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Literatura
Coletânea de belas sentenças estimula a reflexão
e ajuda a entender os clássicos
teólogo
Desidério Erasmo, de 34 anos, conhecido como Erasmo de Roterdã em
referência à cidade holandesa que o viu nascer, é um nome em ascensão
nos meios acadêmicos e intelectuais de toda a Europa. A razão do
repentino entusiasmo para com esse aplicado estudioso das Santas
Letras e da filosofia, de quem o currículo inclui uma temporada
como livre docente na prestigiada Oxford, Inglaterra, sua obra de
estréia, intitulada Adágios. Publicada no verão de 1500 pela editora
Philippi, de Paris, com o título latino Adagiorium Collectanea,
é uma compilação de cerca de 800 citações literárias breves, entre
provérbios, máximas e metáforas, pinçadas com paciência das fontes
mais diversas, sobretudo de autores da Grécia antiga. Adágio, lembra
o autor, é todo ditado célebre que contemple alguma novidade ou
contribuição à sabedoria. Daí o grande interesse que o livro vem
despertando. Ele funciona como uma espécie de oráculo, em que cada
sentença é reveladora.
Erasmo
de Roterdã é um dos muitos estudiosos de nossos dias
a beber na fonte dos ensinamentos dos sábios da Antiguidade.
A tradução de textos do grego está entusiasmando
os chamados "humanistas", cultores da poética,
da retórica e da política. Sob a influência
dos antigos filósofos, os atuais pensadores esboçam
uma nova maneira de ver o mundo. Exaltam, por exemplo, a capacidade
do homem de atuar sobre o mundo e defendem o direito à liberdade,
tanto intelectual quanto de se fazer aquilo que se deseja. Na compilação
de Erasmo, a ênfase está nos dizeres de moral prática,
talvez com um duplo objetivo: sintetizar o pensamento clássico,
tecendo ao mesmo tempo uma espécie de código de ética
que balize as liberdades dos humanistas. "Ele caiu na fossa
que cavara", entre tantos provérbios anônimos,
é um exemplo desse tipo de conselho.
De
autores antigos que hoje são conhecidos, graças à
divulgação que os humanistas têm feito de seus
textos, há dizeres de Sócrates, caso de "Conhece-te
a ti mesmo", e de Plutarco, cuja ponderada recomendação
"Prefere a metade ao todo", Erasmo elucida, com olhos
no público ainda não habituado a ler obras da Antiguidade,
afirmando que "o excesso é sempre nocivo". Para
o leitor que quer ficar atualizado com as novas correntes de pensamento,
importa muito penetrar no sentido de sentenças como essas.
A intenção de Erasmo é didática. Em
alguns casos, como em "Doce é a guerra para os que não
a conhecem", as análises alongam-se por páginas
a fio, incluindo comparações, paráfrases e
até comentários de terceiros.
Não
se pense, porém, que Erasmo é um pensador trancado
numa torre de marfim. Os Adágios nasceram de uma necessidade
bem concreta. Voltando à França, após um ano
na Inglaterra, Erasmo foi surpreendido por um decreto do rei Henrique
VII que, para evitar a evasão de divisas, havia proibido
os estrangeiros de deixar o país carregando ouro. Quando
chegou à alfândega, Erasmo foi obrigado e deixar com
os funcionários aduaneiros seu pé-de-meia. Forçado
a arranjar dinheiro rápido, dedicou-se à compilação
de frases e citações literárias que entusiasmaram
o editor Philippi. Apesar das circunstâncias em que foi concebida,
a obra merece elogios. A devoção de Erasmo pelas belas
sentenças é emocionante. Ela nos estimula a compartilhar
a sabedoria acumulada por séculos de reflexão. Erasmo
deixa transparecer desde já seu inconformismo, plasmado na
forma como ele luta para que o saber avance. Outra qualidade, rara
nos autores de hoje, é a lucidez. De sólida formação
religiosa, Erasmo tem feito todo o possível para manter sua
independência, libertando-se dos dogmas em favor do humanismo.
Ao mesmo tempo que milita pela unidade da Igreja, deixa entrever
sua maior ambição, que é contribuir para a
evolução da filosofia cristã.
Prova
disso é que, enquanto os Adágios continuam entre os
livros de maior sucesso do ano, Erasmo já anuncia sua próxima
obra, que deverá ter por título Manual do Cristão
Militante. Segundo o autor, o livro, em parte já escrito,
versa sobre um ideal: uma nova Igreja, na qual a religião
seja interiorizada, que evite os excessos místicos e os debates
estéreis da escolástica, e ao mesmo tempo não
tema o racionalismo que vem confrontando os dogmas do cristianismo.
"Preconizo a aliança das disciplinas humanas e das boas-letras
com a verdade evangélica. Na religião, o acúmulo
de indulgências, devoções praticadas mecanicamente
e sem compreensão, é da ordem da impostura, do desatino",
critica Erasmo. "A teologia escolástica decadente reina
sobre o pensamento religioso. Com seu método silogístico,
as verdades cristãs são esvaziadas de seu alento,
calor e sangue", conclui. Se a Igreja quiser mudar por dentro,
está aí um bom começo.
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