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Descobrimentos
VEJA, 1° de julho de 1501

Uma intrépida cepa de navegadores parte
para decifrar o desconhecido
ue
gente é esta que está reformulando os contornos do
mundo em que vivemos? E como esta cepa de desbravadores viceja,
mais do que em qualquer outro lugar, em Portugal? Os homens são
vistos a toda hora, nos estaleiros da Ribeira das Naus, nas tendas
das peixeiras ou nos debates que animam a corte. São marujos
simples, tocados do campo para o mar pela fome ou pela peste. Pilotos
experientes, orgulhosos da ascensão profissional. Fidalgos
de linhagem respeitável e fortuna pouca, dispostos a servir
ao rei, à Igreja e às próprias necessidades
financeiras. Aventureiros, sábios, estrangeiros das mais
diversas procedências.
Sair
ao mar é, para os portugueses, questão de destino
e necessidade. Nesta nesga de terra espremida entre o mar, de um
lado, e a Espanha, de outro, o futuro é navegar. E é
isso que tem sido feito nas últimas décadas. A arrancada
foi dada por dom Henrique, o infante como são chamados
os filhos mais novos do rei , que mereceu o epíteto
de o Navegador. Por quase quarenta anos, entre 1422 e 1460, fez
palmilhar com suas caravelas o litoral oeste da África. Acumulou
fortuna, abriu horizontes e definiu os rumos do Portugal moderno.
Dom Henrique teve a prova definitiva de que navegar era o destino
de Portugal quando, na Ceuta tomada aos muçulmanos do norte
da África pelos soldados de seu pai, dom João, viu
de perto o que a Europa estava perdendo ou pagava fortunas para
ter: armazéns abarrotados de especiarias, jóias e
tecidos do Oriente e ouro, prata e marfim do interior africano.
Viu, mas não aproveitou, pois a ocupação cristã
removeu Ceuta da rota das caravanas. A partir daí, dom Henrique
abraçou o que seria o objetivo de sua vida: ir às
fontes da riqueza, de navio, por onde ninguém tinha navegado
antes.
Tímido
e retraído, dom Henrique, uma vez definido seu destino, viveu
como um monge. Consta, inclusive, que morreu sem conhecer mulher.
Raramente ia à corte, em Lisboa, preferindo a reclusão
de seu castelo no Promontório de Sagres. Lá desenvolveu
a caravela, organizou estudos de astronomia e cartografia, abriu
caminho a novos e avançados instrumentos de navegação.
Com seus recursos, dom Henrique reuniu marinheiros audazes e os
pôs a descobrir. E como descobriram! Sem nunca ter saído
por mares desconhecidos, o príncipe acumulou, acima de tudo,
um decisivo conjunto de informações sobre o temido
Mar Oceano.
Légua
a légua, os barcos portugueses foram descendo o mar imenso,
beirando a costa da África. Eram viagens governadas pelo
pânico. Acreditava-se que no mar aberto havia monstros, serpentes
gigantescas. Foram necessários doze anos e quinze expedições
para desmentir todas as lendas sobre o oceano, que paralisavam os
marinheiros. Nessa aventura, as caravelas acharam as ilhas de Cabo
Verde, levaram os portugueses à Ilha da Madeira e aos Açores,
percorreram o litoral africano. Os marinheiros que voltavam para
contar a história traziam relatos cheios de novidades. O
retorno financeiro, bem mais concreto, firmou-se a partir de 1444,
quando a desolação deu lugar a terras habitadas. Duzentos
africanos foram capturados e prontamente vendidos como escravos
em Portugal, ponto de partida do lucrativo tráfico dos dias
atuais por determinação do papa, o rei pode
dispor desde então como quiser de todos os não-cristãos
nas terras desbravadas pelos portugueses.
Vieram,
enfim, o ouro e o marfim, e o comércio floresceu: desde 1445
que umas 25 caravelas aportam todo ano na costa conhecida da África.
Ao morrer, em 1460, dom Henrique, o infante taciturno e místico,
mudara uma nação: Portugal desviara os olhos do continente
e os voltara para o oceano imenso, e o que nele havia a ser conquistado.
Começava a epopéia que ainda não terminou.
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