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Cultura
VEJA, 1° de julho de 1501
Quadros, máquinas e até engenhos voadores:
Da Vinci reinventa o mundo
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| A Última Ceia: gestualidade, movimento,
rigorosa geometria da perspectiva e briga com o prior |
eonardo
da Vinci é um dos nossos contemporâneos que deverão
ser lembrados pelos próximos séculos como um desses
espécimes raros que deixam sua marca no tempo em que viveram.
Esse homem parece saber tudo. Em sua oficina, próxima ao
convento da Ordem dos Servos de Maria, onde vive atualmente em Florença,
aprendizes e ajudantes se debruçam sobre esboços de
quadros, mapas, esculturas, modelos de relógios e projetos
de estranhas máquinas de guerra. Filho bastardo de um modesto
notário da vila de Vinci, Leonardo é um autodidata:
não recebeu educação formal. Ainda hoje se
ressente da rejeição que sofreu ao chegar a Florença,
aos 17 anos. "Eu sei bem que alguns arrogantes acreditam poder
me criticar, porque não sou erudito. E, se não posso
citar, como eles, todos os autores, considero mais digno ler na
experiência, na mestra de seus mestres." Um homem como
ele desperta necessariamente a inveja. Leonardo da Vinci é
um pintor soberbo, conhece anatomia como poucos e é um grande
engenheiro. Desenha máquinas que só existem na sua
imaginação. Máquinas que voam ou que navegam
por baixo da superfície da água. Já criou armas
para potentados que lhe fazem encomendas. Enfim, para ele os limites
não existem.
Já
por sua aparência se vê que está aí um
homem original. Quem mais se atreveria a apresentar-se com as roupas
e as maneiras que Leonardo adotou? A longa barba que começa
a ficar grisalha, cuidadosamente penteada e frisada a ferro, serpenteia
até a metade do peito. Belo e elegante, de físico
bastante avantajado, dizem que pode dobrar uma ferradura apenas
com a força das mãos. Aos 49 anos, é um dos
criadores de um novo esporte, ainda sem nome: a escalada das montanhas
dos Alpes. Leonardo se orgulha de haver chegado ao topo do Monte
Roso, de 4634 metros de altura. A figura venerável, entretanto,
é temperada com toques extravagantes: em vez do traje masculino
convencional, que desce até os pés, suas roupas param
à altura dos joelhos e são confeccionadas em ricos
tecidos de tons rosados. Apesar de viver atualmente num convento,
ele não deixou de abrigar em seus aposentos pessoais o belíssimo
Giacomo Salaï, jovem de cabelos longos e reputação
duvidosa. "Giacomo veio viver em minha casa no dia de Santa
Maria Madalena do ano de 1490; ele tinha 10 anos de idade",
revela. Desde então, Leonardo o cobre de presentes e roupas
finas, desdenhando dos insistentes comentários sobre sua
suposta preferência por efebos. "A boca mata mais homens
do que a espada", diz. Os boatos sobre sua indiferença
ao sexo feminino que se refletiria no ar remoto e idealizado
de suas retratadas remontam a 1476 em Florença, quando
por duas vezes foi acusado da prática de sodomia, aos 24
anos de idade. As denúncias, apresentadas aos Oficiais da
Noite e dos Mosteiros, davam conta de que ele e mais três
jovens florentinos mantiveram relações sexuais com
o notório prostituto Jacopo Saltarelli. Por falta de provas,
o processo foi suspenso. A constante presença de Salaï
ao lado de Leonardo e o envolvimento do rapaz em pequenos furtos
reavivaram o falatório, desde que os dois voltaram a viver
em Florença, no início do ano passado.
Criador
da magnífica Última Ceia, afresco que adorna
o refeitório do convento de Santa Maria das Graças,
em Milão, Leonardo é um pintor tão exímio
porque, em parte, ele é muito mais que um pintor. Seus quadros
refletem seus conhecimentos descomunais em vários campos.
