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DESCOBRIMENTO
 1° de julho de 1501
Descobrimentos

Em viagem-epopéia de dois anos, Vasco da Gama chega ao objetivo

almejada viagem marítima até as Índias, agora ao alcance das caravelas, constituía missão delicada, que envolvia tino de comércio, tato de diplomata e pulso de guerreiro. O comandante aparentemente ideal foi ungido pelo rei dom João: Vasco da Gama, filho de família com fumos de fidalguia. A pouca experiência no mar era compensada pela excelência dos pilotos. Esse capitão de temperamento explosivo inaugurou o critério pelo qual seriam selecionados dali por diante os comandantes das expedições navais: o nome da família e os serviços prestados à coroa.

A expedição às Índias foi cercada de intenso planejamento estratégico. Bartolomeu Dias supervisionou pessoalmente a construção das quatro embarcações: duas naus, uma caravela e o navio de mantimentos. Enquanto se preparava a viagem, suspeita-se que navegantes singrassem o Mar Oceano em missões secretas, para melhor mapear suas correntes, avaliar seus ventos e definir a rota ideal rumo às Índias. Nesse ínterim, em 1495 morreu dom João II, o ambicioso rei-mercador. A glória da abertura da rota pelo Oriente coube a seu sucessor, dom Manuel.

 

De gênio explosivo, o almirante se indispôs com os locais, mas abriu a rota pioneira

A expedição de Vasco da Gama se pôs ao mar em 8 de julho de 1497. A caminho, os pioneiros percorreram pela primeira vez um amplo arco que os levou por vários dias a mar aberto, sem terra à vista. De volta à costa africana, fizeram algumas paradas antes e depois de cruzar o Cabo da Boa Esperança, para reabastecer e tentar contato com nativos. Numa delas, a nave de mantimentos foi queimada, como estava previsto, com a tripulação e os víveres redistribuídos entre as restantes. Quando chegaram ao desconhecido lado oriental da África, Vasco da Gama fez parada em Moçambique, Mombaça e Melinde. Com a ajuda de um piloto local, cruzou o imenso mar das Índias, feito inédito para europeus, e ancorou, enfim, na sonhada Calecute, a "terra da especiaria, da pedraria e da maior riqueza que há no mundo".

É preciso reconhecer o mérito excepcional da expedição do hoje almirante Vasco da Gama. A viagem beira a epopéia. Tateando no escuro, os navegantes deixaram para trás o que já estava mapeado e embrenharam-se no desconhecido. Tinham dois propósitos maiores: estabelecer comércio e firmar a marca de Portugal no caminho aberto. Cumpriram ambos. Vasco da Gama aportou de volta em Lisboa em setembro de 1499, dois anos depois de partir. Sua tripulação fora dizimada pela doença e pela exaustão. Só 55, dos 170 que partiram, voltaram com vida. A caravela Bérrio teve de ser abandonada e queimada por falta de braços para fazê-la navegar. No porão das duas naus, contudo, repousavam pimenta, canela, gengibre, as especiarias que a Europa não cansa de consumir. O lado menos positivo da expedição, no entanto, já é conhecido. Vasco da Gama revelou, no Oriente, mão dura demais para os objetivos da viagem e falta de tato. À menor suspeita de ameaça, disparava os canhões, que ninguém por lá conhecia. Irritadiço e violento por temperamento, entrou em confronto com os soberanos das terras em que aportou. Assim foi em Moçambique, em Mombaça e, principalmente, em Calecute – onde deparou com a dificuldade adicional de ver seus presentes recusados. Acostumado ao escambo com os africanos, dom Manuel mandara ao soberano de Calecute uns casacos e chapéus, pedras de coral, bacias de latão, um barril de açúcar, um de mel e dois de manteiga (certamente rançosa, após tão demorada viagem). O governante, que vivia cercado de fausto, achou que os presentes não passavam de um insulto.

Além dos resultados duvidosos no delicado terreno da diplomacia, Vasco da Gama ainda incorreu em um erro de avaliação: identificar como cristãos todos os não-muçulmanos naquelas bandas. Em Calecute, a delegação portuguesa chegou a confundir um templo local com uma igreja católica e a imagem de uma deusa indiana com a Virgem Maria. Coube a Pedro Álvares Cabral desfazer o engano. Nas Índias, constata-se agora, predomina uma religião até então desconhecida na Europa, com rituais misteriosos, que vedam a prática do comércio, deixado em mãos dos muçulmanos. Erros assim encerram uma lição ilustrativa: uma das grandes descobertas dessa era dos descobrimentos tem sido a de que sabemos tão pouco sobre a terra, os mares, os povos distantes. É navegando que se aprende.