|
Descobrimentos
VEJA, 1° de julho de 1501
Conhecimentos científicos aplicados à realidade
de bordo guiam a aventura
escrivão
Pero Vaz de Caminha relata que, ao atracar em Santa Cruz, a esquadra
de Cabral foi visitada por dois habitantes da terra, mancebos e
de bons corpos, que se metiam em almadias, embarcações
rústicas feitas de troncos de madeira atados entre si. A
cena é o encontro entre duas civilizações separadas
por um enorme abismo de evolução científica
e tecnológica. Enquanto as almadias estão entre as
mais primitivas formas de navegação usadas pelo ser
humano, as naus e as caravelas portuguesas são o que de mais
avançado a arte de navegar produziu até hoje. Nossos
navios levam a bordo instrumentos, cartas de navegação
e conhecimentos desenvolvidos pelos mais importantes sábios
da cristandade matemáticos, astrônomos, cartógrafos,
geógrafos, especialistas na construção de navios
e uso de artilharia, vindos de diversos países.
Portugal
está na liderança dos descobrimentos porque é
o primeiro, entre os países contemporâneos, a transformar
a pesquisa tecnológica e científica em política
de Estado. É uma aventura que começou dois séculos
atrás, com as primeiras e tímidas incursões
ao mundo desconhecido, e se completou com a política de portas
abertas a especialistas espanhóis, catalães, italianos
e alemães, com o propósito de avançar os conhecimentos
náuticos de nossos oficiais e marujos.
As
caravelas são um prodígio da nossa tecnologia e a
vanguarda das expedições. São navios velozes
e relativamente pequenos. Uma típica caravela portuguesa
tem de 20 a 30 metros metros de comprimento, de 6 a 8 de largura,
50 toneladas de capacidade e é tripulada por quarenta ou
cinqüenta homens. Com vento a favor, chega a percorrer 250
quilômetros por dia. Utiliza as chamadas velas latinas, triangulares,
erguidas em dois ou três mastros. Elas permitem mudar de curso
rapidamente e, em ziguezague, velejar até mesmo com vento
contrário. A grande vantagem das caravelas sobre os pesados
navios mercantes utilizados no Mediterrâneo por genoveses
e catalães é a versatilidade. Ideais para navegação
costeira, podem entrar em rios e estuários, manobrar em águas
baixas, contornar arrecifes e bancos de areia. E também zarpar
rapidamente, no caso de um ataque imprevisto de nativos hostis.
As
naus são barcos maiores e mais lentos. A capitânia
de Pedro Álvares Cabral é um navio de 250 toneladas
e, ao partir, levava 190 homens. Elas são a ferramenta essencial
no comércio já estabelecido com a África e
no nascente intercâmbio com as Índias. Na longa viagem
de ida, transportam produtos para a troca, provisões, guarnições
militares, armas e canhões. Na volta, trazem as mercadorias
cobiçadas pela Europa. Suas velas redondas são menos
versáteis que as das caravelas, mas permitem uma impulsão
muito maior com vento favorável. As caravelas, ao contrário
das naus, levam pouca carga. Nem é necessário. Nessa
época de grandes descobertas, a carga mais preciosa que elas
podem transportar é a informação sobre as rotas
marítimas e as terras recém-contatadas um produto
que não pesa nada, mas é vital para as conquistas
no além-mar.
O
grande mérito de Portugal não está na descoberta
de novidades científicas, mas na assimilação
de conhecimentos, recentes ou antigos, e sua aplicação
com propósitos bem definidos, que é abrir rotas de
comércio e agregar terras produtivas, onde não haja
governo cristão, às propriedades da coroa. As técnicas
que hoje permitem aos nossos navios cruzar o Mar Oceano, dobrar
o Cabo da Boa Esperança e chegar às Índias
são herança dos fenícios, dos egípcios,
dos gregos e de várias outras civilizações
antigas, guardadas e aprimoradas pelos mouros nos últimos
séculos. A vela latina, que equipa nossas caravelas, foi
trazida pelos árabes do Oceano Índico, depois de conquistarem
o Egito. O uso do compasso para anotar a direção e
a trajetória do navio chegou ao Ocidente no começo
do século XIII. A confecção de cartas náuticas
os italianos também aprenderam dos árabes, um século
atrás. O astrolábio, um revolucionário instrumento
de localização utilizado pela esquadra de Cabral na
Terra de Santa Cruz, existe desde a Antiguidade e foi recuperado
pelos astrólogos medievais para observar, em terra, o movimento
e a posição dos astros no firmamento. Mesmo a bússola,
fundamental nos descobrimentos, já é usada no Mediterrâneo
há muito tempo por genoveses, venezianos e catalães.
São
muitos os desafios científicos que os descobrimentos impuseram
a Portugal. O maior deles, evidentemente, é sair ao mar alto
e voltar para casa com segurança. Até pouco tempo
atrás, a navegação se restringia aos portos
europeus e da área em volta do Mediterrâneo, todos
mapeados e bem conhecidos do mundo civilizado desde a época
dos romanos. Navegava-se mais por experiência que em
Portugal chamamos de "conhecenças" do que por instrumentos.
