiras
entre fornecedores e consumidores, o mercado se agita. Com um pouco
de ousadia, já é possível pensar até
em incluir nessa rede as terras do novo mundo que estão sendo
descobertas e na introdução de produtos exóticos,
como o milho tipo maís encontrado pelos espanhóis
nas ilhas desbravadas pelo almirante Cristóvão Colombo.
Portugal tem experiência no assunto: em poucas décadas,
as ilhas da Madeira, então um território virgem, se
transformaram em centros de produção de açúcar.
É verdade que ainda se trata de produto supérfluo,
freqüentemente tão raro que se destina apenas ao uso
medicinal, mas o açúcar da Madeira já chega
às 120000 arrobas anuais.
A eliminação de intermediários é a grande
novidade nesse mercado que se descortina. Com suas embarcações,
Portugal pode trazer do Oriente um quintal de pimenta por 50 cruzados,
30 a menos do que pagaria em um porto controlado por turcos, caso
de Ormuz, na Arábia. A pimenta é um gênero de
primeira necessidade, como sabe qualquer um que tenha tentado comer
a carne do gado abatido antes do inverno, por falta de pastagens,
simplesmente salgada sem a especiaria, ela é intragável.
Mas as Índias oferecem também artigos de luxo, como
seda e rubis, que encontram um mercado de endinheirados ávidos
por esses exemplos do luxo oriental.
A empresa marítima portuguesa, que agora ganha nova dimensão,
começou no início do século passado movida
pela necessidade de encontrar fornecedores do mais cobiçado
dos produtos: o ouro. Desde que Florença criou seus florins
de ouro de ampla circulação, todas as outras regiões
européias curvaram-se ao apelo das moedas preciosas. Veneza
lançou as suas em 1280. Para Portugal, cunhar moedas de ouro
era um sonho praticamente impossível até cinqüenta
anos atrás. Crises financeiras forçaram a coroa portuguesa
a reduzir a quantidade de metal em suas moedas que eram feitas
de material bem menos valioso que o ouro. Sem peso, o dinheiro português
passou por sucessivas desvalorizações. O ouro da Guiné,
na África, foi a salvação (veja
quadro abaixo). A busca do ouro logo rendeu um negócio
paralelo a Portugal. Nas primeiras viagens ao continente africano,
os portugueses fizeram prisioneiros que levaram à Europa
como escravos. Nos últimos cinqüenta anos, Portugal
escravizou cerca de 130.000 africanos,
deslocando o eixo e a natureza desse tipo de comércio
antes, eram as tribos eslavas que forneciam o grosso da mão-de-obra
escrava, vendida na região do Mediterrâneo.
O
ouro, os escravos, o marfim, da África, e agora as especiarias
das Índias, abrem as portas à transformação
de Portugal em potência marítima e mercantil. A reviravolta,
surpreendente na história de um país tão pequeno,
isolado das principais potências econômicas do continente,
só foi possível porque os pessimistas usuais não
prevaleceram. Há poucos anos, quando preparava a expedição
pioneira de Vasco da Gama, o rei dom Manuel teve de ignorar os conselheiros
segundo os quais não se devia tentar descobrir o caminho
das Índias "porque, além de trazer consigo muitas
obrigações por ser Estado muito remoto para poder
conquistar e conservar, debilitaria tanto as forças do reino
que ficaria este sem as necessárias para a sua conservação".
Dom Manuel foi em frente, e as perspectivas mais otimistas começam
a se confirmar. Nunca é demais lembrar, no entanto, que Portugal
tem seus pontos fracos. Os principais produtos portugueses de exportação,
o vinho, o azeite de oliva e o sal, disputam mercados com concorrentes
poderosos, como a Espanha. O país produz madeira bruta, mas
importa tonéis, cadeiras e leitos. Armas, ferro, trigo, centeio
e milho vêm de fora. Mercadores como os genoveses, que dominam
a maior parte do comércio no Mar Negro, atravessam a Pérsia
com suas caravanas e se destacam na navegação, continuam
a ser competidores formidáveis.
Fora
das fronteiras já trilhadas, Portugal também enfrenta
regras de comércio que não conhece. Os indianos, por
exemplo, parecem ter ficado espantados com o uso dos canhões
no estabelecimento de relações comerciais estão
acostumados às táticas menos agressivas dos mercadores
árabes, de há muito instalados em seus territórios
e nas nações vizinhas. Em Ormuz, uma ilhota árida
no Golfo Pérsico onde são comercializados os cobiçados
cavalos árabes e outros produtos orientais, existe um sofisticado
sistema de comércio. Para avisar sobre alta ou queda dos
preços, os negociantes usam pombos-correios, que voam de
Ormuz até Basra, na Árabia, e dali a Bagdá.
Em dois dias, fazem o trajeto completo, carregando a informação
com a cotação das mercadorias. Os portugueses são
recém-chegados a todas essas praças. Os muçulmanos
ainda controlam a velha rota da seda, na China, além de dominar
o comércio com cidades africanas e as Índias. O império
marítimo que começa a construir dá a Portugal
uma espetacular vantagem competitiva, mas o novo mercado mundial
certamente reserva muitos desafios.
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A
Casa da Moeda de Lisboa cunhou seu cruzado de ouro em 1457
e até hoje a moeda não foi desvalorizada. Esse
prodígio de estabilidade só aconteceu depois
que Portugal descobriu o caminho do ouro da Guiné.
Antes de lançar-se ao mar, os portugueses tinham parcas
noções sobre a origem e o trajeto do ouro que
reluz em tantas cidades européias. Carregado em enormes
caravanas, formadas por até 12.000
camelos, o ouro cruzava o Deserto do Saara em viagem de dois
meses entre as minas da Guiné e o Marrocos, onde aguardavam
os intermediários catalães, genoveses e venezianos.
Os mercadores arriscavam-se dias a fio sem uma gota d'água,
sofrendo com o intenso calor de dia e um frio de cortar os
ossos à noite. Súbitos ataques de tribos nômades
tornavam as caravanas vulneráveis e muitas remessas
não chegavam ao destino.
Depois
de ter desvendado os segredos das minas da Guiné, as
caravelas portuguesas tomaram o lugar das caravanas do deserto,
esvaziando o comércio do Marrocos e do Egito com outros
países europeus. Portugal montou fortificações
e entrepostos comerciais no litoral africano. O maior deles,
o Castelo de São Jorge da Mina, foi construído
na Costa do Ouro em 1482 e hoje desvia quase todo o metal
que era carregado através do Saara. O ouro é
trocado por cavalos, conchas das Ilhas Canárias (usadas
pelos etíopes como amuletos contra raios), tecidos
da Irlanda e da Inglaterra, vasos de cobre ou estanho. O lucro
é enorme e paga as importações de mercadorias
européias mais sofisticadas que Portugal não
produz.
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