Da mecânica à óptica, não há ciência
que escape à sua atenção. Da música
à arquitetura, não há ramo de criação
humana que lhe seja estranho. Passa do teatro à arte da guerra
com a mesma habilidade demonstrada em pinturas que dão calor
e vida à técnica da perspectiva, desenvolvida pelo
arquiteto toscano Filippo Brunelleschi (veja quadro). Nesse sentido,
a Última Ceia é o melhor exemplo dessa técnica,
embora haja outros como a inacabada Adoração dos
Magos ou o Retrato de Ginevra Benci. Na Ceia, dentro
de um universo de rigorosa geometria, Leonardo esculpiu um arrebatador
jogo de expressões e movimentos entre Cristo e seus apóstolos.
"O
bom pintor tem essencialmente duas coisas a representar: um personagem
e seu estado de ânimo. A primeira é fácil, a
segunda é difícil, pois é preciso chegar aí
por meio de gestos e de movimentos dos membros, e isso pode ser
aprendido com os mudos, que os fazem melhor que os outros homens",
afirma o artista. Em sua obsessão de aprender com a observação
da natureza, disseca corpos de homens, mulheres e crianças
recém-falecidos, em pesquisas de anatomia lamentavelmente
ignoradas pelos doutores da medicina. No momento, planeja acompanhar
todos os estágios do desenvolvimento da criança no
ventre da mãe. Seus estudos sobre as proporções
humanas são detalhadíssimos, e deles saiu uma frase
que já começa a ficar famosa: "O homem é
o modelo do mundo". Com tal variedade de interesses, Leonardo
muitas vezes não termina projetos ou se demora demais, o
que lhe valeu a fama de caprichoso e instável. Há
hoje uma tendência a encarar o artista num grau superior ao
do artesão. O artista de talento também já
está deixando de ser aquele elemento servil que trabalha
apenas para realizar os caprichos de príncipes e papas. Leonardo
é um desses artistas orgulhosos. Quando o prior do convento
de Santa Maria das Graças reclamou da demora na execução
da Ceia ao poderoso Ludovico Sforza, o Mouro (o senhor de Milão
que encomendara o serviço), Leonardo explicou o atraso. Era
em suas longas reflexões que "os grandes espíritos
se ativam mais", em busca de idéias e soluções
no caso, sobre as figuras de Cristo e de Judas. Se o religioso,
no entanto, insistisse muito, ameaçou, ele poderia dar a
seu Judas os traços do "inoportuno e indiscreto prior".
Na
juventude, durante a década de 1470, Leonardo foi aprendiz
no ateliê de mestre Andrea del Verrochio, onde pintou o seu
primeiro quadro, a Anunciação. Apesar do erro
de perspectiva a mão da Virgem está num plano
diferente do suporte sobre o qual se apóia , a jovem
Nossa Senhora tem uma notável força interior que se
repete nos famosos retratos de mulheres executados depois pelo artista.
Embora as máquinas de guerra propostas por Leonardo continuem
no papel, os projetos militares têm impulsionado sua carreira.
Quando ainda era um artista sem amplo reconhecimento em Florença,
ganhou a confiança de Ludovico, o Mouro, de Milão,
com propostas de pontes portáteis, catapultas, canhões
e navios blindados. Seu primeiro encargo oficial em Milão,
no entanto, foi de uma pintura religiosa, a Virgem dos Rochedos.
A obra inova pelo jogo de claro e escuro (Leonardo consegue
pôr luz na obscuridade da paisagem e sombra na claridade do
rosto), emoldurando a cena que une mãe, filho e o anjo que
esboça um enigmático sorriso outra marca registrada
do pintor. A pintura a óleo, desenvolvida em Flandres, ainda
era técnica nova na Itália, e a sutileza com que Leonardo
a emprega sedimentou sua fama na corte milanesa. Foi aprimorando
essa técnica que ele deu um efeito especial a seu segundo
encargo, a magnífica Dama com Arminho o toque
da mão do pintor na tinta ainda fresca suaviza a mudança
de tonalidade do rosto. A Dama no caso retrata ninguém menos
que Cecilia Gallerani, amante do Mouro.