O único tipo de carta náutica disponível até
anos atrás eram os mapas do Mediterrâneo desenhados
pelos italianos no século XII. Conhecidos como carta-portulano,
forneciam direções e distâncias aproximadas
entre os principais portos europeus e africanos.
No
começo, as navegações portuguesas pelo Mar
Oceano foram relativamente simples, apesar do desafio de enfrentar
o desconhecido: bastava ir bordejando a costa da África.
Navegava-se apenas durante o dia, usando como referência pontos
geográficos, como rios, golfos e montanhas. Quando era necessário
navegar à noite, a referência era a estrela Polar,
entre nós conhecida como Tramontana. Quanto mais alta a estrela
estivesse no céu, mais longe da linha do Equador estaria
o navio, na direção do Pólo Norte. As medições
eram feitas a olho nu. Depois foram aperfeiçoadas com o uso
de um instrumento chamado quadrante. É um arco graduado,
de 45 graus equivalente a um quarto da esfera terrestre ,
equipado com uma agulha e uma linha esticada por um peso de chumbo
na ponta. Apontado para a Tramontana, o quadrante fornece a latitude
exata em que se encontra o navio.
Quando
os nossos marinheiros passaram a se aventurar mais longe da costa,
tudo ficou mais difícil. Para fugir das calmarias do Mar
Oceano, às vezes é preciso passar semanas sem avistar
terra ou qualquer outro ponto seguro de referência. Além
disso, ao se aproximar da linha do Equador, a Tramontana fica encoberta
no horizonte. Sem ela, é impossível calcular a latitude
com ajuda do quadrante. Foi para superar esse tipo de obstáculo
que os reis portugueses se empenharam em buscar sábios em
outros países.
Os
sábios estrangeiros têm vindo a Portugal por duas razões.
A primeira é a disposição da corte de oferecer-lhes
postos de trabalho e status social que eles não tinham em
outros reinos. De cientista em seu país de origem, esses
astrônomos, matemáticos e cartógrafos passaram
a trabalhar diretamente como conselheiros dos monarcas portugueses
e com eles compartilhar a vida na corte. O segundo motivo é
a comparativa tolerância religiosa dos portugueses. Mais inflexíveis,
os monarcas espanhóis, precursores da idéia de expulsar
judeus e mouros que não aceitassem abraçar o cristianismo,
beneficiaram Portugal indiretamente. Os conselheiros que dom João
II reuniu para desenvolver os conhecimentos náuticos são,
em sua maioria, sábios judeus expulsos da Espanha em 1492.
m
dos primeiros a trabalhar em Portugal foi um judeu convertido ao
cristianismo trazido da Ilha de Maiorca para Sagres, em 1420, pelo
infante dom Henrique, o Navegador. Mestre Jaime, cujo nome de nascimento
era Jafuda Cresques, ficou conhecido como "o Judeu da Bússola".
Cartógrafo e fabricante de instrumentos náuticos,
acredita-se que tenha sido o primeiro a ensinar aos portugueses
o uso da bússola, a agulha magnética que, protegida
por uma cúpula de vidro e disposta sobre a rosa-dos-ventos,
indica a direção do Pólo Norte e ajuda a identificar
a posição percorrida pelo navio.
A
bússola e o quadrante são muito úteis às
navegações, mas a grande novidade a bordo dos nossos
navios neste começo de século é o astrolábio.
É um disco, metálico ou de madeira, de 360 graus no
qual estão representados todos os astros do zodíaco.
Desde a Antiguidade era usado em terra firme, para calcular a posição
e o movimento dos astros no céu. O que os portugueses fizeram
com a ajuda dos sábios estrangeiros foi simplificá-lo
e adaptá-lo para uso em alto-mar. O astrolábio permite
calcular a latitude pela passagem meridiana do Sol, ou seja, ao
meio-dia, quando o astro se encontra no seu ponto mais elevado no
céu. Para isso, é necessário enquadrar o raio
solar em dois orifícios existentes no aparelho e, em seguida,
fazer alguns cálculos matemáticos.
A
vantagem tecnológica alcançada pelos portugueses nasceu
não propriamente do uso do astrolábio, mas da simplificação
desses cálculos. Até pouco tempo atrás, exigia-se
para isso certo conhecimento de matemática e astronomia,
um grande obstáculo para nossos marujos, dos quais a maioria
é rude e iletrada. Outro problema é que os manuais
de astronomia e navegação estavam escritos em hebraico,
árabe ou latim. A principal tarefa dos conselheiros de dom
João II foi reunir todo esse conhecimento, adaptá-lo
para a navegação e traduzi-lo para o português,
em linguagem acessível aos marujos. O resultado é
um manual chamado "Regulamento do astrolábio e do quadrante
para determinar cada dia a declinação, o deslocamento
do Sol e a posição da estrela Polar". Dividido em
cinco partes, ele contém instruções minuciosas
sobre como determinar a latitude, com dezessete exemplos práticos
em diferentes posições da esfera terrestre. Também
ensina a registrar na carta náutica o caminho percorrido
pelo navio. A última parte é um calendário
de doze meses, sem indicação do ano. Esse calendário
informa, para cada dia do ano, a posição do Sol na
abóbada celeste.
