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Descobrimentos
VEJA, 1° de julho de 1501
Descoberta de Santa Cruz é mais uma prova do engano do
genial Colombo
Sipa-Press
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| O genovês Colombo insiste na tese de
que suas ilhas são as Índias |
ão
é caridoso apontar as fraquezas de quem passa por um mau
pedaço, como acontece atualmente com Cristóvão
Colombo, o orgulhoso almirante do Mar Oceano. Mas o fato é
que o descobrimento feito por Pedro Álvares Cabral fornece
mais uma prova de que o navegante genovês está errado:
as ilhas que desbravou, sob o patrocínio da rainha Isabel
de Castela, não só não têm nada a ver
com as Índias como parecem ser parte de todo um novo mundo,
desconhecido pelos europeus. Cumpre reconhecer os méritos
de Colombo, o primeiro a sair a mar aberto nove anos atrás
e, mais impressionante, voltar em segurança. Valente, teimoso
e competente como poucos, ele já repetiu mais duas vezes
a viagem e iniciou um processo de assentamentos no território.
Persiste, no entanto, na obsessão de comprovar que as ilhas,
em muito semelhantes à Terra de Santa Cruz, constituem alguma
parte do Oriente descrito há dois séculos pelo aventureiro
veneziano Marco Polo.
A
situação delicada vivida no momento por Colombo tem
menos a ver com seu engano e mais com as confusões ocorridas
nos novos territórios abarcados pela bandeira espanhola.
Há menos de um ano, o pioneiro desbravador do Mar Oceano,
acompanhado pelos dois irmãos, foi posto a ferros e levado
preso para Sevilha. A rainha Isabel já mandou soltá-lo,
mas Colombo não conseguiu recuperar o posto de governador
e vice-rei das Índias sim, os espanhóis insistem
na designação , e é difícil que
isso venha a acontecer. Sua administração foi um desastre.
Esperando riquezas prodigiosas, os espanhóis levados para
iniciar o assentamento enfrentaram doenças, fome e revoltas
dos nativos, impiedosamente massacrados. Afundaram na desordem e
na rebelião. Quando o interventor Francisco de Bobadilha,
enviado para pôr ordem no caos, chegou a São Domingos,
pendiam da forca sete corpos de espanhóis amotinados contra
Colombo. O descobridor do novo mundo, preso por Bobadilha, saiu
de lá debaixo de insultos. "Almirante dos mosquitos", foi
uma das ofensas mais brandas que ouviu.
Parte
do tempo que deveria dedicar a controlar os temperamentais espanhóis
foi dedicada pelo almirante a tentar comprovar a absurda teoria
de que a maior da ilhas chamada de Colba da região
é "o começo das Índias". Depois de quase circundá-la
completamente, ele fez todos a bordo dos três navios jurar,
perante um notário, que a ilha não era ilha, sob pena
de multar em 10 000 maravedis e mandar cortar a língua de
quem dissesse o contrário.
A
obsessão de Colombo é compreensível. Durante
boa parte de sua vida, ele alimentou o ambiciosíssimo projeto
de chegar às Índias navegando da Europa na direção
oeste. Ele se baseava nos relatos dos antigos e nas cartas do respeitado
cosmógrafo florentino Paolo Toscanelli, para quem a distância
marítima entre a Europa e o Extremo Oriente era relativamente
pequena. Quem poderia supor que, no caminho, existia todo esse novo
mundo? Apesar da lógica aparente, não convenceu os
portugueses, entre os quais aprendeu as artes da navegação,
além de ler e escrever. Tentou vender o projeto aos reis
da Inglaterra e da França, sem sucesso. A muito custo, convenceu
finalmente a rainha Isabel, que se sentia pressionada pelas conquistas
marítimas dos parentes e rivais portugueses. No dia 3 de
agosto de 1492, ele partiu, com duas caravelas, uma nau, autoconfiança
inabalável e a sorte, que sempre o bafejou, dos ventos a
favor. Passou dois meses no mar um recorde nunca antes alcançado.
Em 12 de outubro, às 2 horas da madrugada, um vigia gritou
"Tierra!" e viram a primeira ilha, batizada de São Salvador.
Colombo
voltou dessa primeira viagem coberto de glórias, que nunca
mais se repetiram. Com pouco retorno financeiro até agora,
as ilhas deixaram de ser novidade. O almirante, porém, não
desiste. Na última e desastrosa viagem, pisou em um trecho
de litoral onde nem ele, com toda a fé de ter achado um caminho
para as Índias, pôde deixar de ver traços de
um continente. Mas, se não são as Índias, que
pedaço de terra é esse? O Paraíso Terrestre,
concluiu o pio navegante. Como se sabe, nenhum ser vivo pode visitá-lo.
Ao descrever seu encontro com o Éden, ficou tão exaltado
que despertou dúvidas quanto a seu estado mental. Atualmente,
privado do prestígio de outrora, busca, com a costumeira
tenacidade, formar a frota da quarta viagem. Para onde? Para um
grupo de ilhas desconhecidas nos confins do oceano, suspira a corte
espanhola. Para as Índias, teima, impávido, o almirante
do Mar Oceano.
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