Daí
em diante, o artista teve as portas abertas para exercitar as múltiplas
facetas de seu gênio. Como arquiteto, trabalhou no projeto
de uma torre-clarabóia para a Catedral de Milão. Datam
desse período seus primeiros cadernos de anotações,
chamados de códices, escritos com a mão esquerda e
de maneira que só podem ser lidos quando refletidos num espelho.
Nessa época, Leonardo convenceu finalmente o senhor de Milão
a realizar um projeto que acalentava havia seis anos: elevar em
praça pública uma gigantesca estátua eqüestre
de Francisco Sforza, o pai do Mouro. A ambição de
Leonardo era realizar uma escultura que tivesse "a andadura
natural de um cavalo em liberdade". O gigantesco modelo do
animal, com 7 metros de altura, fascinou a cidade. Logo Leonardo
seria aclamado como o maior escultor da Itália. O artista
se concentrou então no monumental trabalho de fundição
da obra 72 toneladas de bronze, numa única peça
, que o obrigou a criar procedimentos industriais totalmente
novos. Quando finalmente se preparava para iniciar o trabalho, o
exército francês marchou sobre a península italiana.
Ludovico Sforza preferiu então suspender a finalização
da estátua, aproveitando o bronze para a construção
de canhões e outras armas. Até hoje, Leonardo amarga
a frustração de ver seu maior trabalho cancelado por
circunstâncias políticas. "Nada mais direi sobre
o cavalo, porque conheço nossos tempos", costuma afirmar.
Entre seus recentes projetos militares consta um intrigante ataque
submarino aos navios turcos, que atualmente ameaçam Veneza,
no qual homens andariam sob as águas carregando odres cheios
de ar, protegidos por óculos impermeáveis. A proposta,
compreensivelmente, até agora não foi aprovada. O
mesmo ocorre com os navios e veículos que se deslocam sozinhos,
além do engenho voador com asas móveis, batizado de
ornitottero todos sugeridos a ele a partir da leitura
da Epistola de Secretis Operibus, do franciscano inglês
Roger Bacon (1220-1292).
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Leonardo
é o maior mestre no emprego da técnica da perspectiva, através
da qual consegue criar a ilusão de profundidade em suas pinturas.
Na Última Ceia e mesmo em obras mais antigas, como a inacabada
Adoração dos Magos, de 1481, temos a sensação de olhar não
para uma superfície plana como a tela, mas através de uma
janela que se abre para o interior do quadro. Um esboço preparatório
que Leonardo elaborou para a Adoração dos Magos revela, passo
a passo, o método que o artista emprega para criar essa ilusão.
Ele começa desenhando uma espécie de tabuleiro de xadrez,
levemente inclinado, que será utilizado para representar o
chão da obra. Depois, vai dispondo todos os elementos nesse
tabuleiro, que serve de guia para determinar a posição e a
altura de cada parte da composição. Assim, os objetos mais
próximos do observador do quadro aparecem proporcionalmente
maiores do que aqueles mais afastados, garantindo a perfeita
sensação de profundidade.
 A
técnica tem duas regras básicas. A primeira: as linhas verticais
do tabuleiro, apesar de paralelas, devem convergir todas para
um único "ponto de fuga", situado no infinito. A
segunda determina que uma mesma fonte de luz imaginária deve
iluminar todos os objetos representados no quadro. Essa técnica,
desenvolvida pelo arquiteto Filippo Brunelleschi (o criador
da cúpula da catedral de Florença) na década de 1420, foi
formalizada no tratado Da Pintura (1435), de Leon Alberti.
Seu objetivo básico é desenhar da forma mais realística possível
o tabuleiro de xadrez que serve de base para a construção
do espaço em profundidade na pintura.
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