viagem
de Cabral, pelo que se tem notícia, foi a primeira a fazer
uso sistemático do astrolábio como instrumento de
navegação embora Vasco da Gama já tivesse
testado o aparelho na precursora missão em que descobriu
o caminho das Índias, há três anos. Uma prova
da utilidade do astrolábio está na carta que Mestre
João, o médico do rei e especialista em navegação
embarcado na frota de Cabral, escreveu a dom Manuel. Ele conta que,
no dia 27 de abril de 1500, segunda-feira, tomou a passagem meridiana
do Sol na Terra de Santa Cruz e calculou a latitude local em 17
graus. Diz ter chegado a essa conclusão baseando-se nas "regras
do astrolábio", referência ao manual de instruções.
Na carta, Mestre João reclama da dificuldade de usar o instrumento
em alto-mar, devido ao balanço do navio, mas encerra com
um conselho: "Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura
do Sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com o astrolábio,
que não com quadrante nem outro nenhum instrumento". É
assim que, na prática, vão se somando os conhecimentos
tecnológicos que guiam a aventura dos descobrimentos.
|
O
crescimento da indústria naval transformou a paisagem
do litoral português. Os dois maiores estaleiros funcionam
em Lisboa e na cidade de Lagos, no Algarve, perto de Sagres.
São formigueiros humanos, repletos de esqueletos de
caravelas e naus em construção, que atraem gente
de toda a Europa. O trabalho é dirigido pelos mestres
carpinteiros, artesãos altamente especializados, cujo
ofício é passado de pai para filho. São
eles os encarregados de selecionar a madeira adequada para
cada seção do navio. O carvalho para a quilha
a espinha dorsal dos barcos é trazido
do Alentejo, na fronteira com a Espanha. O pinheiro para o
casco vem da costa do Atlântico, cujas florestas são
reservas protegidas por lei. O lastro peso necessário
para manter o navio estável abaixo da linha-d'água
é feito de rochas. Nas expedições
à África e, a partir de agora, também
às Índias, as rochas são lançadas
ao mar no porto de destino e substituídas pela carga
de especiarias, que fazem o papel de lastro na viagem de volta.
 |
| Os estaleiros atraem gente de toda
a Europa e mudam a economia |
Também
vital na construção dos navios é a disponibilidade
de ferro e de material de vedação, como breu,
estopa, alcatrão e cânhamo. A escassez desse
tipo de suprimento obriga Portugal a gastar muito dinheiro
com importação em outros países. O ferro
de melhor qualidade vem das minas bascas, enquanto o cânhamo
é produzido nas regiões de Bordéus e
da Bretanha, na França. Apesar dos avanços nas
técnicas de vedação, a inundação
dos navios pela água do mar ainda é um grande
problema nas viagens de longa distância. Nossos mestres
construtores desenvolveram uma bomba de sucção,
feita de madeira com anéis de ferro. Acionada manualmente
por um marujo, essa bomba funciona dia e noite nas viagens
oceânicas. Só assim é possível
manter os barcos à tona.
Outra
novidade incorporada à construção naval
portuguesa recentemente é o seguro das embarcações.
Antes de partir, cada navio contribui com 2% do valor de sua
carga para o tesouro real. Em troca, viaja protegido contra
perdas em guerras, tempestades e outras catástrofes
naturais, e também contra taxas inesperadas em portos
estrangeiros.

Uma
contribuição decisiva para a aventura portuguesa
nos mares foi dada, nos últimos anos, por um sábio
judeu de origem espanhola. Abraham-ben-Samuel Zacuto, chamado
Abraão Zacuto, é o autor de Almanaque Perpétuo,
obra de astrologia que, adaptada ao uso náutico, se
tornou fundamental nas expedições do descobrimento.
Com 316 páginas e 56 tabelas, o almanaque de Zacuto
fornece todas as informações necessárias
para a determinação da latitude, incluindo as
chamadas declinações, que são as diferentes
posições do Sol no zodíaco a cada dia
do ano. Redigido originalmente em hebraico, o almanaque foi
traduzido para o latim por outro estudioso judeu, José
Vizinho, médico do rei dom João II. Hoje, é
um manual prático de orientação para
nossos pilotos.
Natural
de Salamanca, a cidade do saber na Espanha, Zacuto teve de
partir depois da expulsão dos judeus pelos reis católicos,
em 1492. Imediatamente foi convidado a trabalhar em Portugal
como conselheiro de dom João II e, depois, de dom Manuel.
Deu instruções pessoais a Vasco da Gama antes
da partida da expedição que descobriu o caminho
das Índias. Zacuto pertence a uma linhagem de astrólogos
que costumavam passar dias e noites observando o céu
na tentativa de prever, no movimento dos astros, o destino
do ser humano. Hoje, com o avanço da pesquisa científica,
a astrologia vai sendo relegada ao terreno das superstições,
pelo menos entre os ilustrados. Sem ela, no entanto, a humanidade
não teria acumulado tantos conhecimentos sobre os astros,
de vital importância para as navegações
portuguesas.
|
|